85 Anos de O Morro dos Ventos Uivantes: Um Clássico Atemporal

Não poderia fechar 2024 sem lembrar um dos maiores filmes de todos os tempos que completa 85 anos: O Morro dos Ventos Uivantes. Adaptação de um dos livros mais intensos e complexos da literatura inglesa, escrito por Emily Brontë em 1847, o filme de William Wyler é sempre apontado como o “melhor dos filmes de Wuthering Heights“, apesar dos desvios significativos do material de origem.

A história de amor, obsessão e vingança de Cathy Earnshaw e Heathcliff é uma das mais estudadas e discutidas até hoje porque é em volta de temas universais, sendo que a adaptação de Wyler apresentou tudo isso de uma forma que era artisticamente ambiciosa e emocionalmente ressonante. O filme foi indicado a oito Oscars, incluindo Melhor Filme, e ganhou o de Melhor Fotografia. Esses elogios solidificaram seu lugar como um clássico e o ajudaram a ganhar aclamação de várias gerações.

Em 85 anos, a versão mais popular ainda é a primeira

Depois de Hamlet, parece que todo ator britânico precisa ter seu registro como Heathcliff, esse personagem intenso e difícil que saiu da imaginação de Emily Brontë. Boa parte do apelo está na interpretação icônica de um jovem Laurence Olivier, que abriu caminho para outros atores tentarem decifrar a personagem também. Falarei mais sobre isso à frente, mas considerar que em 85 anos, a versão que ainda é a favorita seja a de 1939 é mérito da genialidade de William Wyler.

Sua direção, descrita como “meticulosa”, tem o domínio de quem sabe contar uma linda história no cinema. O Morro dos Ventos Uivantes acabou virando um título atemporal porque manteve o foco na profundidade emocional e na interação dos personagens capturou a intensidade da história de uma forma que ainda ressoa com várias gerações.

Além disso, em um anos que é considerado o melhor de todos em Hollywood, ganhar o Oscar de Melhor Fotografia competindo com E o Vento Levou e O Mágico de Oz, para citar apenas dois títulos de 1939, comprova a superioridade técnica do que ainda vemos no filme. Gregg Toland deu vida aos pântanos de Yorkshire com uma beleza assombrosa, sendo que o uso de luz e sombra deu uma qualidade atmosférica que combinava perfeitamente com o tom gótico da história.

Se precisamos apontar para “um defeito” na obra, vale lembrar que nos anos 1930s e 40s as trilhas sonoras eram carregadas, excessivamente presentes e até irritantes, mas, em geral, a composição de Alfred Newman se tornou icônica, adicionando peso emocional às cenas mais dramáticas do filme.

O Morro dos Ventos Uivantes foi uma superprodução com cenários, figurinos e valores expressivos, garantindo que o filme parecesse – e fosse – grandioso. A representação dos pântanos e do próprio Morro dos Ventos Uivantes como uma paisagem selvagem, tempestuosa e indomável, refletiu a turbulência interna dos personagens e contribuiu para o poder emocional do filme.

A simplificação que “virou padrão””

Outra “falha” no filme de Wyler vem mais uma reação purista de alguém que ama tanto o livro que estranhou a opção de “condensar” o drama. Há omissão de elementos sombrios do romance para privilegiar a interpretação romantizada, o que atraiu o público que queria uma história de amor emocional e dramática, mas perdeu toda ambiguidade e peso que apenas a versão de 1992 tentou mostrar. Isso porque O Morro dos Venttos Uivantes não é apenas sobre Cathy e Heathcliff, mas é uma saga de duas gerações. A segunda parte da trama é ainda mais pesada que a primeira.

A edição tinha como meta manter a história em pouco menos de duas horas. Por isso o filme de 1939 foca somente na primeira geração de personagens (a história de Heathcliff e Catherine). A decisão simplificou a narrativa, tornando-a mais acessível ao público e enfatizou a história de amor apaixonada e condenada, que se tornou o aspecto central e mais memorável da adaptação. Essa decisão foi amplamente motivada não pelas restrições do tempo total do filme, mas também pela sensibilidade moral da época.

