Há anos venho postando sobre o mesmo tema, que já era bizarro considerando que as duas estrelas envolvidas estavam casadas com outras, mas bastou estarem simultaneamente solteiras novamente para reacender uma velha obsessão em Hollywood e no fandom. Sim, há algo curioso — e profundamente revelador — no fato de, vinte e quatro anos depois, ainda estarmos falando sobre o divórcio de Tom Cruise e Nicole Kidman, um casamento que terminou em 2001, quando o mundo e o cinema eram outros. Mais do que nostalgia, o interesse tardio reflete uma mistura de machismo, fetiche pela destruição do mito e o fascínio pela raridade das histórias que resistem ao esquecimento.
Durante os dez anos em que estiveram casados, Tom e Nicole foram o casal-símbolo da Hollywood dos anos 1990 — belo, poderoso, inacessível. O casamento parecia uma superprodução contínua, vigiada e roteirizada. Quando desmoronou, o colapso virou um espetáculo paralelo, daqueles que a imprensa e o público não conseguem deixar de revisitar.
O problema é que, mesmo duas décadas e meia depois, quando ambos têm trajetórias sólidas e independentes, o discurso ainda prende Nicole Kidman ao nome do ex-marido, como se sua existência anterior e posterior orbitasse o mesmo sol.

A destruição do mito
O termo “destruição do mito” é mais do que uma expressão popular. É um reflexo do prazer quase sádico com que o público desmonta ideais.
Cruise e Kidman representavam o último casal de “conto de fadas” de Hollywood, e quando a ilusão se rompeu — com rumores de controle, religião e poder —, a narrativa virou um drama arquetípico: a mulher que escapou, o homem que manteve o império, a seita como vilã.
É natural que histórias simbólicas sobrevivam ao tempo. Mas é revelador que, enquanto Tom foi livre para seguir sua mitologia de astro inatingível, Nicole permaneça, de tempos em tempos, arrastada de volta para o papel de coadjuvante de uma história da qual já saiu há um quarto de século.

A assimetria do legado
Gostem ou não, Tom Cruise é uma das maiores lendas da história do cinema. Seu nome é sinônimo de espetáculo, risco e permanência. Ele sobreviveu às transformações da indústria, à era digital e à própria superexposição. Não tem Oscar (ainda), mas é maior do que isso: é um ícone estrutural, uma referência cultural.
Nicole, por outro lado, construiu uma das filmografias mais consistentes e prestigiadas de sua geração. É atriz de prêmios, de papéis arriscados, de reinvenção constante.
Mas, se Cruise habita o Olimpo do entretenimento, Kidman é humana — e é justamente isso que a torna fascinante. Ela trilhou o caminho do artista, não do mito. E ainda assim, décadas depois, é reduzida ao rótulo de “ex-mulher de Tom Cruise” quando seu nome surge em qualquer contexto público.
Esse desequilíbrio é machismo estrutural em ação, um reflexo de como as mulheres, mesmo no topo, raramente se libertam do espelho dos homens com quem se relacionaram.


A revanche disfarçada
Há também um componente revanchista nesse ressurgimento do interesse. Ao revisitar o divórcio, a cultura parece se vingar do mito — usar a mulher para ferir o homem. É paradoxal: quando o casal existia, diziam que era fachada; quando terminou, virou tragédia; e hoje, serve de combustível para reabrir feridas e teorias.
Mas a verdade é que Nicole Kidman nunca precisou de Tom Cruise para ser Nicole Kidman, e talvez seja justamente isso que incomoda. Sua ascensão posterior, o Oscar, os papéis complexos, a longevidade — tudo confirma que a separação foi, artisticamente, um renascimento. E nada é mais ameaçador para o mito masculino do que uma mulher que floresce após o fim.

Dias de Trovão: o símbolo da improbabilidade
Há anos venho escrevendo sobre o mesmo tema — que já era estranho, considerando que ambos se casaram novamente —, mas bastou estarem solteiros ao mesmo tempo para reacender uma velha obsessão. Parte dela vem da improbabilidade absoluta de Nicole Kidman voltar a se envolver com a continuação de Dias de Trovão, projeto que Cruise vem desenvolvendo lentamente, mas que segue em algum ponto da sua planilha de produções.
Foi naquele set que eles se conheceram, se apaixonaram e, em seguida, ele deixou sua primeira esposa por ela. No filme, Cole Trickle e a Dra. Claire terminam juntos — e, trinta anos depois, seria até plausível imaginá-los separados. Mas a simples menção da personagem, e a fantasia de que Kidman poderia fazer uma ponta, já bastam para incendiar redes sociais e manchetes.
Afinal, é quase inimaginável ver Cruise e Kidman dividindo uma tela novamente. Talvez seja justamente essa impossibilidade — e o desejo inconsciente de reviver o mito — que faz com que, vinte e quatro anos depois, ainda estejamos falando deles.
Até porque, ironicamente, os três filmes que fizeram juntos nunca foram grandes sucessos de público ou crítica. Na época, isso alimentava as teorias de que o casamento era uma farsa. Uma farsa que, se dependesse apenas da curiosidade atual, já poderia, enfim, ser deixada em paz.
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