A terceira temporada de House of the Dragon chega cercada por uma expectativa que não se sustenta apenas na escala dos eventos que estão por vir, mas na mudança silenciosa de tom que começa a se desenhar.
Durante duas temporadas, a série conseguiu operar em um equilíbrio delicado entre tragédia e identificação, permitindo que o público ainda encontrasse pontos de ancoragem emocional em meio ao caos político e à violência crescente. Era uma história sobre disputa de poder, mas também sobre pertencimento, sobre legitimidade e, em certa medida, sobre escolha.

Faço parte do grupo dos puristas, aqueles que gostariam de ver uma fidelidade quase literal ao livro que deu origem à série, mas, dito isso, é preciso reconhecer que a maior parte do público que acompanha a produção não leu sequer uma página de George R. R. Martin — e ainda assim está profundamente envolvida com o trabalho conduzido por Ryan Condal. Admito também que existe uma dose de hipocrisia nessa posição. Eu mesma me apaixonei por Game of Thrones antes de finalmente ler os livros. E, mesmo depois da leitura, continuei achando que muitas das simplificações e mudanças feitas pela televisão funcionavam dentro daquela linguagem, ainda que o desfecho tenha sido problemático. Traduzir em imagens algo que já vive no imaginário coletivo nunca é um gesto simples nem confortável.
Voltando à série, boa parte dos leitores tende a se alinhar ao chamado time dos pretos, ao lado de Rhaenyra Targaryen, que, mesmo profundamente imperfeita nas páginas, ainda ocupava o lugar mais próximo de uma protagonista. Existe entre os fãs a impressão de que a adaptação vem tentando deslocar essa leitura, especialmente ao humanizar os verdes, e é preciso reconhecer que o elenco tem conseguido dar densidade a personagens que poderiam facilmente cair no caricatural. Esse é, talvez, um dos maiores méritos da série até aqui.
Diante das críticas públicas do próprio autor à adaptação, o que começa a se insinuar para a penúltima temporada é menos uma correção de rota e mais uma mudança de lógica.

À medida que a adaptação avança sobre os trechos mais duros de Fire & Blood, a guerra deixa de ser apenas um conflito entre facções e passa a funcionar como um mecanismo de deformação. Não são apenas os acontecimentos que se intensificam. São os personagens que começam a escapar de qualquer leitura confortável. E talvez seja essa a verdadeira virada da série, mais profunda do que qualquer batalha ou morte anunciada.
Rhaenyra Targaryen e o desgaste do poder
No centro desse deslocamento está justamente Rhaenyra Targaryen. Desde o início, sua trajetória foi construída como a de uma herdeira que precisava justificar a própria existência dentro de um sistema que a rejeitava. A identificação com ela nunca foi acidental. A série organizou sua narrativa de modo que sua causa parecesse não apenas legítima, mas moralmente defensável. O problema é que legitimidade não impede erosão.
O que o material original sugere — e o que a terceira temporada parece finalmente disposta a explorar — é um processo de desgaste que não se manifesta como ruptura, mas como acúmulo. Cercada por perdas, traições e pressões políticas cada vez mais violentas, Rhaenyra deixa de reagir ao mundo e passa a se fechar contra ele. A paranoia não surge como exagero, mas como consequência. E, quando isso acontece, o que antes parecia firme começa a se deslocar.

Até aqui, a série optou por enquadrá-la dentro de uma lógica mais palatável, suavizando arestas que, no texto original, sempre estiveram presentes. Existe nela uma impulsividade que muitas vezes se aproxima da inconsequência, mas que foi equilibrada por um olhar que privilegia sua vulnerabilidade e sua posição dentro de um sistema que a rejeita. É justamente essa autonomia como princesa que desperta o ressentimento de seus piores antagonistas, Alicent Hightower e Criston Cole, antigos aliados que, em momentos distintos, se sentiram usados, manipulados e descartados por ela.
Ainda assim, continuamos a torcer por aquela que se apresenta como a rainha de direito. E talvez resida aí uma das maiores diferenças entre livro e série. Porque, nas páginas de Fire & Blood, Rhaenyra nunca foi exatamente virtuosa.
Criston Cole e a moral que se quebra sem se explicar
Se Rhaenyra Targaryen caminha em direção ao endurecimento, Criston Cole oferece um movimento mais incômodo. Poucos personagens foram tão rejeitados quanto ele, e não por acaso. Sua trajetória até aqui foi marcada por impulsividade e por uma rigidez moral que frequentemente se converte em violência. O assassinato de um convidado durante um casamento permanece como um dos momentos mais difíceis de conciliar dentro da lógica da série. Ainda que sua aproximação com Alicent Hightower possa ser lida como uma espécie de “salvação”, o fato de Viserys I Targaryen não ter imposto qualquer punição — nem mesmo diante dos House Velaryon — permanece como uma das escolhas mais frágeis da adaptação, sobretudo quando comparada à construção mais coerente do livro.
Ainda assim, a segunda temporada começou a insinuar algo diferente ao deslocá-lo da corte e colocá-lo diante da guerra. Fora do ambiente que amplificava suas piores decisões, surge um personagem que não se torna melhor, mas se torna mais legível. Falta, na versão televisiva, a autoridade e a liderança que definem sua presença nas páginas, e o que se vê é mais um homem atravessado por consequências do que alguém capaz de comandá-las. Em alguns momentos, chega a haver a sugestão de um certo arrependimento, ainda que nunca plenamente elaborado.

