Antes do prestígio, o olhar para o invisível
Sou fã de Anne Nikitin há anos. Sou colecionadora de trilhas sonoras desde sempre e a música determina – para mim – filmes que confiro apenas pelo compositor. Crescendo eram John Barry, Michel Legrand, John Williams, Ennio Morricone, Henry Mancini e James Horner que me inspiravam. Depois vieram Craig Armstrong, Patrick Doyle, Hans Zimmer, Clint Mansell, Dario Marianelli e Stephen Warbeck, abrindo caminho para uma nova geração de compositores em que Anne Nikitin se destaca com clareza.

Na onda das compositoras mulheres, a considero uma das mais versáteis e impactantes e escrevo sobre ela desde 2022. Anne não surge dentro do circuito mais óbvio da composição para grandes séries ou filmes. Sua formação é sólida, quase clássica na superfície, mas sua trajetória se desenvolve em territórios menos evidentes, onde a música não pode se apoiar em fórmulas.
Filha de imigrantes poloneses e romenos, nascida no Canadá e formada na Inglaterra, estudou com Dario Marianelli e Gabriel Yared, além de ter sido assistente de George Fenton. Uma trinca de respeito no campo das trilhas sonoras. Há quase 20 anos, em 2006, Anne venceu o prêmio da BBC para novos compositores, um início que poderia ter levado a uma carreira mais previsível dentro do cinema tradicional.
Mas seu primeiro grande impacto vem de outro lugar.
Com The Imposter, dirigido por Bart Layton, ela entra em um tipo de narrativa em que a verdade é construída, desmontada e reencenada. A trilha não conduz, ela questiona. Esse ponto define uma constante: Nikitin parece sempre mais interessada em tensão psicológica do que em espetáculo.
Entre documentários, séries e a construção de uma assinatura
Antes de chegar ao reconhecimento mais amplo, sua carreira se constrói com consistência em projetos que exigem precisão emocional. Trabalhos como American Animals consolidam essa relação com narrativas híbridas, em que realidade e ficção se confundem. Ali, a música sustenta a instabilidade sem resolvê-la.
Essa mesma lógica aparece em Little Birds, onde desejo, colonialismo e identidade se entrelaçam, exigindo uma trilha que acompanhe não apenas o drama, mas suas camadas culturais e simbólicas.
Quando chega a The Dropout, a mudança de linguagem é evidente, mas o princípio permanece. Os sintetizadores não são apenas uma escolha estética, mas uma forma de traduzir um universo obcecado por controle, inovação e narrativa de sucesso. A música acompanha a ascensão e a queda de Elizabeth Holmes sem jamais se tornar explicativa.

Ligações Perigosas e a sofisticação como disfarce
Em Dangerous Liaisons, adaptação do romance de Pierre Choderlos de Laclos, sua abordagem encontra um material que exige precisão absoluta. O universo da série é estruturado por manipulação, desejo e poder, onde cada gesto é calculado.
O que poderia ser uma trilha ornamental se transforma em um sistema de tensão. A orquestra está presente, mas não funciona como conforto. Ao contrário, introduz instabilidade. Pequenas variações, pausas inesperadas e deslocamentos harmônicos criam uma sensação constante de que algo está prestes a escapar.
A composição de uma ópera dentro da própria série, inspirada em Wolfgang Amadeus Mozart, é reveladora não pela ambição formal, mas pela forma como insere a tradição dentro do jogo dramático. A música passa a ser também manipulação.
Depois de Ligações Perigosas: expansão e contraste
O período posterior a Ligações Perigosas não representa ruptura, mas expansão — e, sobretudo, contraste.
Em Agatha Christie’s Seven Dials Mystery, Nikitin se aproxima de um universo em que ritmo, ironia e precisão são determinantes. A música precisa sustentar o mistério sem perder o senso de jogo, criando uma tensão que não é apenas dramática, mas também estrutural.


Já em Four Letters of Love, adaptação do romance de Niall Williams, o eixo se desloca completamente. A história trabalha com destino, espiritualidade e encontro, exigindo uma abordagem mais lírica. Ainda assim, Nikitin evita o sentimentalismo fácil. Mesmo quando a música se abre, ela mantém uma leve distância, como se recusasse encerrar a experiência emocional.
Entre um projeto e outro, não há apenas mudança de linguagem, mas de eixo dramático. Controle e jogo de um lado, destino e entrega do outro. E, em ambos, a mesma recusa de soluções óbvias.
A Época da Inocência e o confronto com o cânone
O novo projeto envolvendo The Age of Innocence representa um ponto de inflexão. A adaptação da Netflix, criada por Emma Frost e dirigida inicialmente por Shannon Murphy, não apenas revisita um clássico, mas o reposiciona.
Com filmagens em Praga e um elenco que inclui Ben Radcliffe, Camila Morrone, Kristine Froseth e Margo Martindale, a proposta é clara: falar com uma nova geração, enfatizando desejo, identidade e conflito interno. Confesso: me preocupa, mas certamente vou conferir.
O que menos preocupa é o trabalho de Anne Nikitin. Aqui, a trilha deixa de ser ambientação e passa a ser leitura.
A comparação com o filme de Martin Scorsese, com trilha de Elmer Bernstein, é inevitável. Bernstein construiu uma partitura que traduz a repressão por meio da elegância formal, quase como se a música obedecesse às regras daquele mundo.
Nikitin tem a oportunidade de deslocar essa lógica. Sua música pode não romper com a tradição, mas tende a expor suas fissuras. Em vez de refletir a contenção, pode tornar audível a tensão que ela produz.

Uma compositora do que não se resolve
Ao olhar para a trajetória de Anne Nikitin, o que se percebe não é uma busca por protagonismo musical, mas por precisão dramática. Sua música não tenta resolver a cena, nem oferecer uma chave emocional única.
Ela trabalha justamente no ponto em que a narrativa se abre, onde o sentido ainda não está completamente fixado.
Por isso, seu trabalho cresce com o tempo. Não pelo impacto imediato, mas pela forma como se instala na memória.
Nikitin não escreve para ser lembrada isoladamente. Ela escreve para que a experiência nunca se feche completamente.
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