Ludivine Sagnier: em Napoleão, mais uma vez como uma amante astuta

Em Rainha Serpente, Ludivine Sagnier teve um desafio de estar de igual com Samantha Morton para dar vida à arqui inimiga de Catarina de Médicis, a famosa Diane de Poitiers. Sua atuação trouxe complexidade para um papel polêmico, afinal, Diane seduziu o futuro rei, Henry II (da França) quando ele ainda era menor de idade. Foi sua favorita até sua morte, fazendo com que a atriz francesa precisasse interpretá-la em diferentes idades e momentos. Já em Napoleão, o filme de Ridley Scott que estreia ainda em 2023, ela volta a ser uma amante conhecida na História da França, Théresia Cabarrus, um dia Marquesa de Fontenay e depois Madame Tallien, melhor amiga de Joséphine de Beauharnais, e amante do rival do general, Paul Barras. Uma figura vital da trama.

Para Ludivine, será duplamente curioso. Em 2002 estava no elenco da produção francesa da série Napoleão, mas vivendo Hortense, a filha de Joséphine. Agora ganha destaque porque a figura de Théresia, famosa como a Nossa Senhora de Termidor, entre outros apelidos, graças ao seu destaque nos primeiros anos do Regime Revolucionário. Embora não apareça no trailer – que mostra apenas algumas cenas de Barras – ela certamente terá importância porque é uma figura central na trajetória do General Napoleão Bonaparte.

Espanhola de nascença, Jeanne Marie Ignace Thérésia Cabarrus tinha ascendência francesa e basca. Nasceu para uma vida de escândalos, ao que parece. Aos 12 anos foi “seduzida” por seu tio paterno sendo que a família, para afastá-la dele (e abafar a fofoca), a enviou justamente para Paris, onde passou a circular com grande sucesso entre os nobres, frequentando a loja ´Au Grand Mogol´, rua Saint-Honoré, da modista Rose Bertin, que vestia a Rainha Marie Antoinette (Catherine Walker) (como mostrado em Ligações Perigosas também).

Em um dos bailes, com apenas 15 anos, conheceu seu primeiro marido, o marquês Jean-Jacques Devin de Fontenay, mas dizem que secretamente preferia estar com mulheres. Seja como for, ela sabia se relacionar e sua beleza ganhou fama em Paris, assim como suas festas. Porém a Monarquia francesa estava a poucos anos de seu violento fim e Théresia estava atenta. Ela abraçava as ideias revolucionárias, apesar de seu título, e se afiliou aos maçons, e faz amizade com os futuros líderes da Revolução, os Jacobinos, incluindo Jean-Lambert Tallien, de quem viria a ser amante e esposa anos depois.

Quando houve a queda da bastilha, em 1792, ela já estava divorciada do primeiro marido, após ter tido um caso extra-conjugal, e deixou a França, aproveitando a chance para finalmente se unir ao seu tio. Foi presa, mas ajudada por Tallien, porém quando voltou para Paris com ele, foi novamente encarcerada. Na prisão conheceu Joséphine. Esse período terá destaque no filme e é importante para entender a dinâmica das pessoas que ajudaram e depois se opuseram à Napoleão.

Logo após derrubarem a Monarquia, os rebeldes passaram anos lidando com violência e fome na França, ao mesmo tempo que tentavam estabelecer um novo Regime. Era o período do Terror, onde ninguém estava seguro, nem mesmo os rebeldes, com motins e ataques pelo país, assim plantando a semente para a ascensão de Napoleão. Tallien foi dos principais líderes desses anos, mandando muitos para guilhotina, incluindo amigos e companheiros, até se envolver com Théresia. A história não descreve a união dos dois como um conto romântico, mas o de encontro de interesses (e sim, um romance). Théresia era famosa, rica e bonita e teria famosamente declarado que “é melhor casar do que ser decapitada.” Graças à sua influência, muitos nobres passaram a ser poupados e Tallien foi reduzindo o número de execuções. Joséphine de Beauharnais foi uma dessas pessoas ‘salvas’. A “Reação Termidoriana” marcou o fim do Reinado do Terror uma vez que muitos estavam desiludidos e temerosos do governo centralizado, preferindo uma ordem política mais estável e democrática, destituindo e executando Maximilien Robespierre e associados. Joséphine e Théresia ficaram melhores amigas desde a prisão.

A vida das duas mulheres teriam um homem em comum: Paul Barras (Tahar Rahim). Além de liderar a política, Barras liderava a vida social de Paris, com festas luxuosas e articulações. Elegante, vaidoso, e também conhecido como um homem de excessos (sem surpresa era sobrinho do lendário Marquês de Sade), além de obviamente inescrupuloso. Sem perceber plantou seu inimigo na posição chave quando para suprimir uma rebelião monarquista não hesitou em chamar general Bonaparte, dando a ele o comando das forças improvisadas de defesa, que, com a vitória arrasadora, ganhou fama, riqueza e prestígio. Foi em uma de suas festas que sua ex-amante, Joséphine, conheceu Napoleão. Se casaram em apenas seis semanas.

E Théresia? Bem, se Joséphine era popular em Paris a verdade é que ela ainda ficava à sombra de sua amiga, a maior influencer fashion de seu tempo e apontada como a responsável por fazer da moda neo-grega a mais popular do país. Com Tallien perdendo poder, o casamento foi ficando ameaçado e por isso o romance com Barras ganhou fôlego, algo que aparentemente não incomodava Joséphine. Théresia, Barras e Tallien foram testemunhas do casamento dos futuros imperadores. Porém, a amizade não duraria muito após a coroação porque Napoleão a julgava que a animada vida amorosa da espanhola era uma influência negativa sobre Josèphine e a proibiu de manter relações com ela depois de casada.

Distante da Imperatriz e sem Barras, Théresia se divorciou de Tallien e se casou com um rico banqueiro. Viveu entre músicos e pintores, engordando nos últimos anos de sua vida e curtindo os filhos. Morreu cercada de luxo e segurança. Como sempre quis. Na lietatura britânica, graças à popularidade do herói Escarlate Pimpernel, Théresia despontou como uma antagonista sedutora, mas era, como percebemos, uma astuta sobrevivente. A escolha de Ludivine para o papel é perfeita, sabemos. Mais um motivo para ansiar o lançamento do filme.


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