Clara Bow: a lenda de Hollywood que inspirou Babylon

Compartilho com o diretor Damien Chazelle a fissura pelos anos dourados de Hollywood, que cobrem as décadas de 1920 a 1940. Era o tempo no qual as estrelas viviam em seus palácios em Sunset Boulevard, e fora das telas, se permitiam exceços estratoféricos. O diretor de La La Land assina o já polêmico Babylon, no qual traz personagens inspirados em algumas das lendas do cinema. Brad Pitt é um John Gilbert e Margot Robbie rouba a cena como Nellie LaRoy, uma aspirante a atriz que mergulha freios nas drogas e festas da capital do cinema.

Nellie é abertamente inspirada em uma das maiores lendas de todos os tempos de Hollywood, Clara Bow, uma das estrelas da era do cinema mudo que ajudou a popularizar a imagem da melindrosa. A história de Clara é tão incrível rendeu vários livros e personagens (Betty Boop é uma cópia de seu look) e a mais famosa alusão antes de Babylon, embora injusta, foi a personagem Lina Lamont, de Cantando na Chuva, também “inspirada” na atriz. Tudo em Clara parece despertar controvérsias.

A começar sobre sua idade: na sua lápide diz ter nascido em 1906, mas há quem aposte 1904 e os especialistas alegam que foi 1905. Filha de emigrantes pobres, ela nasceu e cresceu em Nova York e teve uma infância dura, constantemente mudando de endereço. Tinha uma relação complicada com sua mãe, diagnosticada como psicótica depois de uma queda, Clara sempre disse que teve que ser mais mãe para ela do que filha. Pior, os embates eram tão violentos entre elas que houve até ameaça de morte com facas, com Clara escapando da morte or pouco. Em seguida, sua mãe foi internada em um sanatório.

Fica pior. Logo depois disso tudo, alguns biógrafos acusam o pai de Clara de a ter violentado. Ela tinha apenas 16 anos. Sua mãe morreu logo depois e a jovem ficou ainda mais isolada. Não é surpresa que ela tenha se projetado nos filmes que começavam a fazer sucesso e passado a sonhar com o cinema. Seu visual – meio masculinizado para época – não faziam dela uma candidata ideal, mas participou de um concurso de talentos em uma revista, conseguindo se destacar Era o atalho que precisava para ir para Califórnia.

Depois de fazer alguns filmes em Nova York, foi descoberta e levada para Hollywood, onde ascendeu e virou uma das atrizes favoritas do público, liderando as bilheterias e sendo adoarad por renomados diretores. Gostava de brincar com sua imagem, flertando com androginia e por que estrelou um filme chamado “It”, em 1927, com a trama inspirada em Cinderella e passou a ser conhecida como a “it girl”, um termo usado no cinema até hoje para classificar atrizes carismáticas e em demanda.

Com a chegada do cinema falado, Clara Bow foi uma das raras estrelas a fazer a transição sem abalar seu estrelato, mas ela também se ressentiu com “a perda de liberdade” que a fala trazia para sua Arte. Seu sotaque do Brooklyn não a atrapalhou com o público, mas é até hoje ressaltado em todas vezes que se referem à sua carreira (como em Cantando na Chuva)

Mas eram os bastidores que encurtariam sua trajetória. Seu estilo de vida boêmio era ainda mais conhecido do que outras estrelas. As pressões da fama, escândalos públicos e excesso de trabalho afetaram a frágil saúde emocional da atriz que teve um colapso, aos 25 anos, sendo internada em um sanatório. Quando foi liberada, trocou Hollywood por um rancho em Nevada, e se casou com Rex Bell. Recuperada, voltou a trabalhar, mas reconhecendo sua fama de “party girl”. “Minha vida em Hollywood continha muito alvoroço. Lamento muito por isso, mas não sinto muito. Eu nunca fiz nada para machucar ninguém”, disse na época. “Sou uma curiosidade em Hollywood. Uma grande aberração, porque sou eu mesma!”, também refletiu.

A atriz teve dois filhos com Rex Bell (mais tarde eleito vice-governador de Nevada) e se aposentou de vez em 1933. Ela e o marido abriram The ‘It’ Cafe, no Hollywood Plaza Hotel, mas o empreendimento durou poucos anos. Sua última apresentação pública foi em um programa de rádio, em 1947.

Talvez pela herança genética, não se sabe, mas Clara Bow eventualmente começou a apresentar sintomas de doença psiquiátrica, passando a lidar com depressão, isolamento e até tentativa de suicídio. Foi internada para ser tratada de insônia crônica e dores abdominais, com tratamento de choque e testes psicológicos. Foi diagnosticada com esquizofrenia, mas biógrafos defendem que nunca teve alucinações auditivas ou visuais. A atriz rejeitou o diagnóstico e quando deixou o hospital, não voltou para sua família, se isolando até sua morte, aos 60 anos, em 1965, por uma parada cardíaca.

Com 46 filmes mudos e 11 falados, foi a vida pessoal de Clara que ficou lendária. Sua intensidade e prazer com festas, drogas e bebidas sintetizavam a alegria e permissividade da era do jazz. Sua figura passou a ser o símbolo desse período de “loucura”. Inteligente, ela sabia o que o público identificava nela. “Todo o tempo em que a melindrosa está rindo e dançando, há uma sensação de tragédia por baixo”, disse ela uma vez. “Ela está infeliz e desiludida, e é isso que as pessoas sentem.”

Infelizmente, nem com Babylon sua memória é tratada com o respeito e distanciamento necessário. Será que um dia teremos uma versão cuidadosa sobre sua vida? Ela merece.

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