Tenso e sem química: o Golden Globes voltou devendo

As correções de bastidores, mencionadas com parcimônia na festa do Golden Globes 2024 foram essenciais para os primeiros passos do evento na longa estrada para recuperar popularidade. Prestígio não parece estar ameaçado, uma vez que os artistas compareceram em peso, embora tensos e sisudos em geral. Esse peso se revelou um desafio ainda maior para o desconhecido Jo Koy que encarou um salão que mesmos os maiores e mais felizes reconheceram estar “intimidador”. O comediante aceitou o job depois de inúmeros famosos rejeitarem, algo que agora devem estar dizendo “ainda bem” enquanto Jo Koy não está na melhor de suas semanas.

Reclamar ou citar os constrangimentos do monólogo de abertura ou tentativas do apresentador de liderar a noite é quase cruel, não vou me ater a nada disso. O formato que todas as transmissões insistem em manter é antiquado, arriscado para o apresentador e sempre garantia de vergonhas alheias. Conseguir superar o constrangimento de Anne Hathaway e James Franco no Oscar de 2011 parecia ser uma missão impossível, mas agora já tem substituto. O que eu acho é que não precisa mais de um único mestre-cerimônias: pelo ritmo, pela oportunidade e até coerência com os dias atuais, onde o humor flerta com o cancelamento e expõe os astros que vão ali para beber, comer e ganhar, não para virarem alvo de piadas. Se ainda assim acharem que é preciso um âncora, que escolham artistas rápidos no gatilho, como Robert Downey Jr., não um cômico de stand-up que pode levar tapa na cara ou ser veladamente vaiado como foi Jo Koy. O olhar de Taylor Swift era a vinheta do clássico da banda Heart: If looks Could Kill.

Passando disso, e da esnobada cruel à Greta Gerwig, a festa do Golden Globes pareceu sem a leveza dos anos anteriores, com o palco em uma nova posição (mais central) o que fez com que os vencedores quase sempre estivessem virando de lado para cumprimentarem suas mesas e muitas vezes sem entender como subir quando seu nome foi anunciado. Fora isso, a mesa mais constrangedora ficou visível: Jared Leto, Joaquin Phoenix e Nicholas Cage mal se falavam, mais de uma vez a visão de Joaquin era bloqueada pelos câmeras à sua frente e assim que puderam os três saíram correndo da festa, deixando a mesa mais próxima ao palco vazia. Detalhes que quem trabalha com isso repara.

Em termos de moda, todas impecáveis, quase nenhum derrape entre as mulheres (o mesmo não se aplica aos homens, cujo black-tie restringe à poucas opções e quem ousa ‘quebrar’, corre mais riscos. E erra, como vimos em 2024.

Errei barbaramente em alguns dos meus palpites, mas, em geral, adoro quando isso acontece. Meu principal erro, que acreditou na onda rosa de Barbie, foi ter esquecido do impacto da série Treta (Beef), a franco favorita quando foi disponibilizada e acreditar no sucesso inegável de Daisy Jones e os Seis. É e sempre foi a franco favorita, portanto temos que lembrar dela quando fizermos as apostas!

Não havia sequer espaço de dúvida sobre o arrasa quarteirão que seria Succession em suas categorias de drama, ela está aberta à nova febre para 2025. The Crown ainda arrematou o inegável reconhecimento de Elizabeth Debicki como Princesa Diana, com a atriz tendo a identificável habilidade de agradecer e mencionar todos menos a Família Real ou mesmo a personagem, mantendo o respeito e distanciamento de tudo que a série teve de polêmico na fase final. Ainda não foi a última vez que vimos The Crown nas premiações: ainda vem aí a temporada final com o elenco potencialmente indicado para o próximo ano. Ficou o aviso!

Da parte de Comédias, foi estranho ver que a febre de Ted Lasso “passou”, assim como Abbot Elementary. É a hora de The Bear e isso apenas começou. As vitórias de seus astros principais aqui no Golden Globes ficou isolada porque o prêmio separa os principais mais em geral coloca todos os coadjuvantes no mesmo saco: é muito mais competitivo ganhar como apoio do que como estrela. Só para contextualizar, Ebon Moss-Bachrach e Billy Crudup (The Morning Show) concorreram com o elenco de Succession: a derrota era anunciada.

Agora que Anatomia de uma Queda está ameaçando Barbie diretamente, as maiores disputas ainda ficam entre Melhor Ator e Melhor Atriz. Cillian Murphy ganhou por Drama, mas Paul Giamatti, reprisando a parceira com Alexander Payne, ganhou por Comédia e ainda tem Jeffrey Wright no páreo. Eu diria que a vitória de Cillian não pode ser descartada, mas ainda não está definida. Nem no SAG ou no Oscar. BAFTA está, sabemos.

Emma Stone tem sua popularidade e reconhecimento contra ela esse ano, vá entender. Pobres Criaturas (Poor Things) é tão instigador em sua proposta como foi Barbie, pois a personagem de Emma tem sido chamada de “Frankenstein feminista”. Ninguém duvida da versatilidade da atriz ou de sua força nessa campanha, mas ela esbarra com ter levado um Oscar há 7 anos, talvez muito recente (embora Hillary Swank tenha levado dois em 5 anos e Jodie Foster em apenas 3 anos). O que está ainda mais no seu caminho é a atuação brilhante de Lilly Gladstone em Assassino da Lua das Flores. Como Lilly é nova, de minoria e fará História, as chances de Emma andam reduzidas para o Oscar, que tem a categoria de atuação unificada. Lilly vem ganhando todos os prêmios, já é quase certa. E justo!

Portanto a primeira premiação de 2024 se manteve morna, quase tediosa, porque teremos poucas alterações entre indicados, vencedores e discursos de janeiro à março. Quarta feira, dia 10 de janeiro, teremos os indicados ao SAG Awards, que é a referência máxima de onde tudo deve se encaminhar. E quanto ao Golden Globes?

Bom, os “erros” devem ser endereçados, claro, mas se tratando de formato não tenho muita esperança. A ausência das premiações nostálgicas efetivamente deram mais ritmo à transmissão, não houve chance de uma pausa para videos ou aplausos ou discursos de artistas que o público jovem nem reconhece. Eu diria que estaria listado entre os acertos não ter mais dois blocos para eles, mas a ver como farão em 2025! A nota da noite ficou em 6.


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