Há mais prêmios do que plataformas hoje em dia, ou pelo menos é o que parece. Não é por acaso que o Oscar, ainda o mais prestigiado de todos, vem perdendo audiência e sendo chamado de previsível: de hoje, 4 de janeiro, até 15 de março, quando a Academia anuncia os melhores do ano, veremos os mesmos famosos e os mesmos indicados circulando por todas as festas. Não há muito espaço para surpresa assim. Temos que concordar.
E quem abre oficialmente a temporada são os escolhidos pela Associação dos Críticos, que já sugerem os favoritos para as próximas etapas da corrida. Aqui, o mais importante não é apenas quem foi indicado, mas o que essas indicações estão dizendo sobre a narrativa do ano. A 31ª edição do Critics Choice Awards marca exatamente esse ponto de virada: o momento em que a temporada deixa de ser hipótese e passa a ser estratégia.

Dividido entre Cinema e TV/Streaming, e também entre Drama e Comédia, o prêmio já deixa claro onde a disputa realmente está concentrada.
No cinema, a mensagem é direta e nada tímida. Sinners lidera com 17 indicações, se consolidando como o filme mais abraçado pela crítica até agora. Não se trata de entusiasmo pontual, mas de força distribuída. O Critics Choice costuma premiar momentum, e Sinners emerge como o título que, neste momento, todos precisam derrotar.
Logo atrás vem One Battle After Another, com 14 indicações, confirmando algo que já vinha se desenhando desde suas primeiras exibições: é um filme construído para uma temporada longa. Ele não depende de uma única categoria nem de um desempenho isolado. Está presente em direção, atuação, roteiro, trilha, um candidato que avança por consistência e controle. Se Sinners é impacto emocional e urgência, One Battle After Another é cálculo, solidez e desenho industrial de campanha.
O segundo pelotão revela um gosto crítico bastante específico, voltado aos dramas mais clássicos. Hamnet e Frankenstein, ambos com 11 indicações, representam o apreço por adaptações literárias ambiciosas, densas e carregadas de prestígio. São filmes que talvez não dominem a temporada, mas dificilmente desaparecerão dela. Mesmo que não pareçam favoritos a Melhor Filme, estão longe de serem coadjuvantes decorativos.


A própria lista de Melhor Filme ajuda a entender o espírito da corrida: grandes produções, como Wicked: For Good e Marty Supreme; dramas literários, como Hamnet e Train Dreams; apostas autorais, como Bugonia e Sentimental Value. Ainda assim, a disputa real está concentrada em Sinners e One Battle After Another. Um movido por urgência cultural, o outro por domínio formal.
As categorias de atuação reforçam essa leitura. Timothée Chalamet, em Marty Supreme, e Leonardo DiCaprio, em One Battle After Another, simbolizam estilos distintos de performance de prestígio, enquanto Michael B. Jordan, em Sinners, surfa claramente na força coletiva do filme. Já a indicação de Wagner Moura, em The Secret Agent, chama atenção por outro motivo: a crítica está valorizando performances com peso político e moral, não apenas transformação ou exibicionismo. Como brasileira, já sei em quem votaria.
Entre as atrizes, o cenário está mais aberto, e isso torna a categoria ainda mais interessante. Emma Stone, em Bugonia, segue como nome forte entre os críticos, mas Renate Reinsve, em Sentimental Value, e Amanda Seyfried, em The Testament of Ann Lee, indicam uma possível inclinação para atuações mais contidas, internas, menos de vitrine. Aqui, nada está decidido. Meu palpite desde sempre é que veremos Jessie Buckley levar tudo por Hamnet. Além de uma grande atuação, talvez ainda seja cedo para dar a Emma Stone seu terceiro Oscar. Ou não?

Direção, por outro lado, já desenha um eixo claro. Paul Thomas Anderson, em One Battle After Another, e Ryan Coogler, em Sinners, aparecem como polos opostos e centrais da corrida: um associado ao rigor formal e à autoria clássica, o outro à urgência cultural e à potência política. As indicações do Critics Choice deixam claro que este não é um ano de menções honrosas para nenhum dos dois. É confronto direto. Anderson leva vantagem porque a política vem ganhando força em uma Hollywood liberal, e seu filme dialoga diretamente com os medos contemporâneos dos americanos.
Na televisão, a crítica também fala com precisão. Adolescence, líder com seis indicações, é exatamente o tipo de série limitada que o Critics Choice costuma abraçar: tema contemporâneo, intensidade dramática e performances centrais fortes. Já ganhou tudo até aqui, e não deve ser diferente, mesmo que hoje pareça distante. A série estreou em janeiro de 2025, o que explica sua presença nesta temporada.
Nobody Wants This e All Her Fault vêm logo atrás, e a produção da Peacock+, no Brasil disponível no Amazon Prime Video, confirma a preferência por narrativas emocionalmente densas. A presença consistente de Severance, The Diplomat, Hacks e The Pitt reforça um padrão: a crítica segue premiando constância, ambição de longo prazo e identidade clara. Qual deve ganhar? The Pitt.


No fim das contas, essas indicações revelam menos surpresa e mais alinhamento. O Critics Choice raramente descobre algo novo. Ele confirma movimentos. E, em 2026, o movimento é claro: uma temporada marcada por escala, seriedade e obras que querem dizer algo, não apenas agradar.
Daqui em diante, cada prêmio de guilda vai afinar esse desenho. Mas uma coisa já está posta: o caminho até o Oscar passa, inevitavelmente, por Sinners e One Battle After Another. O resto da temporada corre atrás deles.
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