Há 85 anos, Walt Disney ousou sonhar um filme que unisse o que parecia impossível: a abstração da música clássica e o encantamento da animação. Fantasia, lançado em 13 de novembro de 1940, foi mais do que um longa-metragem — foi uma experiência artística sem precedentes, um manifesto visual sobre como a arte pode transcender fronteiras. Concebido ainda em 1938, quando The Sorcerer’s Apprentice já estava em estágio avançado — um “Silly Symphony” luxuoso pensado como retorno triunfal de Mickey —, o projeto cresceu quando os custos do curta explodiram. Se seria caro, que fosse grandioso. Walt decidiu reunir oito segmentos animados a obras clássicas, com Leopold Stokowski à frente e Deems Taylor como mestre de cerimônias em live-action, enquanto a condução criativa do estúdio passava por Joe Grant e Dick Huemer, e a produção por Ben Sharpsteen.
A ambição não era só estética: era sonora. Gravada em múltiplos canais e reproduzida com o sistema pioneiro Fantasound (desenvolvido com a RCA), Fantasia tornou-se o primeiro longa comercial exibido em estéreo, prenúncio do surround. Walt queria que o público “ouvisse imagens e visse música”. Essa sinfonia desenhada estreou em roadshow — sessões de gala, com programa impresso, em 13 cidades — inaugurando a temporada no Broadway Theatre, em Nova York, no dia 13 de novembro de 1940. Foi a forma encontrada para apresentar algo que não se encaixava no circuito tradicional. A crítica aplaudiu, mas a realidade era dura: Segunda Guerra, custo altíssimo de produção e a despesa para instalar o Fantasound. O retorno financeiro não veio naquele momento. Ao longo das décadas, com reedições (algumas com cortes, outras com restaurações e mudanças de mixagem) e a redescoberta por novas gerações, a reputação se transformou. Hoje, a Biblioteca do Congresso preserva Fantasia no National Film Registry como cultural e esteticamente essencial; a AFI já a listou entre os maiores filmes americanos e, em animação, ela permanece no panteão.

Narrativamente, Fantasia abre com a orquestra em meia-luz e o próprio Deems Taylor apresentando a proposta: um concerto visual. A partir daí, a variedade é um manifesto de linguagem. Em “Toccata and Fugue in D Minor” (Bach), as formas abstratas tomam a tela; em “The Nutcracker Suite” (Tchaikovsky), fadas, flores, cogumelos e peixes dançam estações — uma coreografia de cor e textura; “The Sorcerer’s Apprentice” (Dukas) transforma Mickey no aprendiz que desperta forças que não domina; “The Rite of Spring” (Stravinsky) viaja da formação da Terra aos dinossauros; o intervalo abre espaço para brincar com a própria trilha sonora como personagem; “The Pastoral Symphony” (Beethoven) inventa uma Arcádia greco-romana de centauros e bacanais interrompidos por Zeus; “Dance of the Hours” (Ponchielli) vira balé cômico em quatro tempos; e, por fim, “Night on Bald Mountain” (Mussorgsky) encontra repouso em “Ave Maria” (Schubert), da orgia demoníaca ao cortejo de tochas — um crepúsculo que ainda arrepia.
Entre todos, há um trecho que, para mim, é a síntese do que Fantasia tem de mais humano e ousado: “Dança das Horas”. Ponchielli vira piada e reverência ao mesmo tempo — avestruzes (manhã), hipopótamos (tarde), elefantes (entardecer) e crocodilos (noite) dançam, flertam, trocam de lugar. O sublime e o ridículo se cruzam sem se anularem. A prima ballerina Hyacinth Hippo reina de tutu rosa; Ben Ali Gator é o galante réptil que a corteja; Madame Upanova puxa o prólogo com ares de diva. O clímax é uma valsa em colapso: lustres caem, cortinas rasgam, o palácio desaba… e nada é destruição — é catarse.
Essa graça nasce, literalmente, de um corpo. Marge Champion — a menina prodígio de Hollywood que estudou balé desde os três anos com o pai (professor de Shirley Temple e Cyd Charisse) — foi o modelo de referência para movimentos em três marcos Disney: Branca de Neve (1937), a Fada Azul de Pinóquio (1940) e, aqui, a hipopótamo bailarina. Aos 14, já filmava gestos e poses para os animadores; em Fantasia, repetiu passos de balé por horas, para que a equipe captasse peso, equilíbrio e elasticidade e os traduzisse em corpos “impossíveis”. A piada funciona porque o movimento é verdadeiro. Por trás do tutu, está a precisão de uma artista que dançava com leveza e humor. Marge viveu 101 anos (faleceu em 22 de outubro de 2020), dançou profissionalmente até os 82 e seguiu em aulas até os 90. Foi princesa, fada e hipopótamo — em todas, dançou.


