Como publicado em CLAUDIA
Aposto que, se você mesma já não disse que Miranda Priestly de O Diabo Veste Prada parece com alguma chefe que já teve, pelo menos uma ou duas amigas já compararam a própria realidade com a ficção. Mas como explicar isso, se nem todas trabalham no universo da moda ou são jornalistas? Mirandas se multiplicam porque aqui a ficção, inspirada em uma figura real, alcançou um exemplo arquetípico quase perfeito, e que, infelizmente, custa a saúde física e mental de muitas profissionais.
O desconforto silencioso que atravessa O Diabo Veste Prada ajuda a explicar por que, quase duas décadas depois, Miranda Priestly continua sendo menos uma personagem e mais uma experiência compartilhada. Não é apenas sobre uma chefe exigente ou sobre o glamour de uma redação de moda, mas sobre reconhecimento. O que o livro e o filme capturam com precisão não é apenas um tipo de liderança, mas um tipo de vínculo. E é esse vínculo que continua a reverberar fora da tela.
Isso mesmo, não é tanto sobre Miranda. É sobre Andy Sachs e como tantas de nós caem na mesma armadilha. E tudo volta à tona agora, com a chegada de O Diabo Veste Prada 2 aos cinemas no dia 30 de abril de 2026.

A inspiração para Miranda nunca foi exatamente um segredo. A personagem criada por Lauren Weisberger carrega traços evidentes de Anna Wintour, sua ex-chefe na Vogue, mas o impacto da personagem vai muito além dessa referência. Miranda não precisa elevar a voz. Seu poder está na economia, na frieza, na capacidade de reorganizar o ambiente ao seu redor sem esforço aparente.
Meryl Streep captou essa força em diferentes inflexões de “that’s all”, repetido em momentos distintos, mas sempre carregado de um tipo de crueldade sutil. Em sua calma, ela desestabiliza toda a equipe emocionalmente com poucas palavras e mantém o controle absoluto. Entre tantas cenas que ilustram essa dinâmica, uma permanece particularmente reveladora. Andy chega atrasada, ainda deslocada, sem compreender as regras daquele espaço. Miranda apenas observa e pontua que todos estavam esperando. Não há confronto direto, mas há um deslocamento imediato. Andy é colocada fora de lugar.
É assim que começa.
Em um setting analítico, há muitas Andys e ainda mais Mirandas, porque esse tipo de relação não é exceção, é padrão. Seguindo as formulações de Freud, podemos pensar que Miranda funciona como um Ideal do Eu externo. Ela nunca é apenas uma chefe, mas encarna um padrão quase impossível de excelência. E Andy, como tantas de nós, transforma essa posição em um Superego punitivo. A voz de Miranda passa a existir dentro dela, cobrando, julgando, exigindo mais. Uma vez que esse vínculo se estabelece, mesmo fora do ambiente de trabalho, continuamos nos sentindo insuficientes.

Para tornar tudo ainda mais complexo, existe um ponto delicado que raramente é nomeado. Há um certo prazer em ser escolhida por alguém como Miranda. Como se ser “a escolhida” legitimasse, diferenciasse, desse sentido. Na busca dessa aprovação, que quase nunca se estabiliza, a pessoa permanece na relação mesmo quando ela já faz mal.
No fundo, há outro elemento que intensifica ainda mais essa dinâmica. A relação com chefes como Miranda frequentemente reativa vínculos anteriores de autoridade, que podem ser maternos, paternos ou de figuras cuidadoras. Por isso, a intensidade. A experiência não se limita ao trabalho. Ela toca em aprovação, rejeição, validação. E, quando tudo isso se mistura, a reação frequentemente se torna desproporcional ao contexto profissional. Afinal, como vemos em Miranda, ela não apenas exige. Ela também retira reconhecimento com precisão.
E isso cria um ciclo de tentativa de reparação. A pessoa trabalha mais, se entrega mais, tentando recuperar aquele olhar que, em algum momento, validou.
O que se segue costuma ser descrito como transformação, mas, sob uma lente psicanalítica, aproxima-se muito mais de um processo de identificação. Andy, que inicialmente não valoriza aquele universo, passa a reorganizar sua identidade em função do olhar de Miranda. Não é sobre moda. É sobre pertencimento e reconhecimento. E talvez seja justamente essa dinâmica que a continuação do filme promete tensionar, ao trazer Andy de volta a esse universo em um momento em que as regras do jogo mudaram

Quando olhamos para esse tipo de dinâmica sob uma perspectiva de gênero, ela se torna ainda mais complexa. Mulheres são historicamente treinadas para performar competência e, ao mesmo tempo, gerir expectativas emocionais, antecipar demandas, evitar confronto direto. Em ambientes altamente hierárquicos, essa combinação pode ser explorada de forma quase invisível. A exigência não é apenas técnica. Ela é também afetiva. E é justamente por isso que esse tipo de relação encontra terreno fértil, porque não começa no trabalho, começa muito antes.
Na ficção, há um ponto de ruptura claro. Andy aprende a dizer não e deixa o emprego justamente no momento em que recebe o elogio que sempre buscou. Gostaria que fosse assim na vida real, mas esse corte costuma ser muito mais complexo.
Fora da tela, existem fatores concretos que sustentam esse tipo de relação. A necessidade material do emprego, a construção de carreira, o medo de perder espaço, a promessa de reconhecimento futuro. A isso se soma algo mais difícil de nomear. A sensação de que sair é, de alguma forma, falhar.
Se, em algum momento, você reconheceu uma Miranda Priestly na sua vida, vale prestar atenção. As armadilhas são progressivas e o excesso se normaliza com rapidez. O corpo costuma ser o primeiro a sinalizar que algo não está bem. Insônia, ansiedade constante, sensação de alerta permanente, dificuldade de se desligar. O desgaste não começa no colapso. Ele se instala antes, de forma quase imperceptível.

Reverter esse quadro não é imediato. Começa com reconhecimento, com a possibilidade de nomear a dinâmica e perceber que ela não é apenas individual. Há uma dimensão estrutural nesses vínculos que atravessa diferentes ambientes e contextos. A reconstrução de limites exige tempo, apoio e, muitas vezes, uma redefinição do que significa sucesso.
Em alguns casos, sair se torna necessário. Não como ruptura heroica, mas como gesto de preservação. Sim, como Andy Sachs.
E ainda assim, sair não resolve tudo, porque nem sempre encerra o processo. A internalização daquele olhar continua operando por um tempo. Há um trabalho de reaproximação consigo mesma, de reconstrução de critérios, de recuperação de autonomia e autoestima.
Por isso, não é sobre julgar Miranda Priestly, mas compreender o que ela representa. Um modelo de poder que ainda organiza muitas relações de trabalho, especialmente para mulheres que transitam entre ambição e cobrança constante por desempenho. Ela é, ao mesmo tempo, referência e ameaça, reconhecimento e limite.
Talvez seja por isso que tantas pessoas se veem nessa história. Não porque tiveram uma Miranda idêntica, mas porque já estiveram nesse lugar de deslocamento, tentando corresponder a algo que parecia indispensável. Assim, o reencontro com essas personagens é tão necessário. Não para reviver a história, mas para olhar para ela de outro lugar.
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