Minha Família Quer Que Eu Case (What’s Love Got To Do With It) é uma comédia romântica. A curta afirmação é para ressaltar que SIM, segue a estrutura esperada de uma mocinha neurótica, tentando ser cínica com amor justamente porque sua grande paixão é impossível. Até que não é e todos vivem felizes para sempre. Não fossem os bastidores dessa narrativa comum do gênero, talvez nem tivesse conferido o filme ou estivesse falando sobre ele, mas é porque tem dois pés numa história real que o torna interessante.
A roteirista do filme é a documentarista Jemima Khan, em sua estréia na ficção. Ela notoriamente levou 10 anos trabalhando na história, que reflete apenas um pouco de sua própria (e mais interessante) trajetória pessoal. Para quem segue a Família Real e a vida da Princesa Diana, sabe que Jemina está íntimamente ligada à ela. Jemima é filha do financista Sir James Michael Goldsmith e Lady Annabel Goldsmith, que Diana considerada uma mãe-postiça. Se essa conexão já não fosse suficiente para colocá-la no seleto grupo de amigos pessoais da princesa, ela também foi casada por muitos anos com o ex-primeiro-ministro paquistanês e jogador de críquete Imran Khan, no período no qual Diana já estava separa de Charles e apaixonada pelo cardiologista paquistanês Hasnat Khan (primo distante de Imran), portanto confidente de Diana e amiga dela em um período crucial de sua curta vida. Menciono tudo isso porque Minha Família Quer Que Eu Case (What’s Love Got To Do With It) reflete ambas relações interculturais, que não tiveram final feliz, mas que Jemima reproduz com carinho e easter eggs pessoais.

Dirigido por Shekhar Kapur, conhecido por Elizabeth, com Cate Blanchett, vemos como a documentarista e viciada em aplicativos de namoro Zoe (Lily James) entra em crise pessoal quando o amigo de infância e vizinho de Zoe, Kazim (Shazad Latif) decide tratar de seu casamento como uma escolha racional e aceita seguir o exemplo de seus pais e optar por um casamento arranjado (ou “assistido”) com uma brilhante e bela noiva do Paquistão que só vai conhecer pessoalmente no dia da cerimônia (ou perto). Para quem tem uma mãe (Emma Thompson, repetindo mais uma vez sua versão de mãe-sem-noção) que sempre se mete na sua vida sentimental, Zoe passa a questionar mais do que o conceito de amor eterno, mas se há grandes diferenças entre um algoritmo ou a tradição nas escolhas do coração. Sabemos a resposta, obviamente, mas é uma premissa fofa.
Lily James é sempre linda e empática, o que segura o previsível, mesmo sem a menor química com Shazad Latif. As ‘atualizações’ pessimistas dos contos de fadas para as filhas de sua amiga são divertidas – príncipes chatos ou desagradáveis; uma fera que esconde um predador sexual atrás de uma bela aparência, o sapo que quer ser salvo, mas que a princesa descarta para salvar a si mesma – compensam os momentos de clichê, assim como o convite de “quer maratonar uma série comigo” em vez do “quer casar comigo” tradicional. Seria um filme imediatamente descartável se não lembrasse do que está sendo (re) imaginado: o sonho irrealizado de uma princesa que não teve a mesma chance em vida. Sabem de quem quero dizer?

Pois Jemima faz várias referências ao seu relacionamento como o de sua amiga. Por exemplo, em vez de um jogador de críquete ou outra profissão, o herói é um cirurgião, como Hasnat. O sobrenome de Kazim é Khan, como Hasnat e Imran. Ele é fumante, como Hasnat. Ele é discreto, prático e racional, como Hasnat. Quer agradar a família acima de tudo, Hasnat e Charles. A diferença de idade é um problema para ocasal assistido como foi para Charles e Diana e provavelmente Jemima e Imran. A irmã de Kazim causou drama ao abandonar a família por amor com um ocidental, parece uma citação do tio-avô de Charles.
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Se nada disso ficasse claro, temos ‘quase’ declarações. Kazim estranhamente diz que sua felicidade com a esposa “assistida” será “o que quer que amor queira dizer”, a infame declaração de Charles no noivado com Diana e que Zoe ressalta para o amigo como uma maldição em qualquer relacionamento. O alfaiate que a ouve cita então o amor de Diana por Hasnat e como ela considerou ir viver com ele no Paquistão, para nos dizer o que houve com ele na vida real. Se casou como a família queria, com uma paquistanesa, mas a relação acabou em divórcio, aludindo que ele também só teria sido feliz ao lado de Diana. Em outro momento, Zoe comenta que o casamento de Diana e Charles também foi apenas um arranjo, que não difere do que as culturas mulçumanas fazem, porém o casamento deles deu errado porque vivemos em uma cultura ocidental que nos demanda buscar a felicidade e não aceitar que alguém escolha seu parceiro por você.

Minha Família Quer Que Eu Case (What’s Love Got To Do With It) teria tudo para acertar, mas não passa de um conteúdo doce e passageiro. A intenção da roteirista foi deixar uma declaração de amor e vivência dos dez anos de seu casamento, que passou morando no Paquistão e onde testemunhou a felicidade de muitos casamentos arranjados bem-sucedidos, um tema que serviu para ser ridicularizado ou criticado no cinema ocidental. Nos outros 10 anos que levou para terminar a história, Jemima virou notícia ao se envolver com o showrunner Peter Morgan, que assina The Crown, justamente quando ele estava desenvolvendo a parte da história na qual ela foi testemunha íntima. Ao que parece, ela não curtiu muito a versão que a série da Netflix apresentou sobre Diana e Hasnat, mas é discreta e não mencionada nada com frequência.

Embora pareça presa a uma armadilha cultural preconceituosa, a história de Jemima é carinhosa com todos os lados, pais preocupados e filhos infelizes. Basicamente, quando tem Emma Thompson em uma ponta e o filme brinca que é um Love, Contractually em vez do clássico, Love, Actually, vemos um toque original. Os pais de Kazim são felizes e apaixonados, nem sempre assim uma vez que só se conheceram quando se casaram, mas deu certo. A mãe de Zoe foi traída e trocada por uma mulher mais nova, portanto casar por amor não garente eternidade ao lado do parceiro. E na maior das ironias, vemos que o namorado que a personagem de Emma Thompson encontra para a filha é perfeito, pena que não seja o que ela quer. Por outro lado, o filme também mostra a indústria e os negócios bem-sucedidos atrás do costume oriental.
A única conclusão que ela nos dá é justamente da falta de regras do amor, mas que sempre vale apostar nele. E que em algum lugar do universo, uma Diana Spencer poderia ter sido feliz ao lado de Hasnat Khan. Na histórinha de princesas criada por Jemima, ela teria sido.
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