Nem preciso disfarçar o quanto amo The Cure e com isso 2024 é um ano especial. Embora oficialmente o hiato entre álbuns com músicas novas tenha sido de 16 anos, para mim, o último trabalho que realmente me conectou com Robert Smith for Bloodflowers, há 24 anos. Tanto The Cure, de 2008 e 4:13 Dream, de 2008, têm ótimas canções – é impossível para banda ‘errar’ – mas, para mim, faltava a angústia e densidade de outros álbuns exatamente como Songs of a Lost World oferece.

Há diferentes opiniões de qual seria “o” melhor material do The Cure, mas há uma popularidade e consenso que volta e meia se referem à Desintegration, de 1989 e certamente nos 35 anos que separam os dois álbuns faz a conexão interessante. Enquanto em 1989 Smith estava se casando com sua namorada da adolescência, Mary, e incluindo aqui uma das maiores canções de amor das últimas décadas, Lovesong, em Songs of a Lost World esse amor evolui para um senso de perda, de receio da mortalidade mais próxima. Os algoritmos concordam porque assim que um termina, imediatamente o outro começa a tocar.
O material tem sido trabalhado por Robert Smith ao longo dos anos e, como ele mesmo diz, foi apenas quando ultrapassou o marco de 40 anos de The Cure que ele conseguiu internamente deixar de focar no acervo e voltar a ter prazer em criar. Foi uma estratégia vencedora, mesmo que não planejada com esse efeito. Com o privilégio de tantas canções ‘clássicas’, nesse anos nos quais não tínhamos nada ‘novo’, a banda circulou em excursões que eram tantos nostálgicas como novidade, alcançando novas gerações de forma crucial.
A palavra autenticidade nunca teve um peso tão significativo como nos últimos 16 anos e isso o The Cure tem em grandes volumes. Sempre teve. Eu os descobri com 13 anos, meu sobrinho, hoje com 30, tem a mesma paixão e reação que ainda tenho nos meus 54 anos. Poderiam acusar Robert Smith de ter “parado no tempo” e ouvi muito isso ao longo da minha fidelidade à banda, mas aqui estamos com ele sendo idolatrado e amado por três gerações da mesma forma em 45 anos de estrada.

A honestidade de Smith em suas letras, seu som e até no seu visual curioso fazem dele um artista raro, ninguém consegue ser igual. Ele tem habilidade para criar sons pop e leves, tipo Friday I’m In Love só aparentemente alegres, como canções de 10 minutos como Endsong, do último álbum. Longas introduções e shows de três horas, visitando sucessos sem nenhuma recusa de assumir a leveza como a densidade, The Cure é mesmo a solução para quem quer uma música de qualidade.
Songs of a Lost World é um álbum “curto”, são menos de 50 minutos e apenas nove canções, mas costuradas e apresentadas numa sequência profunda que ressalta perdas e o amadurecimento forçado dos anos. Há um som meio “sujo”, mais guitarra, mais batida e o teclado etéreo que são a assinatura do The Cure. O poder da abertura de Alone com a citação poética de que “Este é o fim/De cada música que cantamos” nos lembra de tantas as vezes que Smith cantou a necessidade que tinha de estar satisfeito com o que fazia senão seria o fim para ele. Agora nos tranquiliza que ainda tem material para “dois álbuns”, portanto não é, ainda, “o fim”, mas ele está no horizonte.
O que fica ainda mais claro é como o cantor abre sua intimidade e coração aqui. Ele mencionou em entrevistas que nesses 16 anos, as perdas foram muito impactantes para ele: perdeu os pais, o irmão mais velho, e os tios. Mesmo sendo “a ordem natural”, a sensação de que tudo que cantou sobre mortalidade até aqui ganhou outra perspectiva, e é verdade. Para nós, especialmente após uma pandemia que nos isolou e levou tantas pessoas queridas, temos um ponto em comum com ele.
Aos 65 anos, Robert Smith manteve sua voz intacta e jovem, por isso navegar no seu acervo é como se entrar numa máquina do tempo, conduzida com sinceridade e muito carinho. O mundo que para ele está perdido, é ainda pior do que ele já identificava opressor. A bela And Nothing Is Forever é para mim a grande surpresa (eles já tocavam a metade do álbum em seus shows, portanto já conhecia algumas das faixas), mas All I Ever Am também se destaca.
Para os ‘xóvens’, sabemos que refletir sobre o fim que está à espreita pode soar estranho e pesado, mas quem é neto ou filho daqueles que sobreviveram à duas guerras mundiais, o pânico de uma terceira sempre foi muito real. As reflexões do The Cure falam muito disso e amenizam o processo. E certamente, curam a alma. Songs Of A Lost World pode ser sombrio, pode ajudar no amadurecimento numa viagem melancólica, mas é uma paradoxalmente positividade realista. Em EndSong, que fecha o álbum, Smith canta “Estou lá fora no escuro… me perguntando como fiquei tão velho. Tudo se foi… nada sobrou… tudo que eu amava.” É extremamente egoísta da minha parte, mas a perda dela foi o nosso ganho. A generosidade de abrir seu coração com um material tão lindo, é a cura para nossa alma. Nota 10.
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