Insisto em repetir o “corte” porque ao eliminar a história multigeracional, Wyler e seus roteiristas também tiraram uma das inovações da obra de Brontë, que era a narrativa não linear. Embora fosse usada em filmes Noir, foi considerada difícil para emplacar um drama. Além disso, a segunda metade do romance, que explora os relacionamentos da próxima geração, era mais sombria e complicada, envolvendo temas de vingança e redenção, igualmente vistos como menos adequados ao gênero de melodrama romântico popular em Hollywood na época. A censura vigente apagou a ambiguidade moral e a crueldade presentes no romance.

O que se tornou triste é que desde então, praticamente todas as versões passaram a cortar a história e muitos vêem Heathcliff como um idealista romântico, não o monstro vingativo e violento da segunda parte.

A importância da obra original

O Morro dos Ventos Uivantes é um romance gótico multigeracional ambientado nos pântanos de Yorkshire, com foco em duas famílias principais: os Earnshaws e os Lintons. A história gira em torno de Heathcliff, um anti-herói sombrio e taciturno adotado pela família Earnshaw, e seu amor obsessivo por Catherine Earnshaw.

A narrativa é emoldurada por dois narradores: o Sr. Lockwood, um estranho que aluga Thrushcross Grange (a casa dos Earnshaws), e Nelly Dean, a governanta que conta a história para ele. O romance abrange décadas, explorando temas de amor, vingança, classe e o poder destrutivo da obsessão, sendo que os principais pontos da trama incluem a ascensão de Heathcliff de um estranho abusado para um rico proprietário de terras e sua eventual vingança contra as famílias que o injustiçaram.

O talento incrível de Emily Brontë sobre os relacionamentos psicologicamente complexos, com descrições tão poeticamente precisas fazem do livro uma obra-prima. Quando no trecho mais famoso Catherine declara “Seja qual for a composição de nossas almas, a dele e a minha são as mesmas. Eu sou Heathcliff!“, que é um arrebatamento que só se iguala ao de Heathcliff chorando que “Não posso viver sem minha alma!” Enquanto a declaração de Cathy resume sua conexão intensa, quase metafísica, de natureza doentia e destrutiva, a de Heathcliff é talvez a expressão mais icônica do amor obsessivo e avassalador.

Mais do que um amor doentio, quase patológico, O Morro dos Ventos Uivantes também fala de racismo, de uma natureza indomável em contraste aos anos da castidade vitoriana, refletindo a dicotomia entre paixão e propriedade. Ela estuda e eterniza a hierarquia social e a profundidade emocional de uma sociedade britânica ainda em mesmo conflito em pleno século 21. Com Cathy e Heathcliff, Brontë desafia os ideais vitorianos e a rigidez das estruturas de classe, além de investigar os extremos do amor e do ódio, ilustrando como a paixão pode ser tanto afirmativa da vida quanto destrutiva. Os protagonistas são moralmente ambíguos, desafiando noções simplistas de heroísmo ou vilania. Pelo menos há um final esperançoso, que sugere que o amor e a compreensão (o relacionamento de Cathy Linton e Hareton) podem quebrar o ciclo geracional de trauma e vingança, oferecendo esperança em meio à escuridão.

Encontrando Cathy e Heathcliff

Vamos aos bastidores das filmagens. Todo fã de E O Vento Levou – e de Vivien Leigh – sabe que O Morro dos Ventos Uivantes está ligado de coração e alma de uma maneira incrível ao filme que fez dela uma estrela. Isso porque Laurence Olivier e a futura Scarlett O’Hara estavam no auge de sua paixão e ainda se firmando como artistas. Olivier já era famoso nos palcos, mas o cinema ainda era um terreno no qual parecia eludir seu talento. E Vivien, que só era relativamente conhecida na Inglaterra, nos Estados Unidos era, literalmente, ninguém. Eles queriam mudar esse cenário.

