Peaky Blinders: O Homem Imortal é o filme que encerra a história da série da BBC, acompanhando Tommy Shelby em um novo momento político e pessoal, já no contexto que antecede a Segunda Guerra Mundial. A trama retoma seus conflitos com o poder, o legado da família Shelby e os traumas da guerra, mas divide opiniões entre fãs e críticos quanto ao impacto de seu final.

Isso porque existe um tipo de relação com certas obras que torna qualquer tentativa de análise inevitavelmente parcial. Não porque falte repertório crítico, mas porque, em algum momento, o envolvimento ultrapassa a observação e passa a ocupar um espaço mais íntimo, quase pessoal. Peaky Blinders sempre operou nesse território. E talvez por isso seja necessário começar por um reconhecimento que não enfraquece a crítica, mas a torna mais honesta: uma vez que você se apega a essa história com esse nível de intensidade, não existe mais distanciamento possível, e tampouco a chance real de que qualquer desfecho alcance aquilo que, ao longo dos anos, foi sendo projetado sobre ela. Escrever sobre Peaky Blinders: The Immortal Man, portanto, não parte de fora. Parte de dentro.
Desde que surgiu como uma produção da BBC até ganhar escala global ao entrar no catálogo da Netflix, Peaky Blinders parecia caminhar com um destino muito claro. Mais do que uma série, ela foi concebida como uma trajetória que encontraria sua conclusão no cinema, com um arco que começava nas cicatrizes da Primeira Guerra Mundial e avançaria até a iminência da Segunda. A história dos Shelby nunca foi apenas sobre crime ou ascensão social, mas sobre homens que retornaram da guerra incapazes de realmente voltar, carregando um trauma que moldava cada decisão, cada silêncio e cada explosão de violência. Havia, portanto, uma promessa de encerramento que não era apenas narrativa, mas simbólica.

Por uma série de fatores — alguns estruturais, outros profundamente humanos, como a perda de Helen McCrory, que alterou de forma irreversível o eixo emocional da história — esse plano não se concretizou como havia sido concebido. E Peaky Blinders: O Homem Imortal nasce justamente dessa ruptura. Não como o final prometido, mas como o final possível.
O resultado é um filme que parece existir em um espaço estranho, quase intermediário. Ele não se preocupa em apresentar seu universo para novos espectadores, assumindo desde o primeiro momento que quem está ali já conhece cada camada daquela história. Ao mesmo tempo, não entrega ao público mais fiel o peso emocional que se esperava de uma despedida construída ao longo de tantas temporadas. É um filme para iniciados, mas que, paradoxalmente, não recompensa completamente essa fidelidade.
É um filme para iniciados, mas que, paradoxalmente, não recompensa completamente essa fidelidade

Cillian Murphy retorna a Tommy Shelby com uma naturalidade que já não impressiona, mas reconforta. Há algo de quase automático na forma como ele ocupa esse personagem, como se não houvesse mais separação entre ator e figura. Esse reconhecimento, no entanto, não se traduz em emoção. Ao contrário, reforça a sensação de que estamos assistindo a algo já conhecido, quase reiterado, como se o filme se apoiasse mais na memória do que na construção de novos impactos.
Já Barry Keoghan traz para Duke uma vulnerabilidade que a série nunca teve tempo de desenvolver. É uma presença interessante, especialmente considerando o quanto o personagem foi uma adição tardia à narrativa, mas que aqui carrega um peso que o roteiro não sustenta completamente. Existe ali uma intenção clara de continuidade, de passagem de bastão, mas ela não se concretiza com a força necessária.
A sensação predominante ao longo do filme é a de assistir a um longo episódio final de temporada cujos capítulos anteriores foram, de alguma forma, omitidos. E essa sensação não é apenas estrutural, ela é também emocional. Peaky Blinders sempre foi uma série construída sobre acúmulo, sobre o peso progressivo das escolhas, sobre a maneira como cada decisão reverbera muito além do momento em que é tomada. O filme, ao contrário, frequentemente parece saltar essas etapas. Conflitos surgem sem tempo para maturação, decisões acontecem sem o devido enraizamento, e momentos que deveriam carregar consequência aparecem como resoluções funcionais. Não é apenas uma questão de ritmo, é uma quebra na própria lógica narrativa que a série ensinou o público a reconhecer e esperar.
A trama se desenrola em um período de transição histórica, com a Europa já mergulhada em tensões que anunciam a Segunda Guerra Mundial, e encontra Tommy Shelby em um estado quase espectral, afastado do centro de poder que um dia controlou com precisão. O filme parte de um ponto em que Tommy tenta reorganizar o que resta de sua influência enquanto lida com os desdobramentos políticos de alianças passadas, especialmente aquelas que o aproximaram de movimentos fascistas britânicos. Ao mesmo tempo, há uma tentativa de reposicionar a família Shelby dentro desse novo contexto, com Duke sendo gradualmente inserido como uma possível continuidade desse legado.