A terceira temporada, por outro lado, não deve oferecer redenção, mas pode oferecer algo mais desconfortável, que é a possibilidade de compreensão. E isso, para um personagem construído como antagonista, altera completamente a dinâmica do olhar do público. Sua ruptura com Rhaenyra Targaryen nasce de um sentimento de queda moral, de ter quebrado votos que definem sua identidade, mas esse mesmo rigor desaparece quando ele próprio estabelece uma relação com Alicent. Não se trata apenas de hipocrisia. Trata-se de um personagem cuja moral é menos estável do que ele próprio acredita — e que a série, até agora, ainda não contextualizou plenamente.
Alicent Hightower e o peso das escolhas que não voltam atrás
Alicent Hightower é outra personagem cujo arco exige um deslocamento mais evidente na terceira temporada. E há aqui uma ironia silenciosa que atravessa toda a sua trajetória. Ela é uma das poucas sobreviventes da guerra civil da qual foi peça central — não apenas como participante, mas como alguém que ajudou, ainda que de forma indireta, a colocá-la em movimento.
Muito do primeiro ano da série se constrói sobre mal-entendidos que, isoladamente, poderiam parecer pequenos, mas que, acumulados, se tornam irreversíveis. Alicent está no centro de todos eles. Sua juventude e sua proximidade com Rhaenyra Targaryen deslocam o conflito de uma disputa dinástica para algo mais íntimo, quase irreparável, marcado por amizade, ressentimento e uma sensação constante de traição mútua.
Criada para obedecer, Alicent sempre ocupou um lugar dentro de um sistema que não lhe permitia escolha. A influência de Otto Hightower molda sua posição desde o início, e seu casamento com Viserys I Targaryen reforça esse papel. Trata-se de uma união sem afeto, atravessada por dever, na qual ela cumpre o que se espera ao dar ao rei herdeiros homens. Ainda assim, o que deveria garantir segurança política se transforma em frustração quando Viserys insiste em manter Rhaenyra como sucessora.

Esse é o ponto em que a tensão deixa de ser apenas estrutural e se torna pessoal. A dificuldade de Alicent em aceitar as escolhas de Rhaenyra — seus amantes, seus filhos, sua autonomia — não nasce apenas de um julgamento moral, mas de um contraste inevitável com a própria vida que lhe foi imposta. E é nesse contexto que seu erro de interpretação das últimas palavras de Viserys se torna decisivo. Não como um gesto isolado, mas como o estopim de um conflito que já estava em curso.
Na segunda temporada, a série a posiciona em um espaço cada vez mais ambíguo. Alicent não se afirma como uma mãe movida por devoção incondicional, tampouco como uma estrategista plenamente no controle. Aos poucos, ela é deslocada para as margens do poder pelos próprios filhos, Aegon II Targaryen e Aemond Targaryen, e até mesmo por Criston Cole, com quem mantém uma relação que também escapa a definições simples. O que resta é uma personagem atravessada pelas consequências de decisões que já não pode controlar.
Quando as perdas começam a se acumular, sua tentativa de negociação com Rhaenyra — oferecendo submissão em troca da própria liberdade e da proteção de Helaena Targaryen — revela não exatamente uma estratégia, mas uma exaustão. É o gesto de alguém que já não disputa o poder, mas tenta sobreviver a ele.

