O anúncio da nova etapa de Peaky Blinders – confirmada por imagens com Jamie Bell no papel de Duke Shelby – tem camadas inesperadas pela novidade. Nem todas exatamente positivas.
Não diz respeito apenas à escalação do ator, que é espetacular, mas o que realmente chama atenção é o fato de que estamos falando da terceira encarnação de um personagem que deveria representar o futuro da história, mas que ainda não conseguiu se consolidar como presença dramática.
Depois de surgir com Conrad Khan na sexta temporada e ganhar uma nova leitura com Barry Keoghan em Peaky Blinders: The Immortal Man, Duke Shelby agora passa novamente por uma reformulação. E, embora o salto temporal de cerca de dez anos ofereça uma justificativa técnica razoável, ele não explica completamente por que Keoghan não permaneceu.
A resposta mais provável não está em um único fator, mas em uma combinação de decisões criativas e estratégicas que dizem muito sobre o momento atual da franquia.


Por que Barry Keoghan não ficou
Não houve, até aqui, um anúncio público que detalhe a saída de Barry Keoghan do papel, o que por si só já indica que não se trata de uma ruptura dramática, mas de um reposicionamento silencioso. Ainda assim, quando observamos o contexto, algumas razões se desenham com bastante clareza.
A primeira delas é estrutural. A nova série se passa uma década após os eventos do filme, deslocando Duke para uma fase mais madura, mais estabelecida dentro do universo criminoso e, sobretudo, mais central na condução da narrativa. Esse tipo de transição frequentemente vem acompanhado de um recasting que reflita não apenas envelhecimento físico, mas também mudança de densidade dramática. Jamie Bell, com uma carreira marcada por personagens intensos e fisicamente comprometidos, oferece esse tipo de presença com mais previsibilidade dentro de uma narrativa que parece querer reposicionar Duke como protagonista absoluto.


Ao mesmo tempo, há uma dimensão industrial que não pode ser ignorada. Barry Keoghan atravessa um momento de enorme valorização em Hollywood, com projetos de grande escala e uma agenda cada vez mais disputada, o que naturalmente impacta a disponibilidade para se comprometer com duas temporadas completas de uma série que já nasce com ambição global e cronograma exigente. Em outras palavras, manter Keoghan significaria negociar não apenas com o personagem, mas com o timing de uma carreira em ascensão acelerada.
Há ainda uma terceira camada, talvez a mais delicada, que diz respeito à própria recepção do personagem. Duke Shelby, mesmo com a presença magnética de Keoghan no filme, não se consolidou como figura emocionalmente indispensável para o público. Sua construção foi tardia, sua trajetória ainda fragmentada, e sua relação com o legado de Tommy Shelby permanece mais declarada do que sentida. Em um cenário como esse, a troca de ator se torna mais viável porque o vínculo do espectador com o personagem ainda não foi plenamente estabelecido.
O herdeiro desaparecido no filme
Essa fragilidade se torna ainda mais evidente quando olhamos para o legado direto de Tommy Shelby e, mais especificamente, para a forma como a série passou a tratar seus filhos.
Houve um momento em que essa lógica emocional era clara. O vínculo com Charles, o filho que teve com Grace Shelby, carregava peso, delicadeza e uma sensação de continuidade que sustentava até mesmo suas decisões mais brutais. Charles não era apenas uma criança em segundo plano, mas a representação concreta da parte de Tommy que ainda se permitia sentir, que ainda projetava alguma ideia de futuro.
O que o filme faz com esse legado é, no mínimo, negligente.

Charles é reduzido a uma presença fugaz, praticamente apagado da narrativa a ponto de ter sido localizado pelos fãs quase como um detalhe escondido, sem fala, no funeral de Tommy. Para um personagem que deveria encarnar a linha mais coerente de sucessão emocional, essa ausência não é apenas perceptível, ela desorganiza a própria estrutura da história.
Ao mesmo tempo, Duke é alçado à posição de herdeiro sem ter compartilhado esse percurso, sem ter vivido o suficiente dentro dessa família para carregar suas contradições, suas lealdades ou suas feridas. A série nos pede que o aceitemos como central enquanto desloca justamente o personagem que, desde o início, ocupava esse lugar de forma orgânica.
E é nesse ponto que o desequilíbrio deixa de ser sutil.
Porque a questão já não é apenas quem assume, mas como essa herança é construída e, sobretudo, como ela é ignorada.
O problema não é a troca, é o que ela revela
O que essa mudança evidencia não é apenas uma escolha de elenco, mas um sintoma narrativo. Personagens centrais dificilmente sobrevivem a múltiplos recasts sem que isso afete sua consistência, especialmente quando ainda estão em processo de construção.
Duke Shelby não teve tempo suficiente para se tornar alguém que o público reconheça como herdeiro legítimo do universo criado por Steven Knight, e a insistência em posicioná-lo como peça central sem esse lastro emocional cria uma espécie de atalho dramático que a série nunca precisou antes.
Quando Peaky Blinders funcionava em sua forma mais precisa, cada ascensão era acompanhada de conflito, cada mudança de poder vinha carregada de consequências, e cada personagem conquistava seu espaço por meio de relações densas, muitas vezes contraditórias. Ao acelerar esse processo no caso de Duke, a narrativa parece pedir ao público que aceite um protagonismo que ainda não foi devidamente construído.


Entre ambição e desalinhamento
A expansão da franquia, agora com novos nomes como Charlie Heaton e Lashana Lynch, além da ambientação no pós-guerra, reforça a intenção de transformar Peaky Blinders em algo maior do que a história original. Existe uma ambição clara de continuidade, de reinvenção e de escala.
Mas ambição, por si só, não garante coesão.
A substituição de Barry Keoghan por Jamie Bell poderia ser apenas um detalhe de bastidores, um ajuste natural dentro de uma produção que atravessa diferentes fases. No entanto, quando essa mudança se soma a decisões como o esvaziamento de personagens como Finn Shelby e à condução irregular do legado familiar de Tommy, ela passa a fazer parte de um padrão.
E esse padrão aponta para algo mais amplo.

A pergunta sem resposta
No fim, a questão não é se Jamie Bell será capaz de entregar um grande Duke Shelby, porque tudo indica que será. A questão é se a série ainda sabe exatamente quem Duke precisa ser.
Porque, sem essa clareza, qualquer ator estará sempre interpretando um personagem que muda antes mesmo de se definir.
E talvez seja exatamente isso que torna essa terceira troca menos um ajuste de rota e mais um sinal de que Peaky Blinders, ao tentar seguir em frente, começa a se distanciar do que a fez chegar até aqui.
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