Por isso, quando Olivier aceitou ir para Los Angeles e trabalhar com William Wyler, ele tentou com grande esforço que Vivien fosse escolhida para interpretar Cathy. Mas, apesar de testada, foi descartada. Como consolo, em vez da protagonista, ofereceram o papel secundário de Isabella Linton, mas Vivien recusou. Sua meta era fazer o filme ao lado de seu futuro marido, mas de igual para ele. Uma vez que já estava em Hollywood, em seguida Vivien conseguiu ser testada para E o Vento Levou. “O resto é História”. Virou uma lenda e ganhou o Oscar de Melhor Atriz.

O tamanho da fama de Vivien Leigh jogou para sempre a sombra da dúvida sobre como teria sido se ela tivesse sido Cathy em vez de Scarlett. Como ávida fã quase blasfemo, mas não acredito que teria emplacado. O Morro dos Ventos Uivantes teria se perdido no tempo. Por outro lado, é fato que mesmo com filmesm como Lady Hamilton e Fogo sobre a Inglaterra unindo Vivien e Olivier nas telas, ficou faltando um título americano que pareasse as duas maiores estrelas do palco inglês da época.


A rejeição de Vivien Leigh não foi isolada. Outras atrizes foram consideradas para o papel antes de ser fechado com Merle Oberon. Miriam Hopkins, uma estrela proeminente da década de 1930, que por estar com mais de 30 anos foi preterida; Bette Davis, ex-amante de Wyler e sua atriz favorita, foi desconsiderada por Samuel Goldwyn. Oficialmente, ele rejeitou a ideia porque achou que Bette não tinha a qualidade etérea necessária para Cathy, mas provavelmente a barrou porque estava ressentido pelas disputas contratuais históricas.

No final das contas, Merle Oberon foi escalada porque consideraram que ela tinha uma combinação de beleza e presença aristocrática perfeitas para o papel. Merle já era conhecida em Hollywood por papéis notáveis ​​em filmes como The Private Life of Henry VIII (1933) e The Dark Angel (1935) e também é vista como a escolha ideal.

Quem não gostou foi justamente Olivier, mas até ele mesmo não foi o primeiro a ser considerado para Heathcliff na visão de Wyler. Isso mesmo, hoje é impossível imaginar outro ator no papel, mas o diretor originalmente queria Robert Newton, que foi considerado “feio”. Outros nomes considerados foram Ronald Colman, Douglas Fairbanks Jr., e James Mason, sendo que Charles Boyer disse em sua autobiografia que recusou o papel quando o chamaram. Olivier era virtualmente desconhecido fora da Inglaterra, mas virou uma estrela mundial com O Morro dos Ventos Uivantes. O destino sempre sabe melhor.

Todo clássico tem história de dramas de bastidores…

Um filme não é perfeito sem muita discussão atrás das câmeras e William Wyler cortou um dobrado com seu elenco. Mesmo acostumado a lidar com estrelas conflitantes, as lendas de brigas nos bastidores são inesquecíveis.

A começar pela contrariedade de seus atores, nesse caso Laurence Olivier em maior destaque. Ele e Merle Oberon já tinham trabalhado juntos, mas aqui não se entenderam de forma alguma. As brigas eram gigantescas. Mesmo décadas depois, Olivier não poupou críticas à sua parceira de filme, Merle Oberon falando mal dela em sua autobiografia e criticando a (falta de) habilidade de atuação dela. Injusto da parte dele e, sem surpresa, o relacionamento de trabalho dos dois ficou difícil.

Mas o que mais marcou sua memória foram os sentimentos mistos pelo filme, admitindo que não ficou totalmente satisfeito com a produção ou com sua própria performance. Intenso em todas suas atuações, Laurence Olivier mergulhou no papel de Heathcliff armado com as técnicas que ele havia aperfeiçoado interpretando Hamlet no palco em 1937. Usando teses de psicologia, ele desenvolveu um ritmo staccato em suas falas, com base em sua concepção freudiana que usava interpretando Shakespeare. Só que o resultado foi visto por alguns como pomposo e arrogante.

