Stranger Things reviveu Running Up That Hill de forma quase mítica, transformando Kate Bush em trilha sonora de uma geração que não a viveu nos anos 1980. Também resgatou em seus trailers, ao longo dos anos, bandas como Journey e Deep Purple, assim como deu destaque para Dio e Metallica, mas foi com Heroes, de David Bowie, nos créditos finais — emulando visualmente a solenidade épica de O Senhor dos Anéis de Peter Jackson — que a série se despediu, por ora, de seus fãs. A escolha não é apenas estética ou nostálgica.
Heroes não é uma música sobre vencer monstros, derrotar vilões ou salvar o mundo. É, paradoxalmente, uma canção sobre o heroísmo mínimo, íntimo, quase invisível. Sobre duas pessoas que, por um instante, ousam ser mais fortes do que a realidade que as cerca. Em um mundo saturado de discursos grandiosos e promessas épicas, talvez seja exatamente por isso que ela ressoe hoje com tanta força.



A canção foi escrita em 1977, durante o período em que Bowie vivia em Berlim Ocidental, imerso no que viria a ser conhecido como sua “trilogia berlinense” — Low, “Heroes” e Lodger — ao lado de Brian Eno e do produtor Tony Visconti. A cidade não era apenas cenário: era conceito. Dividida por um muro, carregada de tensão política, ideológica e emocional, Berlim oferecia a Bowie algo que ele buscava naquele momento da vida: distância do caos de Los Angeles, onde o vício em cocaína e o isolamento criativo quase o destruíram, e uma paisagem urbana que refletia sua própria fragmentação interna.
A história por trás da canção é conhecida, mas nunca banal. Bowie escreveu Heroes inspirado em um episódio real: ao observar pela janela do estúdio Hansa, localizado a poucos metros do Muro de Berlim, ele viu Tony Visconti beijando uma mulher junto à barreira que separava o Oriente do Ocidente. A mulher era Antonia Maass, backing vocal do álbum e, à época, envolvida com Visconti apesar de ambos terem outros relacionamentos. O gesto, simples e arriscado, transformou-se no núcleo emocional da música. Não se tratava de amantes desafiando apenas uma circunstância pessoal, mas de um ato de intimidade em um dos espaços mais vigiados e simbólicos do planeta.
Musicalmente, Heroes também nasce de um experimento. Brian Eno construiu a paisagem sonora com sintetizadores e tratamentos eletrônicos que expandiam a ambição do rock para além de sua forma tradicional. Visconti criou um sistema de microfones posicionados a diferentes distâncias da voz de Bowie, que se abriam progressivamente conforme ele cantava mais alto, captando não apenas a performance, mas a própria arquitetura do estúdio. O resultado é uma interpretação que cresce em intensidade, como se a canção literalmente ganhasse espaço físico à medida que Bowie se aproxima do clímax. É técnica a serviço da emoção, engenharia de som transformada em dramaturgia.
A letra, por sua vez, é deliberadamente simples. “We can be heroes, just for one day.” Não há promessa de eternidade, glória ou redenção total. Há apenas um instante. Um dia. Um gesto. Bowie nunca romantiza a vitória definitiva; ele oferece resistência temporária. E é exatamente essa recusa do heroísmo grandioso que torna a música tão poderosa. Em um mundo de muros — físicos, políticos, afetivos —, ser herói por um dia já é um ato de coragem.

Quando lançada, Heroes não foi um sucesso imediato nas paradas. Alcançou posições modestas no Reino Unido e passou quase despercebida nos Estados Unidos. A crítica, entretanto, reconheceu desde cedo sua singularidade, e a música começou a construir sua reputação não pelo consumo rápido, mas pela sedimentação cultural. Com o tempo, tornou-se uma das faixas mais emblemáticas da carreira de Bowie, ao lado de “Space Oddity”, “Life on Mars?”, “Let’s Dance” e “Changes”, um quinteto que hoje define, para o grande público, o coração de seu legado.
O percurso de Heroes ao longo das décadas é revelador. Ela foi regravada por artistas de universos completamente distintos: U2 a transformou em hino de arena; Peter Gabriel a reinterpretou de forma introspectiva; Depeche Mode a incorporou ao imaginário eletrônico; Motörhead a levou para o território do hard rock; Oasis a usou como referência emocional em shows e entrevistas. Cada versão revela uma faceta diferente da mesma ideia: a canção é elástica, mas nunca perde seu centro. Ela não pertence a um gênero específico. Pertence a um sentimento.
No cinema e na televisão, Heroes acumulou aparições que reforçam seu estatuto de clássico. Está em Christiane F. (1981), filme que cristalizou a Berlim pós-punk e a juventude perdida da época; em The Perks of Being a Wallflower (As Vantagens de Ser Invisível), como trilha de um momento de libertação juvenil; em Moulin Rouge!; em Requiem for a Dream; em comerciais, cerimônias, funerais de Estado e eventos esportivos. Em 2012, abriu a cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Londres como síntese emocional de uma identidade cultural britânica moderna: vulnerável, criativa, resistente.
Nada disso, porém, explica sozinho por que Heroes ressoa tanto agora. Talvez porque vivamos novamente em um mundo de muros, não apenas geopolíticos, mas simbólicos: polarização, guerras culturais, ansiedade coletiva, isolamento tecnológico. Talvez porque, em tempos de exaustão moral e descrença nas grandes narrativas, a ideia de um heroísmo possível, ainda que breve, soe mais honesta do que qualquer promessa de redenção total. Heroes não diz que o amor vence tudo. Diz que ele pode, por um instante, desafiar o impossível. E isso, para quem vive em 2026, não é pouco.


É nesse ponto que a escolha de Stranger Things ganha densidade simbólica. A série, que sempre se alimentou da mitologia pop dos anos 1980, poderia ter encerrado seu arco com uma música de triunfo. Optou por uma canção de melancolia ativa, de esperança sem ingenuidade. Ao usar Heroes, por sugestão do ator Joe Keery (Steve Harrington), a série parece dizer: não vencemos porque somos invencíveis; vencemos porque, apesar de tudo, escolhemos ficar.
Em 8 de janeiro de 2026, Heroes completa 49 anos de seu lançamento. Dois dias depois, em 10 de janeiro, completam-se dez anos da morte de David Bowie. A coincidência de datas não é apenas cronológica; é simbólica. Bowie construiu uma carreira inteira baseada na transformação, na recusa de identidades fixas, na coragem de se reinventar quando o mundo parecia exigir conformismo. Heroes condensa essa filosofia em quatro minutos: a arte como gesto de resistência, o amor como ato político, a vulnerabilidade como forma de força.
Hoje, ao lado de “Space Oddity”, “Life on Mars?”, “Let’s Dance” e “Changes”, “Heroes” é uma das cinco canções mais conhecidas e emblemáticas de Bowie. Mas talvez seja mais do que isso. Talvez seja a que melhor explica por que sua obra continua viva, regravada, ressignificada, reapropriada por novas gerações. Porque, em um tempo em que ser herói parece exigir façanhas impossíveis, Bowie nos lembra que, às vezes, tudo o que temos é um dia. Um gesto. Um beijo à beira de um muro. E, ainda assim, isso basta para mudar tudo.
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