Biki: A Estilista por Trás do Estilo de Maria Callas

Não que seja necessária uma desculpa para lembrar e falar e Maria Callas, mas com o filme Maria começando seu circuito mundial (e rumores de Oscar para Angelina Jolie), é fácil lembrar que há 70 anos nascia La Callas, a soprano que reapareceu como sílfide e passou a ser um ícone da moda.

Sim, depois de já estar famosa por conta de sua voz, Maria estava determinada a ser também uma mulher bonita, mas com mais de 95 quilos, suas medidas acima do padrão da magreza eram um impecilho. Depois de uma dieta severa, até hoje com versões conflitantes de como ela conseguiu perder mais de 30 quilos em pouco tempo e com muitos tentando levar crédito pela “transformação”, de médicos ao ex-marido, Maria Callas reapareceu em 1954 pesando apenas 63 quilos, esbelta e bonita como ainda não tinha sido antes.

A vaidade de Callas não veio de seu ex, Giovanni Battista Meneghini ou mesmo do maestro Tulio Serafini, mas dela mesma, uma mulher determinada e com uma visão do que queria para si e para sua carreira: ser reconhecida como bonita também. E tinha que se vestir à altura.

Reza a lenda que sua estilista preferida, Elvira ‘Biki’ Bouyeure, a conheceu em 1951 mas se recusou a vesti-la antes que Maria perdesse pelo menos 30 quilos. “Nada menos”, disse. Quando retornou justamente com o peso sugerido, nascia uma parceria que iria durar uma vida e render à Biki a autoria de um dos looks mais copiados, elogiados e iconizados de todos os tempos: La Callas.

Embora Biki fosse enteada-neta do compositor Giacomo Puccini, foi por conta da professora e mentora de Maria que as duas se conheceram: Luis de Hidalgo, irmão de Elvira de Hidalgo, era diretor do ateliê de Biki, em Milão, e foi a ponte entre as duas mulheres.

Com mais de um terço de seu peso corporal sendo alterado, Maria Callas precisou refazer todo seu guarda-roupa e Biki a ajudou a criar sua assinatura, com o apoio de seu genro, Alain Reynaud, que foi treinado por Jacques Fath. Com os dois, Maria não apenas descobriu o que vestir, quais acessórios usar ou como arrumar o cabelo ou a maquiagem: com aulas de etiqueta, passou a ser uma mulher elegante nos gestos e nas roupas também.

Claro que Christian Dior e Yves Saint-Laurent também faziam parte dessa nova fase, mas Biki era absolutamente sua favorita. Com luvas, leques de penas, casacos de pele e chapéus dramáticos, seu estilo gritava “Diva”. As visitas ao ateliê eram quase diárias e logo seu guarda-roupa passou a incluir vinte e cinco casacos de pele, quarenta ternos, cento e cinquenta sapatos, duzentos vestidos e pelo menos trezentos chapéus. As luvas jamais eram repetidas: depois de usadas iam para o lixo. O que mais esperar de uma estrela?

E curiosamente Biki sempre preferiu ser considerada uma alfaiate, e não uma designer. A Moda passou a ser um ganha pão porque tinha natureza criativa e abriu seu primeiro ateliê ainda em 1934, junto com sua colega aristocrata Gina Cicogna. Parte de seu posicionamento mostrava ousadia: só vestia poucas mulheres e “bonitas”. Sua marca era eclética e incluía desde de lingerie a ternos, de vestidos a acessórios, também criando tapetes, lençóis e azulejos. Muitos creditam à ela o início do pret-a-porter na Itália, assim como mesclar cores ousadas e tecidos incomuns, apostando em material artificial para vestidos de dia e de noite.

“Conheci Maria em 1951 na casa de Wally Toscanini”, Biki declarou certa vez em uma entrevista. “Ela era uma verdadeira bagunça, uma madame gorda ‘rica e vaidosa’ que amava acessórios que combinavam, os sapatos com a bolsa, e tanto melhor se fossem de couro envernizado brilhante”, lembrou.

“Maria era uma esponja. Seu talento era um grande dom. O que ela aprendeu parecia ter pertencido a ela sempre, como algo inato. Por exemplo, sua graça em se enrolar em um xale. Lembro-me de apenas uma pessoa que conseguia acompanhá-la, o cardeal Montini, que mais tarde se tornou papa”, continuou com a lembrança.

Biki, que nasceu em uma família famosa e prestigiada, circulava entre os famosos e influentes de sua época. Ser a Pigmalião de Maria Callas a fez ser eterna. Seus figurinos eram tanto para o palco como para vida privada da cantora, listando por escrito – pelo menos nos primeiros anos – como compor cada traje, incluindo acessórios como chapéus e sapatos.

Os looks mais clássicos de Callas são de Biki: desde o vestido vermelho no concerto de Paris, a capa de noite preta em crepe de lã para a abertura da temporada do Teatro alla Scala em Milão em 1970, o casaco paisley em 1971, e o vestido longo com gola de cetim de seda que Callas usou no concerto de despedida no Royal Festival Hall em Londres, em 1973. Por recomendação da italiana, vestia cetim cor de mel com acabamento em zibelina; um longo com estampa de leopardo, assim como contrastes ousados ​​de veludo carmesim e cetim preto, além de apostar em grandes capas sobre os ombros, e outros detalhes.

Ao todo, a parceria das duas durou 25 anos, só terminando com a morte de Maria, em 1997, aos 53 anos. Biki foi uma das amigas próximas que tiveram acesso ao corpo da estrela, deitado em sua cama em um vestido cinza, uma rosa e uma cruz no peito. Ela disse que Callas finalmente parecia serena. A própria Biki só viria a falecer em 1999, aos 92 anos.

Com tantos dos looks de Biki sendo recriados para o filme Maria, vale celebrar o encontro de Arte e Estilo, numa amizade feminina genuína e inspiradora.


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