Impacto familiar crucial: House of the Dragon Ep. 2 Recap

Há tantas análises cena-a-cena de cada episódio de House of the Dragon que queria evitar ao máximo ir por esse caminho e o 2º episódio da segunda temporada me fez perceber a força que os roteiristas queriam nos fazer pensar: como o impacto familiar é crucial para o drama. Algo que já comentei antes: em Westeros, irmãos são complicados.

Antes, um recap do que acontece no episódio “Rhaenyra, a Cruel”: na manhã imediata após o brutal assassinato de Jaerhaerys, tantos os Verdes como os Pretos apontam dedos para culpados pela morte da criança. E, pelo menos no caso dos Verdes, o ataque é imediatamente usado como propaganda. O que ninguém se importa, bem ao estilo de George R. R. Martin, é com sentimentos ou saúde mental.

Em King’s Landing, Alicent (Olivia Cooke) e Ser Criston Cole (Fabien Frankel) se sentem culpados porque estavam fazendo sexo e com isso Helaena (Phia Saban) ficou vulnerável com as crianças. Aparentemente, ninguém do time verde sequer desconfia das passagens secretas do castelo. A pobre rainha tem trauma duplo porque viu o filho ser degolado e a mãe transando com Cole, portanto sua loucura dos livros ganhou ainda mais força. Ignorada pelo marido-irmão, Aegon (Tom Glynn-Carney), que está sofrendo profundamente a morte do herdeiro, a solidão de Helaena é de partir o coração.

Geralmente sua companhia era garantida por Aemond (Ewan Mitchell), que estava ausente durante a noite (sorte dele, azar de seu sobrinho) e agora está ausente no luto, voltando ao bordel onde encontra o conforto materno na prostituta que o embala e serve leite quente. Freud ficaria milionário em Westeros.

No DNA truncado dos Targaryens, que se casam entre si, há a loucura, a ira e sim, o narcisismo. Embora Aemond esteja falando a verdade de que ELE era o alvo, sua insensibilidade à dor de Helaena é flagrante quando ele se vangloria de que o tio teria mandado matá-lo por temê-lo. E num momento de pura honestidade, ele confessa se sentir triste de ter matado o sobrinho Lucerys, embora seu trauma seja justamente o bullying que sofria de Aegon, Luce e Jacaerys quando crianças.

E sabem de quem é a culpa de tudo? Otto Hightower (Rhys Iphans) e da limitada inteligência de Alicent (Olivia Cooke), completamente despreparada para a posição que exerce como Rainha ou mãe. Também já abordei a inabilidade materna dela, em contraste direto com Rhaenyra (Emma D’Arcy). Alicent, órfã de mãe, foi usada pelo pai ambicioso para suas maquinações políticas, “vendida” em um casamento ainda muito nova e com um homem muito mais velho, por mais de 10 anos sem ter prazer no sexo e gerando filhos que nem herdeiros diretos do trono eram.

Desde que foi mãe, vimos uma Alicent sofrendo para interagir com os filhos, ela é incapaz de dar o que nunca teve: carinho, conselhos e compreensão. Com isso vimos Aemond buscando na prostituta o que queria em casa, um Aegon frágil pedindo a opinião de sua mãe e uma Helaena forçada a fazer o que não quer (por ordem de Otto) e rejeitando o desajeitado carinho que Alicent tenta fazer. A falta de conexão amorosa entre os verdes é o ponto fraco que Rhaenyra falha em explorar, mas que é crucial para toda tragédia que se desenha.

Mas não está melhor do lado dos pretos não. Depois de pedir a cabeça de Aemond Targaryen, Rhaenyra parece ter voltado à antiga rainha cautelosa em apenas uma noite de sono. Toda a dor do livro quanto ao luto de Lucerys, que a teria “paralizado” não foi bem assim. Okay, Fogo e Sangue dá esse espaço, mas o papo ali já deveria ter sido primeiro com Daemon (Matt Smith) para certificar o que aconteceu.

Soou esquizofrênico ou hipócrita ela estar tão surpresa que alguém do seu time, diante do que viram e ouviram dela após o funeral de Luce, não ter entendido que seria “um filho por um filho”. Sorte de Rhaenyra que Daemon, ao contrário do que ela o acusa, não quis tirar a autoridade dela e ficou quieto até que os dois pudessem falar abertamente.

A integridade de Rhaenyra tem sido um alento para nós que já torceríamos por ela pelo simples fato das regras estarem sendo burladas. Esse bônus, por outro lado, tira a dimensão dramática da guerra e da luta dos pretos. O elemento mais brutal da história foi a violência que escalou de tal forma que quase extinguiu a Casa Targaryen, mas, entre as atitudes corretas da Rainha e as cabeçadas dos Verdes já fico logo ansiando pela Rebelião do Robert.

