O Último Capítulo de Carrie Bradshaw

Freud diria que eu estaria projetando — e talvez esteja — quando passo ainda alguns minutos decifrando como falar que sinto como se, de alguma forma, Carrie Bradshaw tivesse sido punida pelas escolhas de sua vida. É como ler nas entrelinhas do roteiro um castigo silencioso. Não que considere que mereça, mas (aqui vai a projeção), é como se, ao passar dos 50 e estar a um passo dos 60, nem mesmo o fato de ser viúva a eximisse de ter que provar (para quem?) que ela vale menos por estar só. Ficou viúva e milionária, mas “velha” e “sozinha”. Sem surpresa, estamos tão tristes por não reencontrar aquela mulher cheia de vida que nos encantou por 25 anos. O episódio de menos de 30 minutos que antecede a grande final da história de Carrie foi só nostalgia, tristeza e questionamento.

And Just Like That se manteve, desde sua estreia, com essa nota de perda, vazio e dúvida pairando sobre todas as personagens, mas especialmente sobre Carrie, a única das quatro amigas que se casou, mas não teve filhos. Foi uma opção dela e de Mr. Big, nunca explorada porque, quando ainda tinha 40, a vida a dois estava apenas começando para eles, e Carrie queria festas, jantares e a liberdade de um marido-namorado, sem nada que quebrasse a química dos dois. Samantha, fora da jogada, nunca quis casar ou procriar; Charlotte sempre quis ter marido e filhas, conseguindo ambos; e Miranda, que não fazia questão, foi atropelada pela surpresa e teve marido, filho e, agora, namoradas. Vejam que rico — que material incrível rolava em Sex and the City — e que nem chegou a ser desenvolvido ao longo desses quatro anos.

Desde a estreia, com a morte inesperada de Big, mencionei que And Just Like That era sobre o luto, sobre recomeçar quando não se tem mais a energia ou a disposição para redescobrir outras pessoas. E mantenho minha visão, mas isso faz da série algo mais sombrio, e não era o que queriam. Como vemos neste episódio, Carrie está chateada com a ausência de Duncan; com o feedback de sua editora de que seu livro (que termina com a “mulher” viúva e sozinha em casa) é deprimente e não vai vender; incomodada com tantas pessoas questionando o fato de ela viver em um imóvel gigantesco… só para ela. Antes de embarcar nisso, I can’t help but wonder: por que ainda tem que seguir as fórmulas dos outros?

Carrie pergunta a mesma coisa, mas concorda com as críticas. Um dos momentos mais bonitos do filme Sex and the City, não lembro se 1 ou 2 — acho que foi o segundo — é quando ela e Big são veladamente julgados por não terem filhos, e era “it’s you and me, kid”. Só que, como sempre, ninguém pensa que isso viraria “it’s only you, kid” uma década depois. Nem o gatinho resolve o isolamento, porque Carrie nunca saiu do luto.

Por motivos pessoais que só ficam piores na ficção, a série eliminou Mr. Big de toda a narrativa, e essa é a peça que falta para entender que a alma de Carrie se foi com ele. A Carrie indomável dos anos 2000 só sabe olhar para trás: resgatou Aidan e uma história que nunca deu certo em 22 anos; mudou de casa por ele e, agora, sente falta daquele apartamento onde vivia confinada com seus fantasmas. A escolha da canção de Finneas, For Cryin’ Out Loud!, reforça a mensagem das missões não aprendidas por ela.

Sozinha, reescrevendo o último capítulo de sua história, Carrie tem que encontrar uma alternativa para agradar os leitores que querem um final mais inspirador. Será que consegue?

E, enquanto ela tenta, as histórias ao redor ecoam o mesmo dilema de aceitar ou não o que a vida oferece. Charlotte e Harry venceram o susto de saúde dele e, como sempre alinhados, vivem os dramas domésticos de todos. Mas algo ainda está à espreita: ao ver Rock vestida e arrumada como menina, percebemos que Charlotte está engolindo a escolha da filha, não exatamente a aceitando. Ela não quer que Rock seja diferente, mas o sonho que tinha para a menina era outro. No que isso vai dar?

Giuseppe, por sua vez, parece finalmente livre da mãe controladora. Ele pede Anthony em casamento, que aceita, mas agora, ainda traumatizado pela felicidade destruída com a separação de Stanford, sente medo. (Ele não cita o ex-marido, mas a gente sabe)

Lisa Todd, por outro lado, está irritada com a depressão de Herbert, que não se recupera de ter perdido a eleição. Insensível e autocentrada, acha que ele não precisa sofrer tanto, e a vemos flertando com seu editor, repetindo o padrão “Miranda”: a “culpa” de estar sendo quase cretina com o parceiro é dele. “Desde quando é sempre sobre eles?”, ela pergunta. E quando deixou de ser sobre ela? Não gosto dela — e ainda bem que vamos nos despedir semana que vem.

Seema e Adam seguem um namoro sem problemas, felizes e apaixonados. São eles que oferecem a esperança de um final feliz, e isso me deixa contente.

E Miranda-sem-noção continua ativa: sem autorização ou conhecimento de Brady, chama a futura mãe do filho dele para o Thanksgiving, e claro que ele tem um treco quando descobre. A briga dos dois, na frente de Joy, só faz a jornalista encontrar o segundo motivo para sair correndo desse relacionamento intenso, caótico e instável que se chama Miranda Hobbes.

Sim, isso tudo em menos de 30 minutos. Semana que vem teremos o fracasso do Thanksgiving de Miranda (com todo mundo tentando pular fora), Charlotte tentando encontrar um namorado para Carrie (e errando). Já disse o que acho que vai acontecer: Carrie não ama mais Nova York e, semana que vem, dará adeus de vez à cidade.

Talvez ela embarque para Londres, talvez para lugar nenhum. Mas o que importa é que, pela primeira vez em 25 anos, Carrie Bradshaw vai deixar de ser a mulher que conhecemos — e não sabemos quem estará esperando do outro lado da porta que ela vai fechar.


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