Antes mesmo de o cinema aprender a falar, a Alemanha de 1927 lançou um filme que ousou imaginar o mundo em 2026. Chegar a esse ano transforma Metrópolis em algo mais do que um clássico: ele vira um teste de realidade. Não porque tenha acertado detalhes tecnológicos, mas porque entendeu cedo demais como o futuro se organizaria social, econômica e psicologicamente.
Dirigido por Fritz Lang e adaptado de um romance de Thea Gabriele von Harbou, Metrópolis é frequentemente citado como a primeira grande representação de Inteligência Artificial do cinema. Mas esse rótulo, embora correto, é pequeno diante do que o filme realmente faz. Ele não imagina máquinas: imagina o uso político da tecnologia. E é aí que, cem anos depois, o desconforto começa.

Na ficção, Metrópolis é uma cidade vertical. No topo, a elite vive cercada por luz, lazer e jardins suspensos. No subsolo, trabalhadores operam máquinas gigantescas, repetindo movimentos mecânicos até a exaustão. Em 2026 — o real, não o da ficção — não vivemos literalmente em uma cidade única nem descemos fisicamente ao subsolo para trabalhar. Mas a divisão existe, e talvez seja ainda mais eficiente. O “embaixo” de hoje é social, econômico e digital. Ele não se vê com facilidade, mas sustenta tudo.
O filme imaginou o trabalho como uma extensão da máquina. Em 2026, isso se confirmou de forma menos literal e mais cruel. O trabalhador não é mais esmagado por engrenagens colossais; é absorvido por sistemas abstratos. Algoritmos definem produtividade, visibilidade, relevância e até permanência. A exaustão deixou de ser apenas física e passou a ser mental, contínua, sem horário de desligamento. Nesse ponto, Metrópolis acertou o diagnóstico, só errou a estética.
Outro acerto perturbador está na comunicação. O filme mostra Joh Fredersen controlando a cidade a partir de um escritório repleto de telas, botões e indicadores, conversando por vídeo com seus subordinados. Em 1927, isso era pura imaginação. Em 2026, é banal. Não apenas fazemos reuniões por vídeo: tomamos decisões que afetam milhões de pessoas a partir de painéis digitais, dashboards e centros de comando que condensam realidades inteiras em dados. O poder, como Lang intuiu, tornou-se remoto, técnico e profundamente despersonalizado.


Mas o ponto mais assustador da comparação entre ficção e realidade está na figura da Inteligência Artificial. Em Metrópolis, o andróide HEL — o Maschinenmensch — é criado para manipular, confundir e incitar o caos. Ela não governa pela força, mas pela aparência de legitimidade. Tem rosto humano, discurso sedutor e capacidade de mobilizar emoções. Em 2026, não temos robôs humanoides liderando revoluções, mas temos deepfakes, vozes sintéticas, avatares e narrativas automatizadas capazes de produzir pânico, idolatria ou ódio em escala global. O método é o mesmo. Só a interface mudou.
Há, porém, uma ironia que só se revela plenamente em 2026. Em Metrópolis, a máquina não nasce como ferramenta dócil do poder: ela se torna um elemento desestabilizador, algo que ameaça incendiar o próprio sistema que a criou. A realidade seguiu outro caminho. A tecnologia raramente escapa do controle das elites; quando parece perigosa, é rapidamente absorvida, regulada, monetizada. O medo de Lang era o descontrole. O nosso é a eficiência.
O filme “erra” ao sugerir que o conflito poderia ser resolvido por conciliação moral — a famosa ideia de que “o mediador entre o cérebro e as mãos deve ser o coração”. Em 2026, o poder não está mais concentrado em uma figura visível que possa ser convencida ou humanizada. Ele se diluiu em sistemas, plataformas, investidores invisíveis e decisões automatizadas. O conflito deixou de ser direto e se tornou difuso, informacional, cultural. Nesse aspecto, a realidade se mostrou mais complexa — e mais difícil de enfrentar — do que a ficção imaginava.

Metrópolis também apostou em uma hiperindustrialização física que não se confirmou. As fábricas monumentais deram lugar a escritórios minimalistas, trabalho remoto e automação silenciosa. Mas o erro é superficial. O que o filme realmente previa era a substituição progressiva do humano como centro do sistema, e isso aconteceu. Hoje, pessoas não desaparecem sob máquinas; desaparecem sob métricas.
Lang imaginou um futuro em que a tecnologia ainda exigiria trabalho manual pesado, quase brutal. Isso não se confirmou literalmente, mas o espírito permanece. Em 2026, a automação promete libertar enquanto reorganiza o trabalho em camadas ainda mais precárias. A inteligência artificial não elimina o esforço humano: ela o desloca, o fragmenta e o torna menos visível. A engrenagem continua girando, apenas trocou de forma.
Talvez o maior acerto de Metrópolis tenha sido compreender que a tecnologia nunca é neutra. Ela reflete o medo, o desejo de controle e as obsessões de quem a cria. HEL não é vilã por ser uma máquina, mas por ser o espelho de um inventor movido por ressentimento e poder. Em 2026, seguimos cometendo o mesmo erro: discutimos Inteligência Artificial como se ela existisse isolada da política, da economia e das desigualdades humanas. Lang e Thea já sabiam que isso era uma ilusão.

Chegar a 2026 não torna Metrópolis um filme “datado que acertou algumas coisas”. Torna-o um filme que entendeu o futuro melhor do que gostaríamos. Ele não previa gadgets. Previa estruturas. Não adivinhou formas, mas captou lógicas. E talvez por isso continue tão atual: porque o futuro que ele temia não chegou com o barulho de máquinas gigantes, mas com interfaces limpas, decisões automáticas e um controle tão eficiente que muitas vezes parece invisível.
Rever o filme hoje não é um exercício de nostalgia. É um espelho. E, como todo bom espelho, ele não mostra tecnologias. Mostra escolhas. E se há algo que Metrópolis realmente não conseguiu antecipar foi o grau de resistência das elites a qualquer reequilíbrio real. O filme aposta que o confronto extremo poderia produzir empatia, que a proximidade do colapso despertaria consciência. Um século depois, essa talvez seja sua fantasia mais ingênua. Robôs, cidades verticais e controle tecnológico parecem plausíveis. Já a ideia de que o abismo econômico possa ser reduzido sem conflito político — apenas por boa vontade — soa hoje mais distante do que em 1927.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