No livro, Rhaenyra não consegue fazer um bom reinado tanto por conta da habilidade dos Verdes de a minarem economicamente e popularmente, mas ela também estava isolada, paranóica, assustada. Seu confronto com o marido-tio coloca um fim no casamento dos dois justamente derrubando a estratégia que os uniu: tê-lo como apoiador dela e consorte em Westeros. Erro estratégico irreparável dela, que, sendo racional como tem sido, fica um tanto incoerente.

Por outro lado, ter acabado com o casamento dos dois abre o caminho para a péssima influência de Mysaria (Sonoya Mizuno) e, quem sabe, a entrada de Nettles. Daemon é mesmo complexo na história, um homem que se frustra com a “fraqueza” dos que ama (Viserys e Rhaenyra) e é incapaz de se conformar com o papel de coadjuvante para ajudá-los. Ainda assim, Dameon é fiel e se manterá ao lado dos pretos nessa longa batalha que mal começou.

Ainda no recap, vemos a punição dos assassinos de Jaehaerys, e como- SPOILER ALERT – Hugh Hammer (Kieran Bew) já vem perigosamente circulando entre os verdes. Ele vai passar para o lado dos pretos, mas sua traição será épica mais à frente. Os irmãos Adam (Clinton Liberty) e Alyn de Hull (Abubakar Salim) terão igual importância e estão ganhando nossa simpatia. Esse trio é importante para a próxima temporada, é mais para irmos acompanhando.

O que chegou a esse episódio foi um dos fatos mais marcantes de toda saga, que chegamos a pensar que estaria na 1ª temporada e que foi o duelo entre os irmãos Arryk e Erryk Cargyll (Elliot e Luke Tittensor), vírgula por vírgula fiel ao relato do livro, desde que foi Ser Criston Cole que encomendou o assassinato de Rhaenyra e que os dois morrem honrados, servindo cada um seu soberano. Foi tenso, foi triste e emocionante, um dos pontos altos da história. Só faltou a canção dos dois para encerrar os créditos, um cuidado que Game of Thrones teve sempre, incluindo Jenny of Oldstones e Rains of Castamere na trilha sonora.

Com Ser Criston Cole navegando como vilão raso da história, vimos a queda de Otto Hightower como Mão do Rei, a confirmação de que Daeron Targaryen entrará na trama e que Ser Larys Strong (Matthew Needham) vem crescendo sua teia conseguindo a confiança de Aegon. Ser Criston, mesmo tendo falhado na segurança do herdeiro do Rei dos Verdes, foi elevado à Mão do Rei e ele quer sangue e ação. Acabaram os dias de diplomacia (justamente quando Rhaenyra manda Daemon para longe).

E tudo isso fica à sombra da questão obvia dos erros de criação como sementes de relações tóxicas. Daemon não apenas ignora a esposa, mas as filhas também. Baela (Bethany Antonia) tem mais carinho da madrasta-tia do que do pai, algo que ela desabafa com o primo-noivo Jacaerys (Harry Collett). A cena do casal – com teaser do destino do príncipe nos detalhes que apenas quem leu o livro captou – foi um dos pontos altos do episódio.

Baela e Jace foram prometidos ainda crianças e jamais viram o noivado entre eles como algo ruim, ao contrário, tendo crescido próximos e unidos pelo casamento de seus pais, os dois são confidentes, confiantes e carinhosos. Ela se queixa de Daemon e os dois conversam sobre “pais”, falando primeiro de Laenor Velaryon (John McMillan) e depois, sutilmente, de Ser Harwin Strong (Ryan Corr), numa cumplicidade simples e muito importante. Jace foi amado até por Daemon, mesmo ciente que é bastardo, ele não é revoltado ou recalcado, menos ainda, rejeitado por Baela. Essa unidade de amor entre os pretos, mesmo com o desafino de Daemon em demonstrar afeto, é um dos pontos altos deles. Mas será triste ver como tudo vai acontecer…

Ou seja, há pontos claros de House of the Dragon, todos ainda exercendo influência direta nos acontecimentos. A falta de amor, carinho ou conexão entre Otto e Alicent, consequentemente entre ela e os filhos. Alicent navega perdida, fazendo erros que nem percebe, atrapalhando os planos do pai por passos bobos como tentar manter a amizade com Rhaenyra quando jovem e agora por estar se envolvendo com Criston Cole. Entre os Hightowers, mesmo quando pedem ajuda entre si, são negados. A toxicidade da inveja rege a causa dos verdes.

E do lado dos Velaryons-Targaryens há amor de sobra, mas tolerância em excesso. Rhaenys (Eve Best) não acabou com a coroação do usurpador porque julgou que não era uma guerra que pudesse começar ela mesma. O preço dessa decisão virá no episódio 4, eu imagino. E Rhaenyra está evitando usar sua maior arma – Daemon – porque quer ser reconhecida sozinha como governante.

Claro que é essa complexidade que faz de House of the Dragon uma série tão interessante. Tem muito mais a comentar… mais posts durante a semana!


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