Esse movimento, no entanto, não se desenvolve com a organicidade que a série sempre priorizou. O roteiro alterna entre conflitos políticos — envolvendo figuras que orbitam o poder e disputas que deveriam carregar maior densidade histórica — e conflitos pessoais que nunca chegam a se aprofundar plenamente. Há ameaças externas que surgem e se resolvem com rapidez, decisões que parecem mais cumprir uma função de roteiro do que emergir de uma inevitabilidade dramática, e uma constante sensação de que partes importantes dessa história ficaram fora de cena. O resultado é um filme que não apenas acelera, mas que, em certos momentos, parece ignorar o próprio tempo emocional que construiu ao longo de seis temporadas.
A sensação predominante ao longo do filme é a de assistir a um longo episódio final de temporada cujos capítulos anteriores foram, de alguma forma, omitidos.
Nesse contexto, algumas escolhas de roteiro chamam ainda mais atenção pela forma como soam artificiais dentro de um universo que sempre se sustentou pela coerência interna. A introdução da chamada “irmã gêmea” de Zelda, construída com uma aura quase mística, como uma espécie de figura bruxa que atravessa a narrativa, não apenas destoa do tom mais realista que sempre marcou a série, como se revela uma solução dramática simplista para conflitos que exigiriam maior densidade. Mais do que isso, transforma Rebecca Ferguson em um recurso subaproveitado, reduzindo uma atriz de enorme presença a um elemento funcional que nunca encontra real propósito dentro da história.
Um dos eixos do filme está na tentativa de Tommy de confrontar, ainda que tardiamente, os traumas que sempre definiram sua existência. O retorno simbólico aos túneis da guerra, espaço onde sua psique foi moldada, funciona como um gesto de enfrentamento, quase um acerto de contas com a origem de tudo. É ali que o filme tenta concentrar seu peso dramático, conectando passado e presente em um único movimento. Mas, mais uma vez, a potência da ideia esbarra na falta de desenvolvimento ao redor dela.

Paralelamente, o filme insinua uma reconfiguração do poder dentro da família, com Duke sendo testado e observado, enquanto Tommy parece oscilar entre a tentativa de controle e um certo esgotamento. Há também menções ao filho legítimo, Charles, agora na linha de frente da guerra, o que deveria carregar um peso dramático significativo, mas que permanece apenas como informação, sem reverberação emocional real.
É inevitável pensar no que poderia ter sido. A continuidade mais direta da história de Oswald Mosley, por exemplo, não apenas faria sentido dentro do arco estabelecido pela série, como ampliaria o peso histórico desse encerramento. Sua ausência, ou pelo menos a falta de contextualização para quem não acompanha de perto esse período, reforça a sensação de lacuna. Ainda assim, a presença de Tim Roth como antagonista traz uma energia que o filme, em muitos momentos, parece precisar.
Mas talvez o maior problema não esteja no que falta em termos de trama, e sim no que falta em termos de emoção. Sabemos de Arthur, por exemplo, mas pouco ou nada é dito sobre outros personagens que foram fundamentais ao longo da série. Lizzie, os filhos de Ada (especialmente quando ela, uma parlamentar, é assassinada em plea luz do dia e NADA é feito ou vira notícia). Tantas figuras que ajudaram a construir esse universo simplesmente desaparecem ou são reduzidas a menções. Essa ausência não é apenas narrativa, é afetiva. E quando o afeto desaparece, o impacto inevitavelmente se dissolve.


Isso se reflete diretamente na forma como o filme lida com o próprio Tommy. Sua aparente indiferença em relação ao filho vivo, contrastando com o peso contínuo da perda de Ruby, soa desconcertante, ainda que coerente com a ideia de que ele nunca foi, de fato, um herói. Ainda assim, há algo de deslocado nessa escolha, como se faltasse uma ponte emocional que tornasse esse comportamento menos abrupto — ou, ao menos, mais compreensível dentro do percurso que acompanhamos por tantos anos.
Curiosamente, alguns dos momentos mais eficazes do filme são aqueles que dialogam diretamente com a memória do público. Quando Tommy comenta que “música e pub não combinam”, há ali um aceno claro aos fãs da primeira temporada, um reconhecimento de trajetória que funciona quase como um código interno. Da mesma forma, seu retorno simbólico aos túneis carrega um significado potente, representando um confronto tardio com aquilo que sempre definiu sua existência. São momentos que funcionam, mas que dependem quase exclusivamente da memória do espectador para alcançar seu peso, como se o filme recorresse constantemente ao passado para compensar aquilo que não consegue construir no presente.
O que torna tudo mais complexo é saber que havia um plano original mais ambicioso e, possivelmente, mais devastador. A ideia de encerrar a história no limiar da Segunda Guerra Mundial, conectando diretamente o destino de Tommy a um novo ciclo de violência global, daria a esse desfecho uma dimensão histórica e emocional muito mais ampla. As mudanças de rota — provocadas por saídas de elenco, pela pandemia e perdas — não apenas alteraram o caminho da narrativa, mas reduziram seu alcance simbólico.

Diante disso, o desfecho que parecia inevitável — a morte de Tommy Shelby como forma de encontrar algum tipo de paz — acontece sem o impacto que deveria carregar. Não porque a ideia seja equivocada, mas porque falta a construção emocional que a sustentaria plenamente. A despedida existe, mas não reverbera como deveria.
Fala-se em uma possível continuidade com uma nova geração, em uma tentativa de expandir o universo para além de Tommy. Mas há uma questão que permanece, menos como pergunta e mais como incômodo: sem ele, sem a força magnética que sustentou a série desde o início, o que resta de Peaky Blinders ainda é suficiente para justificar sua continuidade?
E talvez haja uma última pergunta, quase irônica, que o próprio filme deixa no ar sem jamais responder. O livro de Tommy Shelby foi, afinal, concluído? Será publicado? Será lido? Ou, como tantas outras promessas ao longo desse desfecho, ele existe apenas como ideia, como possibilidade que nunca se realiza?
Talvez a resposta esteja no próprio filme. Porque, ao final, o que fica não é apenas a sensação de um encerramento aquém do esperado, mas algo mais profundo e difícil de ignorar. Um esvaziamento. Como se, ao chegar ao fim, a história não tivesse perdido apenas seu protagonista, mas parte essencial daquilo que a fazia importar.
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