Por que tantos filmes mostram adolescentes arrependidos de crescer?

Sigmund Freud provavelmente não gostaria da simplificação de que “Freud explica”, já que a base de seu pensamento é justamente mostrar que quase nada na vida tem respostas simples. Ainda assim, é difícil não recorrer à psicanálise diante de uma fantasia que atravessa gerações e aparece repetidamente no cinema: a ideia de que crescer resolve.

A minha surpresa, positiva, veio quando uma geração mais jovem reagiu apaixonadamente à notícia do reboot de De Repente 30, uma comédia romântica que, ironicamente, já se aproxima de completar 30 anos de lançamento e hoje é vista como um clássico. Não se trata de uma continuação, já que os protagonistas estão em outra fase da vida, mas de uma nova versão. Recontar uma história conhecida, aliás, é algo que carregamos desde a infância, quando pedimos para ouvir a mesma história várias vezes, e Hollywood construiu uma indústria inteira a partir desse comportamento.

Existem histórias que se repetem tanto que deixam de parecer coincidência e passam a dizer algo sobre nós. Ao longo de décadas, o cinema volta sempre à mesma ideia: o adolescente que quer crescer rápido, que sente que o presente não é suficiente e imagina que, no futuro, tudo finalmente fará sentido. O problema é que, quando esse futuro chega, quase sempre por um passe de mágica, ele não resolve nada. Muitas vezes, só complica.

Esse tipo de história aparece em diferentes filmes, com pequenas variações. Em Quero ser Grande, um menino acorda adulto. Em De Repente 30, uma adolescente acorda aos trinta anos vivendo a vida que sempre quis. Em Sexta-Feira Muito Louca, mãe e filha trocam de corpo e precisam lidar com a vida uma da outra. Em 17 Outra Vez, um homem volta à adolescência carregando o peso das escolhas que fez. Em todos esses casos, a fantasia não é apenas crescer. Está a acreditar que crescer resolve.

Talvez o que esteja em jogo nesses filmes não seja apenas crescer, mas a possibilidade de reescrever a própria história. A fantasia não é só chegar ao futuro, é chegar ao futuro com a chance de fazer diferente, de corrigir escolhas, de evitar erros, de se tornar alguém mais próximo daquilo que se imaginava ser. Existe aí uma promessa silenciosa de controle sobre o próprio percurso, como se fosse possível revisitar o passado com a consciência do presente.

Essa ideia é profundamente sedutora porque toca em algo muito familiar. Quem nunca pensou em como teria feito tudo de outro jeito se tivesse, naquela época, a cabeça que tem hoje? O cinema apenas transforma esse pensamento em narrativa e o leva ao limite, permitindo que o personagem experimente, ainda que temporariamente, essa versão corrigida de si mesmo.

Há ainda um elemento recorrente nesses filmes que muitas vezes passa despercebido, mas ajuda a explicar por que essas histórias nos marcam tanto: a música.

Quase sempre existe uma cena em que o personagem, já inserido nessa nova realidade, é atravessado por uma canção. Não como trilha de fundo, mas como um momento de conexão. É ali que ele experimenta, ainda que por alguns instantes, a sensação de pertencimento àquela vida que desejava.

Em De Repente 30, a sequência ao som de Thriller faz exatamente isso. Jenna está deslocada, desconfortável, tentando entender o mundo ao seu redor, até que a música entra e reorganiza a cena. O que antes era inadequação vira fluidez, o corpo encontra um lugar, o olhar dos outros muda, e por alguns minutos ela não apenas ocupa aquele espaço, ela parece pertencer a ele. Não é por acaso que essa é a cena mais lembrada do filme.

Em Quero ser Grande, o piano gigante cumpre uma função semelhante, criando uma linguagem que dispensa explicação. Em Sexta-Feira Muito Louca, a música aparece como ponte entre identidades, como forma de atravessar o estranhamento. Esses momentos funcionam quase como um intervalo dentro da narrativa, um instante em que o desejo parece, finalmente, fazer sentido.

E talvez seja justamente por isso que essas cenas permanecem tão vivas na memória. Porque, por alguns instantes, tudo parece encaixar.

