Para os brasileiros, graças à popularidade da montagem tradicional do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o balé Coppélia sempre foi extremamente popular. Mas, nos Estados Unidos, não é um balé tão frequente no repertório das companhias, algo que o New York City Ballet está revertendo com a remontagem da versão de George Balanchine, que, em 2024, completa 50 anos.


Coppélia de Balanchine, assim como seu Quebra-Nozes, é a base principal de muitas das versões posteriores, uma vez que o original mesmo se perdeu no tempo. A versão do Municipal do Rio, por exemplo, tem muito dela, mas é assinada por Enrique Martinez e chegou aqui em 1984, sendo a mesma que o American Ballet Theatre estreou com Carla Fracci e Erik Bruhn.
A visão de Balanchine é a base também porque não apenas é anterior à do ABT, mas é uma revisão do que Alexandra Danilova dançou com os Ballets Russes ainda nos anos 1930s. Ou seja, não poderia ser mais tradicional pois tem pelo menos 86 anos e é baseada na visão de Marius Petipa, que ela e Balanchine viram no Mariinsky em São Petersburgo quando jovens, antes de deixarem o país, em 1924.



Mas vamos à versão que está voltando aos palcos, que é de 1974. O elenco original tinha Patricia McBride como Swanilda, Helgi Tomasson como Franz, e Shaun O’Brien como Dr. Coppélius e há imagens no Youtube com eles que recomendo ver.
Como o programa da companhia define, Coppélia é “considerado um dos maiores balés cômicos do século 19”, com uma história divertida e fácil de encantar adultos e crianças. A estreia mundial, em 1870, teve a assinatura de Arthur St. Léon e reencenado por Petipa em 1884, revisado por Cecchetti em 1894, e ganhado inúmeras versões desde então. Ainda como o NYCB ressalta, enhuma das coreografias originais de St. Léon permanece nas produções de hoje e, embora os Atos I e II tenham mantido suas ideias e história, a natureza de alguns dos papéis mudou”. O que não mudou, eles seguem, é que “esta encenação de Balanchine e Alexandra Danilova — que foi considerada uma Swanilda definitiva — também contém a mais autêntica das danças dos personagens”.
E autenticidade é irresistível, concordam?
A história “verdadeira” de Coppélia, por outro lado, é bem mais complexa do que as versões simplificadas que chegaram aos palcos. O conto original veio da mente do escritor alemão E.T.A. Hoffmann e é uma fantasia psicológica sombria sobre a paixão destrutiva de um homem por uma boneca mecânica realista. Além do balé, essa história está na ópera Os Contos de Hoffmann, com música de Jacques Offenbach, que preservou o clima trágico e surreal da proposta original.

Essa versão menos profunda de Coppélia a manteve viva e popular, mesmo que sua última montagem na companhia de Balanchine tenha sido em 2014. Em 1974, quando Balanchine decidiu resgatar esse balé para o público americano, ele aproveitou a oportunidade para adicionar alguns solos masculinos, mais pas de deux e um novo terceiro ato, que – como “casamento de Swanilda e Franz”- é uma festa sem nenhuma ligação à história per se. Ele convenceu ao resistente Lincoln Kirstein (que preferia novos trabalhos no NYC Ballet) que encenar um clássico como Coppelia daria a oportunidade (como em Quebra-Nozes) de colocar no palco jovens alunos e que osso incentivaria a familiares e amigos de cada uma das 24 meninas a estar na plateia.
Na época, ele convocou Danilova para reencenar as danças que ela conhecia tão bem para os dois primeiros atos e para treinar os papéis principais, concedendo à ela os créditos de co-criação.
Na partitura de Léon Delibes, um dos mais destacados compositores que conseguiu transformar o balé em algo maior, o que ganha relevância é a visão divertida e doce da trama, focando na personalidade forte de Swanilda mais do que a estranha obsessão de Dr. Coppélius em criar uma boneca que é a cara dela. Muitos consideram Delibes, sempre extremamente melódico, “fácil” para dançar e, com isso, suas obras são apreciadas tanto por bailarinos como músicos. Coppélia, é, portanto, a primeira partitura de balé sinfônico que trazia motifs (temas) para identificar as personagens, aproveitava o costume de danças nacionais para criar lindas melodias e assim ganhou grande popularidade. Uma vez que muitas coroegrafias ficaram esquecidas, é a música de Coppélia que faz a ponte entre o estilo romântico francês e o estilo clássico russo no balé.

Outra coisa que muitos creditam é dar à Coppélia o crédito de funcionar como uma básica que passou a ser usada para quase todos balés do século 20: uma trama no 1º e 2º que demanda pantomima e gera o drama, para fechar no 3º com uma festa que é nada mais do que uma sequência de danças sem fins dramáticos.
Voltando à versão de Balanchine, na época de sua estréia, a crítica do New York Times, Anna Kisselgoff, elogiou os toques mais sombrios que o coreógrafo inseriu nos primeiros atos, e ressaltou que o ballet “enfatiza a fonte Hoffmannesca do libreto original (Coppélius é gótico e não uma figura cômica)”, descreve, elogiando a montgem como espirituosa, deliciosa e visualmente sofisticada. “A tentativa não é buscar a reprodução da coreografia de Petipa, mas trabalhar dentro do espírito de Petipa em um idioma para o nosso tempo. Não há dúvida de que o Sr. Balanchine foi altamente bem-sucedido“, ela conclui.


Coppélia é um balé onde a personagem-título é coadjuvante e onde a protagonista, a temperamental Swanilda domina o parceiro, Franz, mas tem um antagonista complexo no Dr. Coppélius. Frequentemente ele é uma figura cômica, mas Balanchine deu outra perspectiva à ele, uma que a crítica Jenniffer Dunning particularmente elogiou em 1980 com o mesmo Shaun O’Brien dando vida à ele. “Shaun O’Brien ofereceu seu brilhante retrato do Dr. Coppelius, o velho e louco fabricante de bonecas”, ela começou. “O Sr. O’Brien parece adicionar novas nuances dramáticas a cada temporada, mas, embora o sombreamento mude um pouco, ele faz do rabugento Coppelius uma figura trágica de proporções heróicas, permanecendo bem dentro das dimensões de conto de fadas do balé”.
A versão comemorativa de 50 anos do NYCB estreia no dia 27 de setembro. Uma grande iniciativa para manter os clássicos vivos. E eternos.
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