David Chase escreveu a saga de Tony Soprano pensando em um filme e talvez por ter essa visão que a série tenha mudado para sempre a história da TV americana. Com narrativa completamente diferente das que existiam na época, atuações e fotografia de cinema, a Família Soprano colecionou prêmios e fãs apaixonados. Por essa razão, a prequel da série, lançada como longa em 2021, All The Saints of Newark, já disponível na HBO MAX, foi recebido com grande expectativa. Até excessiva…

Sim, teremos spoilers da série do filme, ok?
O filme não é apenas sobre Tony Soprano, imortalizado por James Gandolfini e aqui brilhantemente e nervosamente defendido por seu filho, Michael. É sobre a vida ao redor de Tony, de como ele não tinha alternativa, como suas relações com sua mãe sempre foram conturbadas, como seu tio Junior criou seus ressentimentos e, principalmente, como Tony se relacionava com o pai de Christopher, Dickie Moltisanti. Alessandro Nivola está ótimo como o conturbado mafioso, a maior influência na vida de Tony e de como conduziria sua vida e seus negócios. All The Saints of Newark é sobre os anos 1970s em Nova York, um período de manifestações racistas e muita insegurança na sociedade. O problema é que todas as personagens que amamos e reencontramos em suas versões mais jovens, embora todas apaixonadas por Dickie mesmo anos depois (ele era uma lenda para eles), parece que apenas para aquele grupo o pai de Christopher tinha apelo. A falta de carisma de sua trajetória, que sabemos como termina, impede que o filme “funcione”. Queremos saber de Tony, não vê-lo como coadjuvante. Mesmo jovem, calado, ele já era gigante. Da mesma forma que usar Christopher para narrar a história não funciona.
Vamos ver os negativos e os positivos (tem coisas ótimas!) da história.

Onde não funciona, Dickie e suas confusões amorosas
Já mencionei algumas das falhas. O filme assume que apenas fãs da série vão assistir, portanto não perde tempo contextualizando a história. O recurso de off, com Christopher Moltisanti (Michael Imperiolli) cai no vazio porque nem reflete a complexa relação de amor e ódio que teve com Tony, nem acrescenta em nada pois apenas quem o conhece sabe que Tony faz a opção de matá-lo na reta final da série. Tudo que levou ao mafioso a matar o sobrinho que tinha como filho tem muito mais do que maldade, é – depois que vemos de primeira a relação dele com Dickie – muito mais poderoso do que o off sugere. Dispensável.

A história de Dickie, um herói para a Família Soprano, claramente não era a que contavam e é, de fato, pior do que imaginávamos. Assassino cruel, mulherengo, violento e complicado, Dickie mata o próprio pai para poder ficar com a madrasta, depois mata a amante por ciúmes dela o ter traído com um negro e assim vamos. Alessandro Nivola é um grande ator, mas Dickie não tem a complexidade de Tony, é um homem que pertence ao universo criminoso da máfia. A presença de Michael Gandolfini, nervosamente i-gual ao seu pai, só nos dá mais vontade de ficar com ele, não nas confusões amorosas de Dickie.


Igualmente o papel duplo dado a Ray Liotta dos irmãos Dick e Salvatore Moltisanti foi exagerado. Se pensamos no paralelo da relação de Tony com a Dra. Melfi, as trocas de Dickie com seu tio Salvatore são rasas. Apenas tem peso quando vemos que ele ama mesmo Tony e que tenta se afastar para salvá-lo.
O que funciona? Os Sopranos, claro
Vera Farmiga e Corey Stoll estão brilhantes em suas participações como Livia e Junior Soprano, a dupla diabólica da série. Aliás, a grande surpresa de toda trama (vou guardar esse spoiler!) coloca Junior em completa nova perspectiva na história e é uma maravilhosa revelação de David Chase.


A relação de Livia e Tony já é medonha, mas há momentos raros de suavidade que nos partem o coração. Vemos Carmela, Silvio, Paulie e toda gangue se formando e com vários easter eggs, desde a cena com Coren’ gratto com Junior (mais tarde vai cantar a canção em um funeral, em uma cena icônica de Sopranos), a forma que Dickie brinca com Tony (mais tarde faz o mesmo com seus filhos) e, principalmente, a cena final do filme, com a música de abertura da série. Compensam as falhas? Sim. E dá vontade de partir para a maratona da série.
É engraçado que um filme funcione melhor como série. Teria sido uma boa opção para revigorar os Sopranos.


P.S.: sobre o final da série
Se você faz parte do grupo que ainda sonha que o final abrupto de Família Soprano não foi um final trágico, que não leu as entrevistas dadas por James Gandolfini ainda vivo e por David Chase, onde ambos confirmam que a série termina com a morte de Tony Soprano, há uma cena em que o jovem Tony revela seu maior receio: um dia morrer com um tiro na cabeça dado pelas costas. Precisamos de mais confirmação?

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