O ponto de partida é sempre parecido; existe um incômodo com o presente. A adolescência aparece como um tempo de espera, de insegurança, de sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum. Crescer surge como solução, como um atalho para finalmente se sentir no controle. Esses filmes transformam esse desejo em realidade. E é justamente aí que começa o conflito.

Quando os personagens chegam à vida adulta, o que encontram não é liberdade absoluta, mas responsabilidade, solidão e decisões difíceis. Aquilo que parecia uma solução se revela apenas uma nova forma de lidar com problemas. Em De Repente 30, por exemplo, a protagonista percebe que se tornou alguém que não reconhece, ou pior, alguém que não gostaria de ser.

Essa mudança é importante porque mostra que não se trata apenas de uma lição sobre respeitar as fases da vida. O que esses filmes revelam é que a ideia que criamos sobre a vida adulta, quando somos mais jovens, costuma ser uma fantasia. E quando essa fantasia é vivida antes do tempo, ela perde a força.

O que a psicanálise ajuda a entender

A psicanálise ajuda a explicar por que esse tipo de história funciona tão bem. Existe uma tendência muito humana de acreditar que o futuro vai resolver aquilo que hoje parece confuso. O adolescente, em especial, costuma depositar nessa ideia de ser adulto uma espécie de resposta para tudo.

Mas o que essas narrativas mostram é que os conflitos não desaparecem, eles apenas mudam de forma. Aquilo que parecia distante e organizado se torna mais complexo quando é vivido de fato.

Também há uma questão de tempo. Algumas experiências só fazem sentido quando vividas no momento certo. Antecipá-las pode até dar a sensação de amadurecimento, mas não substitui o processo real de crescer. É como se fosse possível parecer pronto sem realmente estar.

Mesmo sem usar esses conceitos diretamente, esses filmes encenam exatamente esse processo, e talvez seja por isso que continuam tão presentes e tão fáceis de reconhecer.

Quando a fantasia deixa de ser só fantasia

Durante muito tempo, era preciso um elemento mágico para que um adolescente pudesse experimentar a vida adulta. Hoje, isso já não é tão necessário.

As redes sociais, a exposição precoce e a pressão por construir uma imagem fazem com que crianças e adolescentes vivam, cada vez mais cedo, versões antecipadas de si mesmos. O espelho já não é apenas físico, ele passa a ser a tela. E é ali que identidade, reconhecimento e pertencimento começam a ser construídos.

Nesse cenário, aquilo que antes era apenas uma ideia do cinema se aproxima da vida real. Com uma diferença importante: nos filmes, quase sempre existe a chance de voltar atrás. Na vida, nem sempre.

O que esses filmes realmente estão dizendo

Aqui está a ironia principal: o desejo desses filmes não é exatamente o futuro, mas a possibilidade de voltar. O retorno é o elemento que atravessa quase todas essas narrativas e que talvez seja o mais revelador. Porque é ele que traz a sensação de controle, de reorganização do percurso. O personagem retorna à infância ou à adolescência com um novo olhar, mais consciente, mais ajustado, disposto a viver o tempo que antes queria pular.

Esse retorno não funciona como punição, mas como uma forma de reorganizar a experiência.

Isso aponta para algo mais profundo. Não existe atalho para crescer. Não há como condensar em um único gesto aquilo que depende de tempo, tentativa, erro e repetição. A experiência não pode ser simplesmente acessada, ela precisa ser vivida.

É possível ler essas histórias como um aviso para não querer crescer rápido demais, mas talvez elas sejam mais do que isso. O que está em jogo não é uma regra, mas um limite. Não é que não se deva viver o futuro antes da hora, é que, no fundo, não se consegue.

O desejo de crescer faz parte de quem somos e não é um erro, mas a ideia de que o futuro vai resolver tudo é uma ilusão que aparece em diferentes momentos da vida. De novo: Hollywood sabe disso. Talvez seja por isso que essas histórias continuam funcionando. Porque, em alguma medida, todos nós já quisemos chegar antes. E, em alguns momentos, já quisemos voltar, mas com a consciência de que só existe depois.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário