“Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.”
Poucas frases condensam tanto uma era quanto essa, dita por Norma Desmond, a estrela do cinema mudo que se recusa a aceitar sua obsolescência em Sunset Boulevard (1950), de Billy Wilder. Mas o que parecia ser apenas um retrato sombrio da Hollywood dos anos 50 se revelou, ao longo do tempo, um espelho implacável das transformações da fama, do desejo de permanecer no centro dos holofotes — e do preço devastador que isso cobra. De obra-prima cinematográfica a adaptação musical grandiosa e controversa, Sunset Boulevard permanece uma fábula fascinante sobre celebridade, delírio e decadência.

Origens e bastidores do filme: o túmulo de uma era
Sunset Boulevard surgiu numa Hollywood que já lamentava sua própria “idade de ouro”. Em 1949, Billy Wilder, então consagrado por filmes como Double Indemnity e The Lost Weekend, decidiu escrever uma crítica feroz à indústria que o consagrou. A ideia era expor as entranhas de um sistema que descartava seus ídolos e corrompia os sonhadores — uma Hollywood onde o glamour morria devagar, mas ninguém ousava apagar as luzes.
A trama acompanha Joe Gillis, roteirista fracassado interpretado por William Holden, que se refugia por acaso na mansão em ruínas de Norma Desmond, uma ex-deusa do cinema mudo que vive isolada na ilusão de que o público ainda a adora. Ela o contrata para revisar um roteiro com o qual planeja retornar triunfalmente às telas — e, aos poucos, os papéis de prisioneiro e carcereiro se confundem numa relação sufocante.
Wilder inspirou-se em figuras reais. Norma é, em parte, uma fusão de atrizes esquecidas do cinema silencioso, como Mae Murray e Clara Bow, mas carrega também ecos da própria Gloria Swanson, que a interpretaria — ironicamente, uma estrela do mudo tentando se reinventar no cinema falado.
A escolha de Swanson foi inicialmente polêmica. Ela estava praticamente fora dos holofotes e, para muitos, já era uma peça de museu. Mas Wilder via justamente nisso a potência do projeto. Ao seu lado, Erich von Stroheim, ex-diretor da própria Swanson nos anos 20, interpretaria o mordomo Max — adicionando uma camada extra de metalinguagem e ironia cruel. A revelação de que Max fora diretor e primeiro marido de Norma é uma alusão direta ao relacionamento real entre Stroheim e Swanson em Queen Kelly (1929), filme inacabado que aparece, inclusive, dentro do próprio Sunset Boulevard, projetado como lembrança fantasmagórica de uma glória perdida.

Os cenários do filme são uma atração à parte. A mansão gótica de Norma — construída nos anos 20 com inspiração mourisca — é apresentada como um mausoléu vivo, com cortinas pesadas, lustres esquecidos, retratos antigos e uma piscina vazia que, em breve, será cenário de morte. As locações reais incluíam a mansão dos Getty na Wilshire Boulevard, demolida poucos anos depois. Já os estúdios da Paramount aparecem em cenas que beiram o documentário, como quando Norma visita Cecil B. DeMille (interpretando a si mesmo) no set de Samson and Delilah — uma das muitas participações especiais do filme. Além de DeMille, figuram no elenco cameos de nomes históricos, como Buster Keaton, Anna Q. Nilsson e H.B. Warner, todos interpretando ex-colegas de Norma em um jogo de cartas melancólico e silencioso. O que poderia ser nostalgia vira necrologia da era muda.
Cenas imortais e recepção
O filme é pontuado por cenas que se tornaram canônicas. Norma descendo a escadaria para o clímax, acreditando que está prestes a retornar à fama, é talvez uma das imagens mais potentes da história do cinema. A narração de um protagonista já morto, o uso quase expressionista da mansão sombria, a trilha sonora opressiva de Franz Waxman — tudo contribui para a atmosfera de tragédia operística.
Ao estrear, o filme foi um sucesso crítico e comercial. Recebeu 11 indicações ao Oscar e venceu três: melhor roteiro, direção de arte e trilha sonora. Mas também foi envolto em controvérsias: Louis B. Mayer, da MGM, chamou Wilder de traidor por “morder a mão que o alimentava”. A crítica, em geral, aplaudiu a ousadia do projeto e o desempenho soberbo de Gloria Swanson, que perdeu o Oscar para Judy Holliday — um dos episódios mais debatidos e lamentados da história da Academia.

Relevância e legado
Mais de sete décadas depois, Sunset Boulevard continua atual. Em tempos de redes sociais, “cancelamentos” e obsessão por juventude, a figura de Norma Desmond ressurge como símbolo dos que não conseguem aceitar o fim do próprio tempo — ou que se recusam a ser descartados por ele. Ela é trágica, sim, mas também ferozmente humana. E sua história ecoa em outras ficções: de sucesso no cinema.
O musical: Andrew Lloyd Webber encontra Norma Desmond
A ideia de transformar Sunset Boulevard em musical surgiu no final dos anos 80, quando Andrew Lloyd Webber, criador de sucessos como O Fantasma da Ópera e Evita, buscava um novo projeto que unisse teatralidade, tragédia e estrelato. Poucas personagens ofereciam tanto potencial quanto Norma Desmond — literalmente maior do que a vida.
Com letras de Don Black e Christopher Hampton, o musical estreou em Londres em 1993, protagonizado por Patti LuPone. Sua voz poderosa e presença cênica deram à personagem uma nova dimensão. Mas bastidores conturbados marcaram essa primeira versão: LuPone foi prometida como estrela da Broadway, mas acabou substituída por Glenn Close após uma montagem em Los Angeles. LuPone processou Lloyd Webber e recebeu uma indenização milionária. A mágoa, aparentemente, ainda existe.

Close, por sua vez, tornou-se a Norma definitiva nos EUA. Estreou no Shubert Theatre, em Los Angeles, em 1993 e depois na Broadway, em 1994, com figurinos luxuosos e uma produção descomunal — o cenário incluía uma mansão giratória de 13 toneladas. Sua performance lhe rendeu o Tony de Melhor Atriz em Musical, além de aclamação quase unânime. (Uma apresentação na qual estive presente e tenho meu programa devidamente autografado como prova. Inesquecível)
Sucesso, fracasso e sobrevivência
Apesar dos aplausos à performance de Close, a crítica foi ambivalente em relação ao musical como um todo. Alguns apontaram que a partitura de Webber carecia de ousadia, e que a produção se apoiava demais no luxo do espetáculo. A New York Magazine chegou a chamá-lo de “um musical sem alma”.
Mesmo assim, Sunset Boulevard foi um sucesso comercial — ao menos no início. As lutas judiciais com LuPone e Faye Dunaway (que chegou a ensaiar o papel, mas foi demitida antes da estreia) geraram publicidade negativa. A produção era também cara demais para se manter. A versão original da Broadway fechou em 1997 com prejuízo estimado em 20 milhões de dólares — um dos maiores da história até então.

O filme que nunca aconteceu
Glenn Close desejava levar sua versão de Norma Desmond ao cinema. Durante anos, ela e Webber tentaram viabilizar uma adaptação, com roteiro de Tom MacRae e direção de Rob Ashford. O projeto chegou a ser anunciado pela Paramount por volta de 2017, mas nunca saiu do papel. Há rumores de que o fracasso de Cats nas bilheterias esfriou o entusiasmo do estúdio por adaptações teatrais de Webber.
O revival de 2016 e o renascimento atual
Em 2016, Close retornou ao papel em Londres, numa montagem sem cenário, onde a orquestra ocupava o palco. A produção foi transferida para a Broadway em 2017, com grande sucesso de bilheteria, apesar da crítica ainda dividir opiniões.
Mas o verdadeiro renascimento de Sunset Boulevard como musical veio com a montagem de Jamie Lloyd em 2023 no West End, protagonizada por Nicole Scherzinger. Conhecida como ex-Pussycat Doll, Scherzinger surpreendeu público e crítica com uma performance emocionalmente devastadora, repleta de nuances — distante do glamour caricatural das versões anteriores.

Esta montagem minimalista, escura e simbólica trouxe Norma para uma nova geração. Usando telas, câmeras ao vivo e estética noir digital, Lloyd repensou completamente a peça, transformando-a em uma meditação sobre identidade, imagem e isolamento. A produção arrebatou o Olivier Award de Melhor Revival, e Scherzinger venceu como Melhor Atriz em Musical.
Agora, em 2025, essa versão chegou à Broadway, com Scherzinger repetindo o papel e a promessa de, finalmente, fazer justiça à potência trágica do material original — sem exageros, sem ouro de mentirinha, apenas a carne crua de Norma Desmond. Saiu vitoriosa do Tony Awards como Melhor Atriz em Musical, uma vitória ultra merecida para ela — e para Norma.
Por que Sunset Boulevard ainda importa
Norma Desmond é mais do que um retrato da decadência: ela é um emblema de todos os que foram descartados por um sistema que adora com fúria e abandona com frieza. Seu rosto iluminado pela ilusão, seu olhar alucinado pela fama que já não existe, é o retrato cruel da celebridade. Mas também é o retrato de cada um que já sentiu que o mundo se moveu sem ele.

Do filme imortal de 1950 ao musical em constante mutação, Sunset Boulevard permanece atual porque a fome de ser visto, amado e lembrado nunca sai de moda. Enquanto houver alguém diante de uma câmera, haverá uma Norma à espreita, esperando sua próxima cena.
“E agora, Sr. DeMille, estou pronto para meu close.”
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