Rio de Sangue: quando a ação brasileira chega ao coração da Amazônia

Em geral, não se pensa em filme de ação e cinema brasileiro na mesma frase. Não por falta de capacidade, mas por hábito. Durante décadas, a produção nacional se organizou em torno do drama e da comédia, enquanto a ação permaneceu como um território importado, associado a uma gramática que não nos pertence completamente.

O diretor Gustavo Bonafé parte exatamente desse ponto. “Durante muito tempo, o cinema brasileiro não teve o hábito do filme de gênero, seja ação, seja terror”, me disse. “A gente trabalhou muito com humor, muito por causa da história da televisão e do teatro no Brasil.” Ao mesmo tempo, ele reconhece o óbvio que raramente é dito com essa clareza: a ação, como linguagem, ainda é percebida como um gênero estrangeiro, “principalmente norte-americano”.

Rio de Sangue, que chega aos cinemas no dia 16 de abril, não tenta negar essa influência. Mas também não se acomoda nela.

Protagonizado por Giovanna Antonelli, Alice Wegmann e Felipe Simas, o longa acompanha Patrícia Trindade, uma policial afastada após uma operação fracassada e jurada de morte pelo narcotráfico, que deixa São Paulo em direção a Santarém, no Pará. Lá, tenta reconstruir a relação com a filha, Luiza, médica que atua em uma ONG junto a populações indígenas no Alto Tapajós. O que parecia um recomeço se rompe quando Luiza é sequestrada por garimpeiros, colocando Patrícia em uma corrida contra o tempo em um território que ela não controla.

A estrutura é familiar. O deslocamento não.

“Quando você faz um filme de ação no Brasil nos centros urbanos, ele pode acontecer em qualquer lugar do mundo”, diz Bonafé. “Mas quando você coloca essa história na Amazônia, ela ganha uma particularidade brasileira que a gente não vê.” É nesse ponto que o filme encontra sua chave. Não como cenário exótico, mas como limite.

Filmado em Santarém e Alter do Chão, o projeto partiu de uma decisão que atravessa toda a narrativa. “A gente pode enxugar coisa, diminuir coisa do roteiro, mas não pode abrir mão de ir pra Amazônia”, ele me contou. “Senão o filme não acontece como deveria.”

A frase parece simples, mas explica muito do que se vê em cena.

A relação com o garimpo, com o rio, com a própria circulação dentro da floresta não é ilustrativa. O rio não está ali como pano de fundo, mas como estrutura. “Tem uma relação muito forte do garimpo com o rio, e também com o estrago que ele causa”, diz o diretor, mencionando o impacto do mercúrio e a realidade das comunidades ribeirinhas. Ao insistir nessa materialidade, o filme evita uma armadilha comum: a de transformar a Amazônia em imagem sem consequência.

“A Amazônia é um personagem”, ele resume. E, dessa vez, não soa como metáfora.

Essa escolha se estende ao modo como o filme se aproxima das populações indígenas. Desde o roteiro, houve consultoria para evitar distorções básicas, mas o processo foi além. Ao chegar à aldeia onde parte das filmagens aconteceu, a equipe foi questionada diretamente. “Foi quase uma entrevista”, ele lembra. “Eles perguntaram por que a gente queria fazer aquilo, o que a gente ia levar pra eles.” A resposta, ao que tudo indica, não podia ser apenas estética.

A partir desse diálogo, vieram decisões que afastam o filme de uma representação confortável. “A gente queria tratar o assunto de uma maneira correta e verdadeira”, diz. Isso inclui, por exemplo, a presença de personagens indígenas que não se encaixam em uma lógica idealizada. Um deles, envolvido com o próprio sistema do garimpo, só ganhou forma porque o ator aceitou interpretá-lo com a condição de que essa realidade também fosse reconhecida. “Ele falou: isso existe e precisa ser dito.”

É um tipo de escolha que não resolve a tensão, mas impede que ela seja apagada.

Nos bastidores, a busca por verossimilhança também passa por soluções práticas. Sem poder filmar em um garimpo real, a equipe construiu o espaço em uma olaria, a partir de pesquisa e da consultoria de alguém que já havia trabalhado com garimpo ilegal. “Ele explicava como funcionava, quantas pessoas por buraco, como cavava. Isso ajudou até na construção dos personagens”, conta Bonafé.

Ao mesmo tempo, o filme não esconde a natureza construída da ação. “Cinema é enganação”, ele diz, com uma franqueza rara. Em algumas sequências, os atores assumem o risco. “Na perseguição de carro, a Giovanna e o Felipe estão dirigindo mesmo”, explica. Em outras, a ilusão é cuidadosamente controlada. A tensão está justamente nesse limite.

E é no encontro entre controle e acaso que o filme encontra algumas de suas imagens mais fortes.

Uma das sequências centrais não estava no roteiro original. Desculpem o SPOILER. A ideia inicial envolvia uma execução em um espaço fechado, mas foi abandonada quando a equipe se deparou com a escala do rio Tapajós. “Quando eu vi aquela imensidão, pensei: eles têm que abandonar essa mulher num barco”, ele lembra. “É muito mais forte do que fechá-la em um tanque.” A imagem de uma personagem à deriva, cercada por um vazio que não oferece saída, nasce desse deslocamento.

“São coisas que vêm do acaso e que você percebe que vão funcionar melhor”, diz.

No fim, Rio de Sangue se constrói nesse equilíbrio instável. Entre um gênero que ainda busca espaço no cinema brasileiro e um território que resiste a ser reduzido à fórmula. Entre a influência externa e a tentativa de criar uma identidade própria. Entre o que é planejado e o que se impõe.

Talvez não seja um ponto de chegada. Mas é, com certeza, um movimento.


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