Em O Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë não romantiza o amor, ela o expõe como uma força primal, quase violenta, que molda, destrói e condena. E Chains of Love, composta especialmente para o filme de Emerald Fennel traduz exatamente essa dimensão incendiária da relação entre Cathy Earnshaw e Heathcliff, um vínculo que nunca foi terno, mas inevitável; nunca foi gentil, mas absoluto.
A música fala de dor física para expressar sofrimento emocional: “I’d rather lay down in thorns / I’d rather drown in a stream / I’d rather light myself on fire” e isso poderia ser o próprio Heathcliff confessando a incapacidade de existir longe de Cathy. E vice-versa. Ele preferiria qualquer dor corporal a suportar o vazio sem ela. Em Brontë, ele diz: “Eu não posso viver sem minha vida, eu não posso viver sem minha alma.” A canção, ao seu modo, responde a essa mesma ferida.

As imagens de sufocamento na letra —“My face is turning blue / Can’t breathe without you here” —
são a perfeita tradução emocional do fogo frio que queima os dois protagonistas. Cathy também vive essa asfixia: ao escolher Edgar Linton, ela rompe com o único lugar onde respirava. É a ironia cruel da história: ela morre sufocada pelas próprias escolhas, e Heathcliff passa a vida inteira sufocado pela ausência dela.
Também pode ser o momento literal das mortes de Cathy e Heathcliff. Porém, como a dele não virá no filme se ficar apenas na primeira parte da história, como parece ser o caso, aqui é a morte de Cathy justamente porque não pode ficar com quem ama. Desculpem o spoiler!
Quando a letra diz: “The chains of love are cruel / I shouldn’t feel like a prisoner” é impossível não pensar no determinismo emocional que domina o romance. Cathy e Heathcliff não são apenas amantes; são reféns um do outro. Acorrentados desde a infância, eles confundem liberdade com destruição, desejo com possessão. O amor, para eles, nunca foi porto seguro: foi prisão, tempestade, fatalidade.

E talvez o verso mais Brontë de todos seja: “No matter how hard I try / I’m here so permanently”
porque ninguém consegue escapar de Wuthering Heights, nem vivos, nem mortos. O amor entre eles existe além do corpo, do tempo e da razão. Brontë jamais os libertou porque eles não sabem o que é existir separados.
“I know the chains of love won’t break” é quase um epílogo não escrito do livro. É o lamento eterno de dois fantasmas que continuaram a caminhar pela charneca porque o amor deles não se rompeu — nem com a morte.
Comparação com “Wuthering Heights”, de Kate Bush
Se Chains of Love traduz o lado interno, febril e autodestrutivo da paixão entre Cathy e Heathcliff, Wuthering Heights, de Kate Bush, revela o lado espectral, mítico e arrebatado do romance como se fossem duas faces da mesma tempestade emocional. Seria justamente a continuação da canção de Charli XIX.
Enquanto Chains of Love é o grito preso na garganta de um amor que sufoca, Kate Bush canta da perspectiva do fantasma de Cathy, já liberta do corpo, mas ainda acorrentada ao mundo que abandonou. E atormentando o sofrido Heathcliff.
“Let me in at your window” é o pedido de quem morreu, mas não conseguiu partir. É o eco da mesma voz que, na canção anterior, dizia “I can’t breathe without you here”. Em Bush, Cathy já não respira, mas continua batendo à janela porque Heathcliff é o ar que ela jamais teve em vida. É um momento crucial do livro e o que encerra o filme de 1939 (e a versão de 1970, que inspirou Kate Bush).

As duas músicas dialogam nas imagens de dor e transcendência. Em Chains of Love, o eu lírico aceita espinhos, fogo, sangue: é o martírio vivo. Em Wuthering Heights, a dor vira assombração, um lamento etéreo que se desfaz no vento: “It’s me, Cathy, come home. I’m so cold.”
A frieza que, em Chains of Love, sufoca (“my face is turning blue”), em Kate Bush é literalmente a condição pós-morte de Cathy vagando pela charneca.
Ambas tocam no tema central de Brontë: o amor que não se rompe. Em Bush, é o retorno eterno de Cathy, que não aceita separação. Em Chains of Love, o eu lírico declara: “I know the chains of love won’t break.”
As duas músicas são irmãs, não por falarem de amor romântico, mas por falarem de amor fatal.
Kate Bush mitifica a dimensão gótica e sobrenatural. Charli XCX mergulha no visceral, no íntimo, no contemporâneo.
Uma é vento. A outra é carne. E ambas são Emily Brontë traduzida em música.
Quem é Charli XCX e por que importa que ela tenha assinado a música original do filme de Emerald Fennell
Trazer Charli XCX para essa linhagem não é apenas contemporâneo: é profundamente simbólico.
Charli é uma das artistas mais influentes do pop atual, transitando entre o mainstream e o experimental, transformando o hiperpop em linguagem emocional, visceral e futurista. Sua obra mistura vulnerabilidade e ferocidade, doçura e distorção. Ela é, nos anos 2020, o que Kate Bush foi nos anos 1970: uma mulher que expande o que a música pop pode ser. Charli XCX não imita — ela reinventa.
Por isso faz tanto sentido que Emerald Fennell tenha pedido a ela uma canção original para Wuthering Heights. Assim como Kate Bush reescreveu Cathy em sua linguagem etérea e teatral, Charli agora reinterpreta o romance através da estética emocional do século 21.


Kate Bush abriu a porta para que mulheres transformassem a literatura gótica em arte pop.
Charli XCX atravessa essa porta e a empurra ainda mais. Porque se Kate transformou Cathy em fantasma, Charli a transforma em ferida viva e uma tradução perfeita para a abordagem sensorial, psicosexual e radical que Fennell imprime ao filme.
Ao assinar a música original, Charli XCX se junta a uma linhagem poderosa de mulheres que transformaram dor em arte:
- Emily Brontë, que escreveu a anatomia da paixão destrutiva.
- Kate Bush, que mitificou essa paixão na música.
- Charli XCX, que agora a reinventa na linguagem emocional do pop contemporâneo.
Ela não está apenas ilustrando o filme, está dialogando com quase dois séculos de criação feminina fundamentada em desejo, dor e transcendência.
E “Chains of Love” nasce disso: um mergulho visceral na incapacidade de romper um amor que sufoca — ecoando Brontë, conversando com Bush e encontrando sua própria forma moderna, pulsante, íntima.
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