Com as gravações da terceira temporada de House of the Dragon em andamento, a tensão entre os fãs da série e os leitores de Fogo & Sangue continua a crescer. As alterações feitas pela produção da HBO MAX na narrativa original de George R.R. Martin têm gerado reações cada vez mais negativas, especialmente entre os que acompanham a Dança dos Dragões há anos. As mudanças não parecem estar diminuindo — pelo contrário, parecem se intensificar, e a justificativa da equipe criativa parece cada vez mais centrada na ideia de “preservar surpresas”, mesmo para quem já leu o livro.

Se for esse o caso, vale mesmo a pena? Porque livros são sucesso pelas histórias que já contam, não pelas cópias que usam seus elementos para inventar outra.
E até agora, HOTD mudou muita coisa:
1. Idade e amizade entre Rhaenyra e Alicent
No livro, Alicent é muito mais velha e nunca foi amiga de infância de Rhaenyra. A série transforma as duas em melhores amigas, criando uma tensão emocional que não existe no texto original.
A proposta era colocar duas mulheres no protagonismo, mesmo que em lados opostos. Não chega a ser ruim ou impossível, mas elimina algumas histórias sobre Alicent e o avô de Rhaenyra, além de colocá-la mais astuta por ser mais velha que a enteada.
2. Casamento de Alicent e Viserys com tom romântico
Fogo & Sangue retrata a união como arranjo político; na série, Alicent se casa com o rei de forma quase passiva e amorosa, mesmo que sem saber, manipulado por Otto Hightower.


3. A ausência de Maelor Targaryen
Filho mais novo de Helaena e Aegon II, crucial para eventos futuros, foi completamente ignorado na série — o que gera problemas de continuidade, especialmente na cena de Blood and Cheese. Pra mim, a pior e mais complexa alteração de todas.
4. Criston Cole matando Joffrey Lonmouth publicamente
No livro, Joffrey morre durante um torneio. Na série, Criston o assassina brutalmente num jantar pré-nupcial, o que cria estranheza diante da impunidade total do personagem.
5. Laenor Velaryon fugindo com Qarl Correy
Em vez de ser assassinado como no livro, Laenor simula a própria morte e foge — aliviando o peso moral de Rhaenyra e Daemon e alterando profundamente a linha de sucessão. Pra mim é ruim pois mais uma vez Rhaenyra estaria ciente de estar ameaçando sua posição de herdeira: com todos seus filhos sendo, efetivamente, ilegítimos (uma vez que não era viúva ou poderia se casar de novo).


6. Daemon matando sua esposa Rhea Royce
Nos livros, Rhea morre em um “acidente” ao cair do cavalo. A série opta por mostrar Daemon matando-a, reforçando o lado sombrio do personagem. Essa foi interessante.
7. Laena Velaryon pedindo para ser queimada por Vhagar
Em vez de morrer tentando voltar a voar, Laena escolhe uma “morte de dragão”, o que muda completamente sua agência e dramatiza a cena de maneira mais visual e impactante.
8. Vaemond Velaryon como irmão de Corlys
Nos livros, ele é sobrinho. A série o transforma em irmão, o que modifica dinâmicas familiares e o peso de sua reivindicação contra Rhaenyra.
9. Omissão de Daeron Targaryen
Daeron, quarto filho de Alicent e cavaleiro de dragão, tem papel importante na guerra, mas ainda não apareceu na série, gerando especulações e frustrações. Ele só vai aparecer na 3ª temporada, e tem uma cena sendo entregue ao tio, Daemon, em um encontro que jamais aconteceu nas páginas do livro.

10. Relação expandida entre Mysaria e Daemon
A série dá muito mais espaço e importância a Mysaria (inclusive politicamente), enquanto no livro ela é uma figura marginal. Porém deixa claro que ela era informante de Otto, portando as fofocas que aconteceram e afastaram Viserys e Daemon foram graças à ela.
11. A morte “acidental” de Lucerys Velaryon
No livro, Aemond mata Lucerys intencionalmente, marcando o início da guerra. A série reescreve como um acidente — o que divide fãs: suaviza Aemond, mas enfraquece a narrativa trágica.
12. O ataque de Blood & Cheese suavizado
No livro, há a escolha consciente de sacrificar Maelor. Na série, com a ausência do personagem, Jaehaerys é morto sem grandes ameaças como a do livro — diminuindo o peso da vingança de Rhaenyra e do trauma de Helaena.


13. Helaena como vítima passiva, sem agência
Nos livros, ela obedece ao pedido cruel. Na série, ela apenas assiste horrorizada e foge. Isso muda o impacto psicológico da personagem e sua posterior instabilidade. Ela também tem visões do futuro que jamais foram citadas no livro.
14. A reunião entre Alicent e Rhaenyra (que nunca ocorre no livro)
Na 2ª temporada, as duas se encontram e até demonstram algum pesar e empatia — o que não existe em Fogo & Sangue, onde não voltam a se ver após a coroação e sempre com profundo ódio entre elas.
15. Alicent e Criston Cole como amantes
Na série, Alicent Hightower e Criston Cole são retratados como amantes — uma mudança profunda em relação ao livro, onde a relação entre eles é estritamente política. Essa alteração impacta diretamente a dinâmica de poder dos Verdes, dando a entender que Criston também age por paixão ou lealdade pessoal, e não por convicção política. Também reduz a autonomia estratégica de Alicent, já que suas decisões parecem estar ligadas a um vínculo emocional com Cole, ao invés de apenas à proteção de seus filhos e à sua própria posição na corte. A mudança desperta críticas por enfraquecer a complexidade moral dos dois personagens, transformando uma aliança tensa e pragmática em uma história de desejo e dependência afetiva.


16. A ausência de Mushroom
Narrador alternativo e irreverente em Fogo & Sangue, Mushroom é ignorado na série, removendo nuances cômicas, irreverentes e até mais críticas à nobreza.
17. Aemond: mais ambíguo e trágico
Enquanto o livro pinta Aemond como cruel e impulsivo, a série o apresenta como mais introspectivo, estrategista, até arrependido — especialmente com Lucerys, que morreu porque Vhagar estava incontrolável

18.Mudança na personalidade de Viserys I – mais benevolente e apático do que no livro
Em Fogo & Sangue, o rei Viserys I é apresentado como um governante mais politicamente ativo, mesmo que pacificador. Já na série, ele é retratado como um homem enfraquecido, muito mais passivo, completamente dominado pela dor, doenças e sentimentos — o que torna sua negligência política quase total. Essa versão humanizada e emocional gerou empatia, mas também alterou o peso de suas decisões na crise sucessória.
19. A nova origem de Hugh Hammer (ligação com Viserys e Daemon?)
Na série, Hugh afirma ser parente próximo dos Targaryen — algo não confirmado nos livros, onde é apenas um bastardo comum com sangue valyriano.
20. Cenas vazadas da 3ª temporada: Daemon recebendo Daeron após derrotar Ormund Hightower?
No livro, Ormund Hightower morre de outra forma, e Daeron jamais é capturado. As imagens sugerem uma nova linha narrativa que não existe na obra, reconfigurando eventos e geografia política da guerra.


Posso tentar lembrar de mais alterações e a série parece reescrever mais elementos — muitos deles essenciais para o arco trágico da Dança dos Dragões. As justificativas giram em torno da ideia de “evitar spoilers para leitores” ou “ampliar complexidade emocional”, mas o risco crescente é o da descaracterização total do texto original.
A fidelidade ao livro já não parece prioridade. A questão que fica é: vale a pena recontar a história se ela se torna irreconhecível?
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