A terceira temporada tende a levar esse movimento às últimas consequências. Sem a confiança dos pretos e cada vez mais irrelevante dentro do próprio lado, Alicent se vê presa a um espaço onde nenhuma escolha é suficiente. A fuga de Aegon rompe qualquer possibilidade de acordo estável e devolve a ela aquilo que sempre tentou evitar: a necessidade de agir sem proteção, sem mediação e, talvez pela primeira vez, sem saber exatamente qual papel ainda lhe resta.
Aemond Targaryen e a construção de um inimigo que acredita estar certo
Aemond Targaryen é uma figura que se constrói quase como reflexo — ou distorção — de Daemon Targaryen. Existe nele algo de mítico, mas também de performático, como se estivesse constantemente encenando uma versão idealizada do tio. Nascido como o “spare”, aquele que nunca deveria ocupar o centro, Aemond cresce à sombra de um irmão que, aos seus olhos, jamais esteve à altura do papel que herdou. O despreparo, a inconsequência e as limitações de Aegon II Targaryen não apenas o incomodam, mas o definem.
Essa construção passa por uma infância marcada por humilhações. A dificuldade em reivindicar um dragão, a necessidade de compensar fragilidades com arrogância, a sensação constante de estar à margem de algo que lhe parecia, ao mesmo tempo, inalcançável e devido. Aemond observa tudo — o que Rhaenyra Targaryen representa, o lugar que ela ocupa, a liberdade que lhe é permitida — com uma intensidade que nem mesmo Alicent Hightower demonstra da mesma forma. Forma-se, ali, um personagem que se vê como o único verdadeiramente preparado para governar, ainda que essa convicção nunca tenha sido testada.

A perda do olho, resultado de um confronto com os sobrinhos, e a constante deslegitimação por parte do próprio irmão transformam esse ressentimento em ação. A morte de Lucerys Velaryon, ainda que apresentada como acidental, inaugura um caminho sem retorno. Já o ataque contra Aegon — uma escolha da série que se afasta do livro, onde Aemond permanece fiel ao irmão — adiciona uma camada mais inquietante ao personagem. Não se trata apenas de ambição ou rivalidade, mas de uma frieza calculada que sugere intenção, não impulso.
Essa é uma das mudanças mais interessantes da adaptação. Ao romper com a lealdade cega do texto original, a série constrói um Aemond mais autônomo, mais perigoso e, sobretudo, mais consciente do que deseja. Ele deixa de ser apenas um instrumento dentro da guerra para se tornar alguém que pretende conduzi-la.
Na terceira temporada, com a ausência de Aegon, Aemond assume a regência e, por um período, o próprio trono. É o momento em que sua convicção finalmente encontra espaço na realidade. E é também quando a narrativa pode testar até que ponto essa certeza se sustenta fora da imaginação.
Mesmo com a antecipação de certos desfechos, há ainda um eixo importante a ser desenvolvido, que é a relação com Alys Rivers. Mais do que uma subtrama romântica, trata-se de uma dinâmica que pode revelar outra camada do personagem — menos controlada, talvez, mas não necessariamente menos perigosa.

Hugh Hammer e o risco do poder por rebelião
Entre os novos eixos de tensão, Hugh Hammer surge como uma variável particularmente instável. A série constrói, desde já, um contexto que antecipa sua futura traição ao deslocar sua motivação da ambição pura para algo mais complexo, atravessado por perda, frustração e ressentimento. No livro, ele é movido sobretudo pela ambição em seu estado mais direto. Na adaptação, o que começa a se desenhar é outra coisa — uma trajetória em que a violência não nasce apenas do desejo de ascensão, mas de um sentimento de ruptura.
Sua ascensão como dragonseed foi apresentada como espetáculo, mas o que vem depois desloca o interesse da conquista para a consequência. O poder, quando surge de forma repentina, não organiza; ele expõe. E, nesse ponto da narrativa, lealdade deixa de ser um traço fixo para se tornar uma escolha constantemente renegociada. Hugh não é perigoso apenas pelo que conquista, mas pelo que ainda não decidiu ser.

Aegon II Targaryen e o aprendizado que só vem na perda
Aegon II Targaryen encarna um tipo de transformação que a série ainda não explorou plenamente. Sua trajetória até aqui foi a de um rei improvável, sustentado mais pela estrutura ao redor do que por convicção própria. Graças ao trabalho de Tom Glynn-Carney, Aegon nunca se reduz a um príncipe detestável ou a um rei mimado. Existe nele algo mais instável e, ao mesmo tempo, mais humano: um filho que não teve figuras parentais verdadeiramente presentes, um jovem que cresceu sem um papel claro e que, ao vestir a coroa, finalmente experimenta uma forma de reconhecimento que lhe havia sido negada.
É justamente essa descoberta tardia que produz seus maiores erros. Sem preparo, sem orientação e sem qualquer formação real para governar, Aegon tenta ocupar um espaço para o qual nunca foi treinado — e o faz de maneira desordenada, criando embaraços e conflitos que não nascem apenas de sua personalidade, mas de uma ausência estrutural. Nem Alicent Hightower, nem Otto Hightower, nem Viserys I Targaryen o prepararam para aquilo que dele se esperava.

