Há imagens icônicas do balé na Arte: os quadros das bailarinas de Edgar Dégas, a escultura que ele fez de Marie Van Goethem, a La Petite Danseuse e agora, no século 21, a fotografia “Megan LeCrone’s feet, soloist at NYCBallet”. Você acha que não sabe o que é, mas duvido.
É a foto que mostra um pé de bailarina ferido ao lado de outro calçado com uma sapatilha de ponta, deixando clara a dualidade entre a beleza do balé e o esforço físico envolvido, tornando-se um símbolo poderoso dessa arte.
A imagem mostra os pés da Megan LeCrone, capturados por Henry Leutwyler nos bastidores do New York City Ballet, e foi publicada pela primeira vez em 2012 no livro Ballet. Sua influência é tão significativa que inspirou outras obras que a série Étoile a parodiou em seu poster da primeira temporada. Lembrou agora?

Desde que apareceu nas redes sociais, em 2012, a imagem tem sido amplamente compartilhada na última década, é o ícone visual do balé contemporâneo.
A história atrás dessa imagem é tão interessante quanto ela e inspirou diversos artistas e fotógrafos a explorarem temas semelhantes. E, como não poderia deixar de ser, também gerou polêmicas,
Uma foto, dois mundos
Leutwyler já havia construído uma sólida carreira como fotógrafo de retrato e still life quando decidiu mergulhar no cotidiano do New York City Ballet. Ao longo de meses, transitou pelos bastidores da companhia, buscando captar o que o público não vê. “Eu queria documentar os bastidores do balé com a mesma precisão que teria em um laboratório científico”, declarou, em entrevista.
A imagem dos pés de LeCrone não foi posada nem planejada — surgiu durante um momento de descanso, quando a bailarina tirava uma das sapatilhas. Um dos pés calçados em uma perfeita sapatilha de ponta, e o outro nu, machucado, coberto de marcas, calos, hematomas, é a melhor imagem do que permanece escondido do público.
Quem é Megan LeCrone?
Megan LeCrone é uma das solistas mais expressivas do New York City Ballet (NYCB), reconhecida tanto por sua técnica cristalina quanto pela intensidade dramática que imprime em cena. Nascida em Winston-Salem, Carolina do Norte, começou a dançar ainda criança e rapidamente se destacou pela disciplina e pela paixão pelo balé clássico. Ela entrou para a companhia em 2002.
A trajetória de Megan não foi isenta de dificuldades. Sofreu uma série de lesões no início da carreira, o que a afastou dos palcos por anos. No entanto, sua resiliência a trouxe de volta com força — e, em 2013, ela foi promovida a solista. Desde então, seu repertório cresceu e inclui papéis de destaque em coreografias de George Balanchine, Jerome Robbins e coreógrafos contemporâneos.

Discreta e técnica, ela nunca buscou o estrelato fora dos palcos. A foto, porém, catapultou sua imagem para além do universo da dança, ainda que sem intenção. Durante anos, a bailarina preferiu não comentar sobre a repercussão, mas, quando fala, reconhece os sacrifícios da dança, mas não os coloca como tão relevantes.
O impacto e a viralização
A imagem circulou intensamente após a publicação de Ballet, mas ganhou tração viral entre 2015 e 2017, com o fortalecimento de redes sociais como Instagram e Pinterest. Diversos veículos internacionais publicaram matérias destacando o contraste entre o glamour da sapatilha e as feridas da realidade. Usuários compartilhavam a foto com frases como “arte é sacrifício” ou “o que não se vê no palco”.

A simplicidade crua da imagem a transformou em um símbolo duradouro — não apenas do balé, mas da ideia de que toda forma de excelência estética requer esforço oculto. Foi usada em contextos tão diversos quanto aulas de psicologia da performance, campanhas de moda e editoriais sobre feminilidade.
Releituras e controvérsias
O sucesso da fotografia também gerou cópias. Em 2015, o fotógrafo norte-americano Tyler Shields publicou uma imagem praticamente idêntica: uma bailarina em ponta com um pé calçado e outro descalço, igualmente machucado. Leutwyler acusou Shields de plágio, o que acendeu um debate sobre apropriação e autoria no meio artístico.
Em uma postagem no Instagram, o fotógrafo suíço criticou a narrativa apresentada por Shields, que alegava ter concebido a ideia da fotografia anos antes. Para Leutwyler, a imagem original era um registro documental espontâneo, enquanto a versão de Shields parecia ser uma encenação.
Embora a fotografia de Shields tenha sido amplamente criticada por sua semelhança com a original, ela revelou o quanto o conceito se tornou visualmente reconhecível. Não há registros de que Leutwyler tenha iniciado ações legais formais contra Shields e a disputa permaneceu no âmbito público e artístico, sem resolução judicial conhecida. Seja como for, a estética “um pé na beleza, outro na dor” passou a compor um repertório iconográfico de fácil associação ao universo da dança e seus bastidores.

A volta da imagem — agora em forma de ficção
Mais de uma década depois de sua criação, a imagem de LeCrone ressurge — ou melhor, inspira — o cartaz da série Étoile. Voltada para retratar o universo competitivo e emocional do balé profissional, Étoile usa uma releitura visual clara do trabalho de Leutwyler para anunciar sua proposta narrativa: revelar o que acontece além da perfeição.
Embora o cartaz da série não use literalmente a mesma fotografia, o conceito é quase idêntico. Um close nos pés de uma bailarina repete o gesto visual da dicotomia: a beleza ensaiada de um lado, a crueza real do outro. A escolha estética indica que a série pretende se afastar do romantismo idealizado da dança e mergulhar em suas camadas mais humanas e dolorosas.


O corpo como palco da verdade
A permanência da imagem de Leutwyler e o seu ressurgimento em um novo contexto mostram o poder da fotografia documental em capturar símbolos duradouros. O balé — por séculos associado à leveza, à disciplina invisível e à estética controlada — encontrou nesse registro um novo emblema. Um lembrete de que cada gesto sublime carrega consigo marcas profundas.
Mais do que uma foto sobre dança, trata-se de um retrato do que o corpo suporta para manter uma ilusão viva. Megan LeCrone, sem saber, virou o rosto — ou melhor, os pés — de uma verdade que muitos evitavam encarar.
E talvez, por isso, sua imagem ainda circule, inspire, comova e agora retorne, em forma de ficção. Porque há algo naquela composição silenciosa que nenhum espetáculo consegue esconder para sempre.
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