Nos bastidores, Fantasia foi laboratório. A equipe experimentou multiplane de sete níveis, color-key quadro a quadro, filmou bailarinos reais (o estúdio mandou animadores assistirem temporadas do Ballet Russe de Monte Carlo), testou efeitos com neve em stop-motion, brincou com o limite entre figuração e abstração. Houve, claro, tensões artísticas (a colaboração com Oskar Fischinger em “Toccata and Fugue” não prosperou) e decisões difíceis (como a remoção, em reedições posteriores, de caricaturas racistas em “Pastoral”, ausentes das versões modernas). Houve também a mítica sequência final de “Ave Maria”, uma tomada contínua de centenas de pés de filme que exigiu refilmagens e uma invenção técnica para fazer a câmera “deslizar” por placas de vidro gigantes — o resultado ainda parece um milagre calmo.
A história de exibição de Fantasia conta, por si, a história do cinema: das primeiras 13 cidades com Fantasound às reedições em mono, estéreo simulado, depois a restauração de 1990 que recolocou a mix original de Stokowski e, nos anos 2000, os lançamentos que tentaram se aproximar do roadshow original. Entre idas e vindas, o filme virou franquia: ganhou concertos ao vivo, jogos, atrações nos parques e um diálogo tardio mas carinhoso com Fantasia 2000. Ajustado pela inflação, figura entre os grandes sucessos de bilheteria norte-americanos; mais importante que números, porém, é a permanência como referência: videoclipes, cinema experimental, espetáculos de dança e até a pedagogia musical seguem bebendo nessa fonte.
Rever Fantasia hoje é revisitar o coração da animação como linguagem. Lembrar que, em 1940, Walt acreditou que plateias topariam uma experiência sensorial e intelectual ao mesmo tempo. O otimismo pode ter parecido ingênuo, mas abriu caminho: dos musicais animados às narrativas sem diálogo, do som espacial ao design cromático como dramaturgia. E é curioso notar que, em meio a gêneses cósmicas e sabás demoníacos, o que mais ficou no imaginário popular é a leveza teimosa de um hipopótamo de tutu girando ao som de Ponchielli. Talvez porque ali esteja a metáfora perfeita do filme: a leveza como resistência; o riso como tradução da beleza; a arte como encontro entre erudito e popular.
Walt Disney sabia que Fantasia não era um filme comum — era uma ideia viva. “Fantasia é um conceito em si. Não posso fazer outra Fantasia. Posso melhorar, posso elaborar. Só isso”, dizia ele. E, de certa forma, estava certo. Era impossível repetir aquele milagre, mas o estúdio tentou — e, de cada tentativa, nasceu uma nova forma de celebrar o encontro entre música e imagem.
Nos anos 1980, muito antes da era dos remakes, surgiu o projeto “Musicana”, idealizado por Wolfgang Reitherman e Mel Shaw. Seria uma evolução natural de Fantasia, misturando jazz, música clássica, mitos e artes visuais. Haveria uma batalha entre um deus do gelo e uma deusa do sol, ao som de Sibelius; uma sequência ambientada nos Andes com canções de Yma Sumac; caricaturas animadas de Louis Armstrong e Ella Fitzgerald; e até uma adaptação de O Rouxinol e o Imperador, com Mickey como o dono do pássaro, à maneira do aprendiz de feiticeiro. O projeto, porém, foi engavetado — e o material sobreviveu apenas em livros e sketches, servindo de inspiração para obras posteriores.

Décadas depois, quem retomou o sonho foi Roy E. Disney, sobrinho de Walt, que produziu Fantasia 2000. Iniciado em 1990 e lançado em 1999, o filme trouxe sete novos segmentos (com a Orquestra Sinfônica de Chicago regida por James Levine) e manteve apenas “The Sorcerer’s Apprentice” do original — uma ponte direta entre as duas eras. Estreou em concerto no Carnegie Hall, em Nova York, e depois seguiu para uma turnê com orquestra ao vivo e exibição em salas IMAX. Era o século XXI se curvando ao espírito de 1940.
Houve ainda tentativas de uma terceira edição — “Fantasia 2006”, planejada no início dos anos 2000, que reuniria curtas como The Little Matchgirl (de Roger Allers), Lorenzo (de Mike Gabriel), One by One (de Pixote Hunt) e Destino, o projeto surrealista de Walt Disney e Salvador Dalí, finalmente completado em 2003. A ideia de um novo longa foi cancelada, mas esses curtas, lançados separadamente, provaram que o DNA de Fantasia seguia presente — experimental, musical, ousado.
O legado se expandiu para além do cinema. The Sorcerer’s Apprentice virou um blockbuster de ação em 2010, produzido por Jerry Bruckheimer. The Nutcracker Suite inspirou o épico visual The Nutcracker and the Four Realms (2018). E houve até tentativas (depois abandonadas) de adaptar Night on Bald Mountain como live-action. Mas talvez os desdobramentos mais fiéis ao espírito do original tenham acontecido em outras linguagens: o show “Fantasmic!”, nos parques da Disney, mistura música, projeções na água e pirotecnia para recriar a magia de Mickey como aprendiz; o Fantasia Gardens, campo de minigolfe em Orlando, transforma cada buraco em homenagem ao filme; e o chapéu do feiticeiro virou ícone de Hollywood Studios por quase quinze anos.
Nos videogames, o universo de Fantasia também floresceu. De títulos nostálgicos como Sorcerer’s Apprentice (Atari, 1983) ao jogo musical Fantasia: Music Evolved (Harmonix, 2014), passando pela série Kingdom Hearts, em que Yen Sid e Chernabog voltam a ser figuras centrais, a obra de 1940 continua a inspirar novas gerações de jogadores e criadores.
E como toda sinfonia, Fantasia também segue ecoando nos palcos. O concerto Disney Fantasia: Live in Concert — que combina projeções em alta definição com orquestras ao vivo — percorre o mundo há mais de uma década, levando a mesma emoção das telas para salas de concerto.
O tempo comprovou o que Walt pressentia: Fantasia não envelhece. É um organismo vivo, sempre reinventado. O filme continua a nos lembrar que música e imagem são linguagens irmãs — e que, quando unidas com coragem e imaginação, transcendem o próprio tempo. O maestro pode ter partido, mas a orquestra ainda toca. E, lá no fundo, Mickey ainda segura o balde d’água, sonhando que, por um instante, todos nós podemos comandar a magia.
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