Eu assisto Euphoria como quem não desvia o olhar de algo que incomoda profundamente. Não é exatamente prazer, nem exatamente rejeição. É uma forma muito específica de engajamento que talvez só as grandes produções consigam provocar: aquela em que você reconhece a excelência técnica, se impressiona com as atuações, entende o impacto cultural, mas, ao mesmo tempo, não consegue deixar de perguntar o tempo todo por quê.
Porque essa é a pergunta que nunca me abandonou desde a primeira temporada: qual é a história?
Há algo de inegável na série. O elenco talvez seja hoje um dos mais estelares da televisão, reunindo nomes que transitam com naturalidade entre cinema e streaming, sustentando performances intensas, muitas vezes brilhantes. A fotografia é sofisticada, a construção visual é obsessiva, a trilha sonora funciona como extensão emocional das cenas. Tudo em Euphoria aponta para um projeto artístico muito claro.
Mas o que esse projeto quer dizer?

A sensação que fica, e que se intensifica agora, é a de uma espiral. Não há arco no sentido clássico, não há transformação que se consolide, não há aprendizado que se sustente. Há movimento, mas é um movimento circular, que aprofunda a dor sem oferecer saída. O tempo passa, os personagens envelhecem, mas nada se resolve. A maturidade não chega como ruptura, apenas como agravamento.
Não é uma jornada, mas um looping cada vez mais denso. E talvez seja justamente aí que começa o desconforto mais profundo.
Porque se não há trajetória, o que sustenta o nosso envolvimento?
A resposta mais imediata é estética. Euphoria é construída para ser sentida antes de ser compreendida. Cada cena parece pensada para provocar, para impactar, para permanecer. E muitas vezes permanece, mas não necessariamente pelo que conta, e sim pelo que expõe.
E é aqui que a série se torna mais ambígua.
Há momentos em que flertam com o limite entre o artístico e o abusivo. A forma como os corpos são filmados, expostos, tensionados dentro da narrativa não é neutra. Mesmo quando há consentimento da atriz, mesmo quando há intenção estética, existe uma camada de desconforto que não desaparece. Ela se acumula.

O exemplo mais evidente está na maneira como a personagem de Sydney Sweeney é colocada em cena. Há ali uma construção visual que pode ser lida como crítica, como exagero, como comentário sobre objetificação, mas também como repetição dessa mesma lógica. E talvez o problema seja justamente esse: a série parece consciente do que faz, mas não necessariamente interessada em se distanciar disso.
O resultado é uma experiência que oscila entre o fascínio e o cansaço.
Porque Euphoria não oferece alívio. Não há respiro, não há contraponto, não há a sensação de que estamos caminhando para algum tipo de compreensão. O que existe é uma sucessão de situações tensas, cruéis, emocionalmente exaustivas. É uma densidade constante, que não se organiza em narrativa, mas em impacto.
E então a pergunta volta, mais insistente do que antes: por que devemos nos importar com esses personagens?
Talvez a resposta não esteja na empatia tradicional. Euphoria não quer que gostemos deles, nem que torçamos por redenções claras. O que a série parece buscar é algo mais desconfortável: o reconhecimento. Não no sentido de identificação direta, mas de perceber padrões, fragilidades, excessos que existem fora da tela.
Mas isso é suficiente?


Para mim, ainda não completamente.
Porque há uma diferença entre retratar o vazio e se tornar refém dele. Entre expor a ausência de sentido e deixar de construir sentido. E Euphoria, em muitos momentos, parece mais interessada em permanecer nesse lugar de suspensão do que em avançar.
E ainda assim, continuamos assistindo.
Talvez porque, mesmo sem responder às perguntas mais básicas da narrativa, a série acerte em algo mais difícil de definir: ela captura um estado de espírito. Um mundo em que tudo é intenso, imediato, excessivo — e, ao mesmo tempo, profundamente vazio.
Um mundo em que sentir demais não significa entender melhor.
E talvez seja exatamente isso que nos prende.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
