Estamos oficialmente na temporada de prêmios, e isso muda tudo. Não apenas a maneira como os filmes são vistos, mas a forma como são lidos, posicionados e hierarquizados. A partir deste ponto do ano, deixa de ser uma questão de gosto pessoal ou impacto imediato. Passa a ser uma análise de cenário, de viabilidade institucional, de quais obras conseguem sustentar uma campanha longa e atravessar meses de exibições, votações, debates críticos e disputas simbólicas sem perder força. É nesse contexto, e apenas nele, que faz sentido perguntar se os dois grandes filmes do ano são Sinners e One Battle After Another.
Pela régua das indicações, a resposta é afirmativa, mas não simplista. Eles não são grandes do mesmo modo, não falam com o mesmo eleitor e não ocupam o mesmo lugar no imaginário da temporada. Ao contrário: eles se fortalecem justamente porque representam polos distintos de um mesmo momento histórico, político e cultural.

One Battle After Another se impõe como um filme brutalmente atual porque dialoga de maneira quase direta com o clima de ansiedade que atravessa os Estados Unidos hoje, especialmente entre os setores liberais concentrados em Hollywood, nas universidades e nos grandes centros urbanos. Ele trabalha com a ideia de repetição histórica, de conflitos que nunca se encerram de fato, de batalhas que retornam sob novas formas, e isso conversa frontalmente com um país que vive a normalização da violência política, o esgarçamento institucional e a sensação difusa de que a democracia é mais frágil do que se acreditava.
O filme não apenas reflete esse medo como o organiza narrativamente. Ele transforma em drama aquilo que, para muitos americanos, já deixou de ser abstração. Ao mesmo tempo, incomoda porque não oferece um conforto ideológico fácil. Não reduz o “outro lado” a uma caricatura simples, mas expõe como ressentimento, medo e sensação de perda de status se tornam forças políticas reais. Para o público liberal, funciona como alerta; para outros setores, soa como acusação, provocação ou ameaça. Essa ambiguidade é parte central de sua força. O filme entende que qualquer narrativa sobre o presente americano nasce rachada e aceita esse risco.
É exatamente por isso que One Battle After Another cresce tanto na lógica das premiações. Ele oferece à indústria um espelho reconhecível, uma forma de elaborar seus próprios medos sem abrir mão de uma linguagem clássica de “grande cinema”. Mesmo quem não se apaixona pelo filme tende a respeitá-lo, e respeito institucional pesa muito no voto preferencial. Ele surge, assim, não apenas como presença garantida entre os indicados, mas como um candidato real à vitória, aquele título que organiza o consenso e permite que a temporada se resolva.
Sinners opera em outro registro, mais silencioso e talvez mais perturbador. Politicamente, ele não fala da crise visível das instituições, mas da crise subterrânea que a antecede. É um filme sobre culpa, desejo, hipocrisia e poder, temas que atravessam o Estados Unidos contemporâneo num momento em que discursos públicos se tornaram cada vez mais performáticos. Ele olha para uma sociedade obcecada em se declarar moralmente correta, enquanto reprime, desloca ou terceiriza seus próprios impulsos.

A política de Sinners está menos na superfície e mais na metáfora. Ele dialoga com uma cultura de vigilância moral, de punição simbólica, de exposição pública travestida de justiça. É um filme sobre como a culpa vira espetáculo e o desejo se torna algo a ser negado ou instrumentalizado. Nesse sentido, ele conversa tanto com o avanço do conservadorismo religioso quanto com certos excessos de um progressismo que transforma moral em performance. Não há campo seguro de identificação. O espectador é colocado diante de sua própria ambiguidade.
Isso explica por que Sinners é tão divisivo e, ao mesmo tempo, tão inevitável na temporada. Ele gera textos longos, debates qualificados, leituras conflitantes. Ignorá-lo seria sinalizar desconexão com o presente. Por isso, ele aparece como presença quase obrigatória em Melhor Filme, Direção, Roteiro e atuações, ainda que sua trajetória seja mais forte em indicações do que em vitórias. Ele divide votos, provoca resistências, mas marca o ano de forma profunda. Historicamente, esses são os filmes que permanecem.
O mais interessante é que essa configuração não é exceção, mas um padrão clássico da história das premiações. Há anos em que um filme define a conversa e outro define o resultado. Um provoca, tensiona, incomoda; o outro organiza, pacifica, resolve. Nesta temporada, tudo indica que Sinners e One Battle After Another cumprem exatamente esses papéis.
Vista por essa lente, a pergunta deixa de ser se eles são “os melhores” e passa a ser se são os mais representativos do momento que o cinema americano — e o mundo — atravessam agora. Pela régua das indicações, pela leitura política que sustentam e pela forma como dialogam com medos, contradições e impasses contemporâneos, é difícil negar que sim. Eles não apenas dominam a temporada de prêmios. Eles ajudam a explicá-la.
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