Seu conflito com Aemond Targaryen não apenas rompe uma possível aliança, como transforma um aliado natural em antagonista direto. O que se segue é uma queda que a série traduz de forma quase literal: um corpo destruído, deformado, atravessado pela dor, que funciona também como imagem de um reinado que nunca chegou a se consolidar.
O que a terceira temporada sugere, ao deslocá-lo para fora do centro do poder, é a possibilidade de uma construção tardia. A experiência da perda, da fragilidade e do afastamento cria um tipo de percepção que o trono jamais exigiu dele. E é nesse deslocamento que reside uma ironia decisiva. Enquanto Rhaenyra Targaryen se endurece dentro do poder, Aegon pode, fora dele, começar a compreendê-lo.
Mais do que isso, é nesse movimento lateral, longe do centro, que ele pode enfim desenvolver a liderança que nunca lhe foi ensinada e que será determinante para a virada de uma história que, desde o início, carrega em si uma lógica trágica.
Daemon Targaryen e o cansaço de quem sempre foi o caos
Daemon Targaryen talvez seja o personagem que melhor traduz a mudança de registro da série. Durante grande parte da narrativa, ele funcionou como força de desestabilização, alguém cuja imprevisibilidade era, ao mesmo tempo, motor dramático e elemento de fascínio. A presença de Matt Smith é central para essa construção, ao equilibrar arrogância, frustração e um desejo constante de reconhecimento que, no livro, se manifestava de forma mais direta como ambição pelo trono. Na série, esse impulso se torna mais ambíguo.

Daemon ama e não ama, quer e não quer. Ele compreende a lógica do poder talvez melhor do que qualquer outro personagem, mas o que o move não é apenas o desejo de governar, e sim uma rejeição profunda àquilo que percebe como fraqueza. A bondade e a diplomacia de Viserys I Targaryen, assim como certos gestos de Rhaenyra Targaryen, não lhe parecem virtudes, mas brechas. Para Daemon, qualquer concessão abre espaço para que outros — indignos, em sua leitura — se aproximem do poder que deveria permanecer restrito.
A segunda temporada já havia sugerido um deslocamento ao levá-lo para um espaço mais introspectivo, quase suspenso. Confrontado com a profecia que sempre tratou com desdém, ele passa a operar menos por impulso e mais por uma espécie de aceitação difícil, ainda que nunca plenamente verbalizada. Sua adesão à causa de Rhaenyra deixa de ser apenas estratégica e ganha outra densidade, mais silenciosa.
O retorno à guerra na terceira temporada não significa, portanto, um retorno ao mesmo personagem. O que começa a emergir é um cansaço que não anula sua violência, mas a atravessa. E isso altera não apenas o que ele faz, mas a forma como essas ações passam a ser percebidas.
A ausência de certos elementos do livro, como a relação com Nettles, desloca o eixo de análise, mas não reduz a complexidade do personagem. Pelo contrário, abre espaço para que a série aprofunde uma ambiguidade que já está posta. O casamento com Rhaenyra, que nasce como aliança, carrega sinais de afeto, mas nunca se estabiliza como certeza. Em Daemon, até o amor permanece em suspensão.

Quando a série deixa de guiar o espectador
O que une todos esses movimentos não é apenas a evolução dos personagens, mas uma mudança estrutural na forma como a série se organiza. Até aqui, ainda existia uma tentativa de orientar o espectador, de oferecer algum tipo de eixo moral, mesmo que instável.
A partir deste ponto, essa mediação desaparece.
A guerra continua sendo o pano de fundo, mas o que realmente se transforma é a relação entre narrativa e público. Não se trata mais de escolher lados, nem de sustentar simpatias. Trata-se de acompanhar personagens que deixam de caber em qualquer leitura confortável.
E talvez seja essa a virada mais radical de House of the Dragon. Não o momento em que a guerra se intensifica, mas aquele em que o espectador percebe que já não há mais um lugar seguro para olhar essa história.
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