Outro problema era que Olivier considerava o Heathcliff do filme uma figura unidimensional, impulsionada em grande parte pela raiva e obsessão, mas que tornava a personagem menos desafiadora. Também estranhou o estilo de Wyler, que chamou de exaustivo, por demandar várias tomadas até que ele alcançasse exatamente o que imaginava. Reza a lenda que a frustração de Olivier foi tanta que, irritado depois de mais uma tomada, teria exclamado: “Pelo amor de Deus, eu fiz isso sentado. Eu fiz isso com um sorriso. Eu fiz isso coçando minha orelha. Eu fiz isso de costas para a câmera. Como você quer que eu faça?” A resposta de Wyler foi seca: “Eu quero melhor”.

Em outro momento, quando Wyler interrompeu Olivier em uma cena, perguntando se ele achava que estava no teatro, o ator respondeu com arrogância: “Suponho que esse pequeno meio anêmico não aguente uma ótima atuação”. A gargalhada unânime de toda equipe teria feito Olivier perceber que o errado era mesmo ele.

Embora seja uma de suas atuações mais famosas, depois de se vir na tela, ainda mais comparando a naturalidade de Vivien (com quem disputava a fama), Olivier se viu cheio de exageros e “gestos extravagantes”. Mas se o problema fosse apenas com ele!

Merle Oberon tinha orgulho de O Morro dos Ventos Uivantes ,mas também lembrou com sinceridade em seu livro sobre o terror que foi trabalhar com o arrogante Olivier e o perfeccionista Wyler. Havia também o inconviniente de estar fazendo par com o ex-namorado, David Niven.

Nada era fácil sem as câmeras estarem rolando. Niven se recusava a gravar chorando. Merle Oberon, depois de gravar a cena da tempestade com ventania e chuva, foi hospitalizada por dias por causa do frio. Mas a melhor é a lenda de que durante uma cena particularmente emocional, ela ficou frustrada com a intensidade de Olivier e gritou com ele: “Se você acha que pode fazer melhor, por que não faz a minha parte e a sua também?” Climão!

Pelo menos Geraldine Fitzgerald, que foi escalada como Isabella Linton, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

As teorias e o melhor Heathcliff dos filmes

O grande mistério de O Morro dos Ventos Uivantes é Heathcliff. A corrente forte que defende que a “escuridão” descrita por Brontë era literal, e não metafórica, faria dele um dos primeiros protagonistas negros da literatura inglesa. Mas é controverso.

Outra teoria recorrente é a de Heathfcliff seria filho ilegítimo do Sr. Earnshaw, o que faria de seu relacionamento com Cathy algo incestuoso, além de toda toxidade que já envolve os dois. Igualmente controverso. Oficialmente, Heathcliff é descrito como um órfão de provável origem cigana que é adotado por Sr. Earnshaw, em Liverpool, depois que é visto passando fome nas ruas. É tudo que sabemos.

Assim fica a última questão: quem foi o “melhor” Heathcliff fora das páginas? Depende, claro.

Laurence Olivier é tido como Melhor Heathcliff romântico e o mais complexo é Ralph Fiennes (1992). No final das contas, o “melhor” Heathcliff depende de como os espectadores interpretam o personagem: como um anti-herói romântico, um vilão vingativo ou uma figura trágica presa entre o amor e o ódio. Cada ator trouxe pontos fortes únicos para o papel, enriquecendo a história atemporal de Brontë de maneiras diferentes.

Diante disso, por ter sido o pioneiro, o Heathcliff de Olivier ainda é, talvez, o mais icônico, porque incorpora o romance sombrio e taciturno que definiu a Era de Ouro de Hollywood. Sua performance enfatiza a paixão torturada de Heathcliff e seu amor eterno por Cathy, que ressoou profundamente com o público da época.

Embora suavizado em comparação ao livro, minimizando a crueldade e a ambiguidade moral do personagem, é a versão de 1939 que mantém a aura de anti-herói romântico, assim, a interpretação de Olivier é mesmo considerada a versão definitiva para O Morro dos Ventos Uivantes. Você tem outro preferido?


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário