Em outubro de 2019, um dos maiores nomes da História da Dança – Alicia Alonso – faleceu aos 98 anos, do que foi descrito pelas TVs Cubanas como uma “doença cardiovascular”. Alicia, que deixou uma carreira de estrelato máximo nos Estados Unidos para voltar para o seu país em 1948, apoiando a Revolução de Fidel Castro, era uma unanimidade mundial da dança. Sua história renderia uma série e filmes, espero que ainda façam jus a ela.

Alicia Alonso foi uma das poucas consideradas ballerina assoluta, título associado a virtuosos e ícones. Mesmo cega, dançou por muitos anos, emocionando a todos com sua perfeição e dedicação.
“Danço dentro de mim, com os olhos fechados”, ela dizia. Os nossos, sempre ficavam arregalados diante de sua Arte.
Aos 20 anos, uma cubana em Nova York
Nascida “na periferia” de Havana, em 1920, Alicia era filha de uma costureira e um tenente-veterinário do exército, por conta da posição de seu pai morou ainda muito pequena na Espanha, onde estudou flamenco e até aprendeu a tocar castanholas, antes de começar a estudar balé, aos oito anos, quando voltaram para Cuba. “Quando eu era pequena, sempre que ouvia música me movimentava, talvez como Isadora Duncan, porque não sabia o que era dançar” disse uma vez.
Imediatamente revelou um talento nato para o Balé e, assinando como Alicia Martínez, estreou nos palcos no tradicional A Bela Adormecida, com apenas 11 anos. O amor pela dança a colocou no caminho de seu primeiro marido, seu colega de classe, Fernando Alonso, por quem se apaixonou e com quem se casou quando tinha 16 anos e passou a usar seu nome de casada.

Os dois se mudaram para Nova York em seguida, buscando mais oportunidades nos Estados Unidos, uma vez que não havia uma companhia de balé em Cuba. Enquanto Fernando, que mais tarde seria um renomado coreografo, seguia na dança, Alicia dividia seu tempo entre aulas de ballet e ensaios, assim como cuidar de sua filha, Laura, nascida em 1938. Sua estreia profissional na América foi como corista de musicais da Broadway, que ajudavam no sustento da jovem família de imigrantes.
Como era virtuose, não demorou para o talento de Alicia fosse identificado. Com apenas 20 anos foi recrutada para a recém-formada American Ballet Caravan, mais tarde o New York City Ballet, imediatamente sendo escalada para papéis principais. George Balanchine criou o difícil Theme and Variations para Alicia e seu parceiro, Igor Youskevitch, um balé até hoje dançado ao redor do mundo.
Os bastidores foram confusos, com a bailarina e seu patner querendo uma história e o coreógrafo insistindo para seguirem os passos e a música. Em uma oportunidade chegou a dizer que Balanchine criava passos complexos para “eliminar suas personalidades”.
“Lembro-me que o Sr. B. olhou para mim e disse: ‘Você pode dar este passo?’, que era nada menos do que um entrechat seis, um salto direto no ar com rápidos cruzamentos de pernas. ‘Você está com medo?, ele perguntou e respondi: ‘Não, não. Vou tentar, Sr. Balanchine.’” Claro que conseguiu.
Outros clássicos que foram criados em cima de Alicia foram Undertow, de Antony Tudor e Fall River Legend, de Agnes de Mille.
Como queria dançar os grandes clássicos, Alicia deixou Balanchine em 1941 para entrar no elenco do Ballet Theatre (mais tarde American Ballet Theatre). Foi aí que a lenda de Alicia Alonso começou a ser escrita, com interpretações insuperáveis de Giselle e O Lago dos Cisnes.

O problema de visão e a superação
Alicia Alonso começou a ter problemas quando estava no palco. Luzes piscantes e pontos escuros cruzavam sua visão, atrapalhando sua movimentação. Resolveu investigar e veio a bomba: foi diagnosticada com descolamento de retina grave. Sua carreira no balé teria que esperar.
Os dois anos seguintes foram marcados por três grandes operações oculares que demandavam repouso absoluto. Seu sonho era dançar o papel que viria a ser sua assinatura, Giselle, e, mesmo na cama, decorou os passos em sua cabeça e os treinava com os dedos no lençol.
O diagnóstico depois de todo sacrifício não era encorajador. Não apenas nunca recuperaria a visão periférica como a que tinha se deterioraria progressivamente. Ela ficaria cega ainda nova e o melhor seria aposentar as sapatilhas. Algo que Alicia Alonso simplesmente recusou a aceitar.
Em 1943 retornou ao Ballet Theatre e dançou sua primeira Giselle, substituindo a grande Alicia Markova. O público veio abaixo com sua interpretação.

