Marilyn Monroe além do mito: o centenário que tenta corrigi-la

Marilyn Monroe nunca precisou de esforço para continuar sendo lembrada. O problema sempre foi outro: a forma como ela é lembrada.

Ao longo das décadas, sua imagem foi tão repetida, apropriada e simplificada que acabou substituindo a própria pessoa. Antes de qualquer filme, antes de qualquer cena, vem o ícone e a ideia de uma feminilidade fabricada para ser consumida. E, junto dela, uma narrativa que insiste em reduzi-la a uma combinação conveniente de beleza, fragilidade e tragédia.

Mas há uma esperança de que isso mude justamente no ano do centenário de seu nascimento, em 2026.

O chamado “verão de Marilyn”, organizado por duas instituições centrais da cultura britânica, não propõe apenas uma celebração. Há algo de corretivo no gesto. Ao revisitar sua filmografia e, ao mesmo tempo, expor o processo de construção de sua imagem, a proposta é deslocar o olhar do mito para o trabalho, e, talvez mais importante, para as decisões por trás dele.

A temporada do British Film Institute reorganiza sua carreira a partir de registros que raramente são colocados em diálogo. As comédias que ajudaram a consolidar sua imagem convivem com papéis dramáticos que ainda hoje surpreendem pela precisão emocional, além de participações menores que revelam uma atriz mais consciente do próprio impacto do que o sistema de estúdios estava disposto a reconhecer. Não se trata apenas de revisitar títulos conhecidos, mas de alterar a forma como eles são lidos.

Já a exposição da National Portrait Gallery toca em um ponto ainda mais delicado: a autoria da própria Marilyn.

Durante muito tempo, a narrativa dominante sustentou a ideia de que sua imagem foi imposta por Hollywood. O que essa revisão sugere é algo mais desconfortável, e mais interessante. Marilyn não apenas participou desse processo, ela o conduziu. Escolhia fotógrafos, interferia em ensaios, vetava imagens. A persona que o mundo consumiu foi, em grande parte, uma construção deliberada.

E é justamente aí que reside a tensão central.

Porque Marilyn passou boa parte da vida tentando se libertar daquilo que ela mesma ajudou a criar. Quando decide investir em papéis mais complexos, quando enfrenta o sistema de estúdios e, de forma quase inédita para a época, funda sua própria produtora, o movimento não é entendido como ambição criativa, mas como instabilidade. A tentativa de reinvenção — hoje vista como parte natural da carreira de qualquer grande estrela — foi, naquele momento, tratada como desvio.

O contraste com o presente é inevitável. Hoje, artistas que controlam sua imagem, transitam entre versões de si mesmas e assumem papel ativo na produção são celebradas justamente por isso. O que falta reconhecer com mais clareza é que Marilyn tentou fazer exatamente o mesmo, em um contexto que não sabia como lidar com esse tipo de autonomia.

Talvez por isso o relançamento de The Misfits ganhe um peso específico dentro dessa revisão. Mais do que seu último filme completo, ele funciona como um ponto de fratura entre a imagem e a pessoa. Não há ali a leveza que se espera da estrela. O que se vê é uma presença atravessada por algo mais denso, mais difícil de traduzir, e, por isso mesmo, mais revelador.

O que esse centenário parece propor, no fim, não é uma nova versão de Marilyn Monroe, mas uma leitura mais honesta. Não a negação do ícone, mas a recusa em permitir que ele continue sendo a única chave de interpretação.

Porque, se sua imagem sempre foi central para sua permanência cultural, talvez o gesto mais necessário agora seja devolvê-la ao lugar que sempre lhe pertenceu: o de alguém que não apenas existiu dentro dessa imagem, mas a construiu, negociou e, em muitos momentos, tentou escapar dela.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário