De uns tempos pra cá, o termo “narcisista” deixou o consultório psiquiátrico e passou a circular com naturalidade nas redes sociais, nos fóruns e, cada vez mais, nas narrativas audiovisuais.
O que antes era um conceito clínico, complexo e relativamente restrito, tornou-se uma chave de leitura quase automática para relações familiares. Um atalho. Um diagnóstico informal. Uma explicação que parece organizar tudo, uma simplificação que ajuda a sustentar uma determinada ótica.
E talvez seja justamente aí que mora o problema. Porque esse movimento não veio sozinho; ele veio acompanhado de fascínio.

Críticos apontam a adaptação da série The Other Bennet Sister (ainda inédita no Brasil) como mais um exemplo que captura esse deslocamento com precisão. A narrativa já não pertence diretamente a Jane Austen — como explico aqui ao analisar o surgimento do spin-off de Pride and Prejudice — mas a outro universo imaginário, no qual a Sra. Bennet, sempre uma personagem complexa e desconfortável, passa a encarnar o arquétipo da “mãe narcisista”.
Um tipo que não nasce da literatura clássica, mas da cultura digital.
E que, uma vez nomeado, passa a reconfigurar tudo ao redor.
No caso específico da família Bennet, é claro que a Sra. Bennet nunca foi um modelo de maternidade. Austen deixa evidente sua preferência pela impulsiva Lydia, mesmo quando isso compromete as outras filhas. Há imaturidade, há vaidade, há falta de discernimento.
Mas há também contexto.
Entre 1811 e 1812, quando a história se passa, não apenas a psicanálise ainda não existia, como a própria ideia de subjetividade operava sob outras lógicas. Ler essa personagem hoje como “narcisista” é possível, mas exige cuidado.
Porque há uma diferença crucial entre narcisismo e aquilo que, no senso comum contemporâneo, passou a ser chamado de “síndrome narcisista”.
E é justamente nessa confusão que o nosso tempo se revela.
O que é, de fato, narcisismo, e o que não é
Antes de tudo, é preciso separar o conceito clínico do uso cotidiano.
Na psicanálise, o narcisismo não é, por si só, uma patologia. Pelo contrário, é uma estrutura fundamental do sujeito. Desde Sigmund Freud, entende-se o narcisismo como o investimento libidinal em si mesmo, algo necessário para a constituição da identidade, da autoestima, da própria possibilidade de existir como sujeito.
Existem o narcisismo primário, constitutivo, e o secundário, que aparece nas relações.

Já o chamado transtorno de personalidade narcisista — esse sim mais raro — envolve padrões mais rígidos: necessidade constante de admiração, falta de empatia, exploração do outro como extensão de si.
O que aconteceu nos últimos anos foi uma expansão desse conceito para qualquer dinâmica em que há frustração, egoísmo ou assimetria.
E isso muda completamente o jogo.
Quando o narcisismo vira linguagem, e arma
Ao se popularizar, o termo deixou de descrever estruturas psíquicas e passou a organizar narrativas.
Nomear alguém como “narcisista” não é apenas descrever um comportamento. É criar uma hierarquia moral. De um lado, a vítima. Do outro, o culpado.
E isso tem consequências.
Porque, muitas vezes, o que está em jogo não é necessariamente um traço patológico no outro, mas a experiência subjetiva de não ser atendido, não ser visto, não ser priorizado.
Nesse deslocamento, o narcisismo pode funcionar como projeção (um mecanismo de defesa).
Quando o desejo não é correspondido, quando o limite aparece, quando o outro não ocupa o lugar que imaginamos, a leitura pode rapidamente se inverter: o outro é egoísta, o outro só pensa em si, o outro é narcisista.
A linguagem oferece uma explicação pronta para um desconforto que, em termos psíquicos, é estrutural.
Porque o outro nunca coincide com o que queremos.

A família como campo de conflito, não de harmonia
A literatura de Jane Austen nunca romantizou completamente a família. Mas ela operava dentro de uma lógica diferente.
Havia conflito, havia frustração, havia inadequação, mas também havia negociação, convivência, rearranjo.
O que vemos hoje, em muitas narrativas, é outra lógica: a da ruptura como solução.
Em The Other Bennet Sister, Mary não apenas confronta a mãe. Ela rompe. E o rompimento não é ambíguo, não é doloroso, é apresentado como necessário, quase libertador.
Essa mudança não é isolada. Se, naquele contexto histórico, uma ruptura desse tipo fosse não apenas improvável, mas socialmente impensável, hoje ela é frequentemente encorajada como forma de estabelecer limites e recuperar o amor-próprio.

Da nuance ao diagnóstico: exemplos na cultura recente
Um dos grandes exemplos de conteúdo onde narcisistas — ou a ideia deles — navegaram pelas nossas telas foi Succession. O patriarca, Logan Roy, é frequentemente lido como um pai narcisista. E ele é, de fato, um personagem com traços claros de dominação, manipulação e ausência de empatia. Mas a série nunca simplifica essa dinâmica. Os filhos também reproduzem, distorcem e participam desse jogo.
Não há pureza possível ali.
Já em Euphoria, as relações familiares são frequentemente interpretadas sob a chave do trauma e da falha parental. Mas, novamente, a série insiste na complexidade: não há um único culpado, mas uma rede de fragilidades.
Em Lady Bird, a relação entre mãe e filha poderia facilmente ser enquadrada, hoje, como “tóxica”. No entanto, o filme de Greta Gerwig recusa essa simplificação. Há amor, há ressentimento, há projeção dos dois lados.
E talvez seja justamente por isso que ainda emocione.
Porque não oferece um diagnóstico. Oferece um vínculo.

Algo semelhante acontece em Hacks. Deborah Vance poderia ser facilmente rotulada, hoje, como uma figura narcisista: autocentrada, controladora, incapaz de sustentar relações sem exercer poder. Mas a série nunca se acomoda nessa leitura. Ao contrário, expõe as fissuras, as perdas e os mecanismos de defesa que sustentam essa persona.
E, sobretudo, mostra como Ava Daniels também participa desse jogo : projetando, reagindo, ferindo.
Não há diagnóstico que dê conta.
Há relação.
O narcisismo em retrospecto
Outro fenômeno importante é a leitura retroativa.
Personagens clássicos, relações familiares antigas, figuras históricas, tudo passa a ser reinterpretado à luz de categorias contemporâneas.
Mrs Bennet vira uma “mãe narcisista”. Outras personagens passam a ser vistas como vítimas de abuso emocional. Narrativas inteiras são reorganizadas a partir dessa lente.
Há algo de produtivo nisso. Permite enxergar dinâmicas antes naturalizadas.
Mas há também um risco: o de apagar a complexidade em nome de uma explicação total.
Porque, ao transformar tudo em narcisismo, perdemos justamente aquilo que a psicanálise insiste em preservar: a ambiguidade.

Entre o corte e o laço
O que está em jogo, no fundo, não é apenas o uso de um termo. É uma mudança mais profunda na forma como pensamos a família.
De um modelo baseado na permanência — mesmo que conflituosa — para outro que legitima o corte como forma de proteção.
Esse movimento não surge do nada. Ele responde a experiências reais de abuso, de violência, de sofrimento.
Mas, ao se tornar linguagem dominante, corre o risco de transformar toda relação difícil em algo descartável.
E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente essa: o que se perde quando toda dor encontra um culpado claro?
Porque, na vida — ao contrário das narrativas mais recentes — nem sempre há um vilão nítido. E, muitas vezes, o que chamamos de narcisismo é apenas o outro sendo, irremediavelmente, outro.
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