Por nada menos do que quatro décadas seguintes a bailarina seguiu desobedecendo os médicos, sem parar de dançar. Conforme sua visão piorava, passou a usar luzes especialmente posicionadas para guiá-la no palco, contando também com a ajuda de seus parceiros que sussurravam direções para ela.
No palco, além de ótima atriz e uma musicalidade ímpar, Alicia Alonso também tinha a força e o controle quase masculinos, tanto em seus equilíbrios e assim como piruetas. Em resumo, era incrível.
A volta para Havana
Em tempos de 2ª Guerra Mundial foi apenas natural que o Ballet Theatre passase por problemas financeiros temporários, mas Alicia aproveitou a chance para voltar para casa.
O sonho, logo realizado, era o de fundar sua própria companhia, o Ballet Alicia Alonso, com vários bailarinos da Ballet Theatre e montando os tradicionais O Lago dos Cisnes e Giselle. Essa ponte aérea entre Havana e Nova York passou a ser a realidade de Alicia, sustentando a companhia com Fernando como diretor geral, e o irmão dele, Alberto, como coreógrafo e diretor artístico .

O nome de Alicia Alonso estaria alinhado com a política internacional quando, em 1959, Fidel Castro chegou ao poder. Ele a convidou transformar sua companhia em Ballet Nacional de Cuba e o ‘sim’ foi imediato. Com apoio do Ditador, Cuba virou um centro mundial do ballet clássico.
O projeto de Alicia era ainda maior: ela descobriria e treinaria novos talentos locais e, para isso, ela percorreu cidades e aldeias em busca de candidatos. O fato de que pelo balé teriam apoio financeiro, alimentação e a oportunidade de uma carreira de prestígio, ajudou a despertar interesse imediato na bailarina.
Tirana?
E de fato, ao longo das quatro décadas seguintes ela ‘descobriu’ alguns dos maiores talentos do balé: Fernando Bujones, Jorge Esquivel, José Manuel Carreño e Carlos Acosta são alguns deles. O Ballet Nacional de Cuba até hoje é uma das mais respeitadas companhias de dança, graças à Alicia.
Claro que sua ligação à Fidel Castro também gerou críticas, especialmente após a queda da União Soviética, nos anos 1990s, porque Cuba permaneceu ‘fechada’ e isolada, e o balé de Cuba também. Como fundadora da companhia, e sua principal estrela, a administração da bailarina rapidamente passou a ser vista de firme à autoritária. Sua popularidade externa nem sempre estava alinhada com as críticas intermas.
Alicia dançou até os 70 anos, reservando para si os melhores papéis. Sim, dançou Giselle até sua despedida dos palcos e muitos alegam que, por orgulho pessoal, limitou as carreiras de dançarinos que ameaçassem sua própria fama. Essa combinação levou a deserções de muitos jovens, como Carreño e Lupe Serraño, que foram para o ABT, e Acosta para o Royal Ballet. Somente perto de sua morte, em 2019, que Alicia ‘flexibilizou’, nomeando Viengsay Valdés como seu vice-diretor artístico.
Mesmo durante a Guerra Fria foi idolatrada
Com a Guerra Fria e sua associação ao comunismo, era de se esperar que o nome de Alicia Alonso fosse despertar rejeição, mas não. Seu talento era tão inspirador que ela foi idolatrada e homenageada dentro e fora de Cuba, no mundo inteiro.
Por exemplo, em 1975, as maiores lendas da dança clássica se reuniram no palco em homenagem à prima ballerina assoluta, nomes como Mikhail Baryshnikov, Rudolf Nureyev, Márcia Haydée, Gelsey Kirkland, Fernando Bujones, Margot Fonteyn, Cynthia Gregory, e Erik Bruhn. Sem surpresa, na Rússia, ‘irmã de regime político’, havia intercâmbio entre bailarinos, com Alicia e Maya Plissetskaya interpretando Carmen e Vladimir Vassiliev sendo seu partner em Giselle, como dois exemplos.

A passagem do Ballet Nacional de Cuba pelo Brasil, no início dos anos 1980s, foi um dos eventos mais noticiados no país na época, com Alicia sendo ovacionada no palco.
A despedida dos palcos aos 70
Com a perda da visão era de se esperar que Alicia tivesse encurtado sua passagem pelos palcos, mas a dança era sua razão de viver e dançou até os 70 anos, com várias imagens de sua técnica em Giselle tirando o fôlego.
Na sua vida pessoal, a dedicação e pulso firme na companhia também tiveram seu preço. Historiadores comentam sua possessividade desde o início em relação aos papéis principais, insistindo em dançá-los ela mesma. Além dos bailarinos, isso criou problemas com o marido, com quem já havia outros conflitos e eles se divorciaram em 1975. Alicia se casou em seguida com Pedro Simón, crítico de dança, editor e professor de filosofia que também era co-diretor executivo da companhia e ficou conhecido como os “olhos” da esposa.
A notícia da morte de Alicia, dois anos antes de seu centenário, não deveria, mas pegou o mundo de surpresa. Talevez ela tenha sido para o balé o que a Rainha Elizabeth foi para o mundo: um símbolo de constância. Mas eventualmente, apenas humana.
Seu legado único na dança, no entanto, não tem paralelo. Seu comprometimento com a Arte, dançando apesar da cegueira, sendo perfeccionista e idealista, fazem dela literalmente uma lenda. Mais ainda, era tecnicamente superior à muitos ainda hoje. Suas palavras servem de inspiração para todos, dentro e fora da dança: “Procurei a perfeição todos os dias”, disse ela, “e nunca desisti”.
Cinco anos após a sua morte, vale lembrá-la com a mesma paixão que despertava em vida. Absoluta como seu título.
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