Mary Pickford, a 1ª atriz de 1 milhão de dólares

Em 24 de junho de 1916, a atriz canadense Mary Pickford fez história. A maior estrela do cinema em seu tempo, assinou nessa data um contrato onde não apenas ganhava autonomia irrestrita sobre quais filmes iria trabalhar, como passou a receber a metade dos lucros das produções que estivesse envolvida, um salário recorde de US$ 10.000 por semana e uma garantia de um milhão de dólares (hoje quase 20 milhões) anuais, além de se tornar vice-presidente da Pickford Film Corporation. Portanto, há 106 anos, surgia a primeira atriz de um milhão de dólares.

A carreira de Mary Pickford e sua contribuição para a indústria do entretenimento são ímpares. Em 50 anos de atividade, estrelou clássicos do cinema mudo, co-fundou a Pickford–Fairbanks Studios e depois, com Charles Chaplin, a United Artists, além de estar entre as 36 estrelas fundadoras da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Em tempos e mercados dominados por homens, Mary Pickford estava acima ou de igual com qualquer um deles.

Mary, cujo nome verdadeiro era Gladys Marie Smith, foi pioneira em tudo. Nascida em uma família de artistas, estreou no cinema em 1909, com apenas 17 anos, depois que o diretor D. W. Griffith a testou para um filme, algo novo na época. Esperta, Mary percebeu que era mais fácil para ela trabalhar na frente das câmeras do que nos palcos e, astuta em negócios, conseguiu fechar um contrato onde já ganhava o dobro do que o mercado pagava.

Ganhava bem e trabalhava muito. Entre pequenos papéis e papéis principais, interpretou mães, ingênuas, faxineiras, spitfires, escravizadas, nativas americanas, mulheres desprezadas e até uma prostituta. “Decidi que, se conseguisse entrar no maior número possível de filmes, ficaria conhecida e haveria demanda pelo meu trabalho”, explicou mais tarde.

Deu certo. No primeiro ano, apareceu em nada menos do que 51 filmes (um por semana) e terminou como atriz principal. Ela acompanhou a indústria quando as empresas decidiram arriscar Los Angeles como base para escapar dos dias curtos e luz fraca no inverno da costa leste. Nunca mais saiu da Califórnia. Em apenas alguns anos, já era a uma das maiores estrelas do cinema mudo.

A essa altura, Mary já tinha pleiteado – e alcançado – outra mudança significativa. Atores não eram creditados, então ela mesma era a “garota com cachos” até que seu nome passasse a estar no cartaz. Logo ganhou a fama de ser “a queridinha da América” e “Rainha dos Filmes”. Sua popularidade estava de igual para Charles Chaplin, no seu auge. Entre 1910 e 1920, Mary Pickford era a mulher mais famosa do mundo. E poderosa também. Com Grifiths, Chaplin e o ator Douglas Fairbanks (seu futuro marido e parceiro nas telas), fundaram seu próprio estúdio, o United Artists, em 1919, passando a controlar a distribuição de suas obras também.

Apenas uma coisa interrompeu a trajetória ascendente da estrela: o som. Quando o cinema adotou a nova tecnologia, as coisas mudaram para muitos atores e Mary não foi exceção. Ela resistiu à mudança o quanto pôde.

Em 1929 estrelou seu primeiro filme falado, Coquete e cortou seus famosos cachos para o papel, adotando o cabelo da moda dos anos 1920s. Os fãs ficaram chocados com a transformação, afinal o cabelo dela era como um símbolo de virtude feminina. A mudança virou notícia de primeira página no The New York Times.

Apesar de ganhar o Oscar de Melhor Atriz, o público não correspondeu na bilheteria e aos poucos a estrela de Mary Pickford foi perdendo o brilho. Na rádio, ao lado de atrizes como Norma Talmadge, Gloria Swanson e Dolores del Río, comprovou que sua voz também daria audiência, mas, com 30 anos, para Hollywood recém criada, Mary passou a ser “velha”. A entrada da tecnologia da cor só piorou a transição. Não tinha mais como fingir ser uma adolescente nos papéis. Tampouco era sexy como as atrizes que estavam fazendo sucesso na época. Assim, em 1933, se aposentou das telas. Tinha 41 anos. “Eu sabia que era hora de me aposentar”, falou em uma entrevista em 1965. “Eu queria parar antes que me pedissem para parar”.

Infelizmente, depois de deixar as telas, Mary Pickford ficou alcóolatra, uma triste herança familiar. As mortes de seus pais e irmãos, o divórcio de Douglas Fairbanks e o fim de sua carreira como atriz contribuiram para um período depressivo, com a estrela ficando reclusa em Pickfair, recebendo apenas visitas selecionadas e se comunicando com o mundo apenas por telefone. Escreveu livros (incluindo a autobiografia), passou a dirigir canais de TV, mas não queria contato com o mundo. Sua vida foi a inspiração para Crepúsculo dos Deuses, nos anos 1950s.



Em sua carreira, o etarismo pode ter sido o obstáculo insuperável para Mary Pickford, mas ela seguiu no comando da United Artists, virando uma das principais executivas do cinema. Ao lado de Douglas Fairbainks, era a realeza de Hollywood, com festas hitóricas em sua mansão, a Pickfair, que merece um post só para ela.

Em 1976 recebeu um Oscar honorário por sua contribuição para o cinema. Recebeu a estatueta em casa, e uma equipe de TV reggistrou seu curto agradecimento gravado em Pickfair. Faleceu três anos depois, de uma hemorragia cerebral, aos 87 anos. Deixou um legado de quase 200 filmes, uma marca na Indústria e uma lenda para fãs da sétima arte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s