Há pouco tempo, nos despedimos de Ted Lasso contrariados de que parte do que a série fez foi contradizer a máxima clássica de Harry Burns (Billy Crystal) em Harry e Sally (When Harry Met Sally): “Homens e mulheres não podem ser amigos porque a parte do sexo sempre atrapalha”, como ele ‘explicou’ à Sally. Claro que que na comédia romântica de 1991, Harry estava certo: os dois pareciam ser apenas amigos, mas se apaixonaram e se casaram, e esse tortuoso caminho para felicidade eterna de dois neuróticos – amigos primeiro, amantes depois – alimentou à máxima dos românticos de plantão de que quando um homem e uma mulher se entendem, devem ser casar.
Por isso em três ótimas temporadas, os showrunners de Ted Lasso trolaram impiedosamente os #tedbeccas, reforçando o quanto Rebecca e Ted eram perfeitos um para o outro e ainda assim acabaram a história apenas amigos. Não houve um deslize sequer de um dos lados, uma sugestão única de nenhum dos amigos sobre algo a mais com eles. Ao contrário, Rebecca se envolveu com Sam, Ted só a chamava de “Chefe”, deixando claro que havia uma hierarquia de poder entre eles e sim, os dois se entendiam perfeitamente e sabiam segredos íntimos, mas mesmo sendo ‘almas gêmeas’ eram apenas amigos. E fica a questão: não seria essa solução extremamente romântica? Ela encontrou “outra’ alma gêmea no misterioso piloto holandês, Ted ficou em aberto se voltaria a se entender com Michele. O que importa é que Ted Lasso mostrou – para não deixar dúvidas – de que ambos tiveram final feliz. E ainda assim muitos ficaram frustrados.

Eu torcia pelo final Hollywoodiano traduzido como #tedbecca. Achei que a construção da relação dos dois estava madura, estava diferente das comédias românticas e nada, mas nada mesmo, vai tirar a emoção da cena do pub da primeira temporada na qual Ted “salva’ Rebecca de forma arrasadora no duelo de dardos contra Rupert. Mais ainda, sou contrária à idéia sugerida de uma reconciliação com Michele, mas isso é algo pessoal.
Outra série que flerta em contrariar a fórmula do amor fictício é Platonic, que reúne Rose Byrne e Seth Rogen como amigos de faculdade que se reencontram cerca de 20 anos depois, em um momento de crise mútua de identidade. Sylvia e Will juntos são dois adolescentes de quase 40 anos e não fosse a química dos dois, diria que é uma história irritante. Isso porque Sylvia está aparentemente bem casada e é mãe de três filhos, mas abriu mão de sua carreira pela maternidade e plantou a semente de frustração que a coloca mais ligada à Will, cujo casamento fracassou e a vida profissional não cresce porque ele quer ficar em algo menor, mais artesanal com sua cerveja e bar, namorando casualmente meninas de 20 anos. A amizade dos dois é suspeita para todos que os cercam, inclusive o marido de Sylvia, mas efetivamente até o momento não há conotação sexual entre eles. Será que continuará assim?


Há algo no ar que insinua que essa história não vai dar certo. Sylvia desaprova todas as namoradas de Will, seria ciúme? Igualmente quando está infeliz, é para Will que recorre, assim como quando tem problemas para resolver, jamais seu extra compreensível marido. Na vida sem ambições do amigo, Sylvia não estaria nem pra trás ou menor, como se sente quando esbarra com os colegas do marido (que conheceu quando trabalhava em uma firma de advogados). O próprio Will não encontra uma mulher madura que o apóie em seus sonhos criativos que não incluem enriquecer ou crescer. Apenas Sylvia está sempre lá sem julgá-lo por isso. Será que o sexo tardio vai surgir entre eles? Ou será relevado de que já tinham tentado anos atrás e que talvez tentem reeditar a conexão?
Novamente, ao contrário de Ted Lasso, onde ninguém apontava o óbvio para o casal, em Platonic todos desconfiam dessa amizade, inclusive nós porque a improvável ligação de Ted e Rebecca fazia sentido, mas a Will e Sylvia é estranha. Embora o título sugira que a proposta seja mais uma vez apoiar a teoria de Sally Albright de que existe uma amizade entre os sexos opostos, mesmo que em seu próprio filme Harry estivesse certo afinal, parece que Will e Sylvia vão dar a virada romântica eventualmente. Isso termina com um paradoxo: eu era totalmente #tedbecca, mas sou igualmente contra #sylvill. Por que distorço teorias que se anulam? Questão para terapia!
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