A Questão de Françoise Hardy

Como cresci nos anos 1970s, a voz de Françoise Hardy, para mim, é a de La Question, a canção título do álbum de mesmo nome que ela lançou em 1971, em colaboração com a brasileira Tuca. A essa altura, ela já era uma estrela mundial há mais de 10 anos, um ícone fashion e pop. A canção estava na trilha sonora da novela Selva de Pedra e tinha tudo a ver com a cultura no Brasil, meio-bossa nova, romântica e singela.

Françoise era orgulhosa de seu trabalho – “é o meu melhor álbum” – mas por muitos anos La Question era considerado um “fracasso” na sua carreira, uma obra estranha, rejeitada pelas rádios e fãs franceses, e, até por isso, quase nenhuma das compilações de seu acervo incluíam nenhuma de suas canções (sei bem porque quando morei na França sofri para encontrar La Question). Depois de 53 anos, perto da morte da cantora, em junho de 2024, o mundo passou a concordar com ela. É hoje, seu mais cultuado e respeitado trabalho como cantora e compositora.

Um toque bossa-nova para as angústias de um amor complicado

La Question é um álbum quase acústico, marcado fortemente do violão de Tuca, que combinou perfeitamente com o tom suave de Françoise. A essa altura, com uma carreira estabelecida e uma grande estrela, a tímida Françoise vivia o que ela considerou o grande amor de sua vida, um relacionamento instável e complexo com o guitarrista Jacques Dutronc.

Embora tenham se conhecido em 1965, quando ele escreveu Le Temps de L’Amour para ela, Françoise vivia com o fotógrafo Jean-Marie Périer. Apenas em 1967 que ela e Jacques começaram a namorar. Eles teriam um filho, Thomas, em 1973 e se casariam em 1981, separando definitivamente em 1988 e permanecendo amigos próximos até o fim dos dias dela. Como ela mesma admitiu, suas canções de amor eram quase todas escritas para ele e sim, foi o caso de La Question.

Nos primeiros anos do que viria a ser conhecido como um relacionamento turbulento e instável com Dutronc, Françoise Hardy viajou para Brasil para atuar como jurada no Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Como já gostava da MPB (Musica Popular Brasileira) – tinha gravado uma versão de Sabiá (La Mésange), de Chico Buarque, e A Transa (Rêve) – ficou decidida a gravar algum que tivesse o sotaque brasileiro, mas sem ser um obvio “bossa nova”.

As qualidades do La Question

A vida amorosa estava confusa, assim como sua profissional. Com a mudança cultural, suas músicas leves dos anos 1960s estavam ficando ultrapassadas, era hora de se reinventar. Ao retornar do Rio para Paris, Françoise conheceu Tuca, que se chama Valeniza Zagni da Silva, através de amigos em comum. A violonista e compositora tinha deixado o país por conta da Ditadura Militar e ela e a cantora francesa se entenderam imediatamente, “amor à primeira vista, pessoal e artisticamente falando”, como viria a confessar.

Não houve romance entre elas, Tuca também estava vivendo um amor não correspondido (com a atriz italiana Lea Massari), portanto estava alinhada com Françoise na dor. Infelizmente a colaboração delas ficou apenas nesse álbum. Tuca voltou ao Brasil em 1974, e morreu em maio de 1978, de uma parada cardíaca, aos 34 anos.

Os críticos identificaram a qualidade única de La Question imediatamente. Todo composto e ensaiado antes de entrar no estúdio, foi uma produção fácil e tranquila. Nas letras o que prevalece sempre é a incerteza e ausência da pessoa amada. Como ela canta na faixa título “Não sei por que fico num mar que me faz afogar/Não sei por que fico em um ar que vai me engasgar/Você é o sangue da minha ferida, você é o fogo das minhas queimaduras/Você é minha pergunta sem resposta, meu choro mudo e meu silêncio”.

Pois, é, por muitos anos os fãs queriam a “resposta para a canção”, mesmo que na letra ela afirme que não há. E para quem foi escrita?, perguntaram. “Ah… para Jacques”, Françoise confirmou anos depois em uma entrevista. “Sempre para Jacques”.



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2 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de Clauber Casemiro Clauber Casemiro disse:

    Lindo texto, parabéns! Também admiro Françoise profundamente!

    Curtido por 1 pessoa

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