Depois de um ano de especulação, há duas formas de ler a saída de Kathleen Kennedy da presidência da Lucasfilm. A mais imediata, factual, quase burocrática: depois de 14 anos no comando do estúdio de Star Wars, ela deixa o cargo e passa a atuar como produtora em tempo integral. A outra — a que realmente importa — é como o encerramento de um ciclo histórico, marcado por ambição, reinvenção, conflitos e por uma pergunta que atravessou toda a sua gestão: o que significa conduzir um mito cultural no século 21?
Kennedy nunca foi apenas “a executiva que cuidou do reboot”. Ela chegou à Lucasfilm em 2012, escolhida pessoalmente por George Lucas, com um currículo que a colocava entre as produtoras mais importantes da história de Hollywood. Antes de Star Wars, havia Amblin, Spielberg, E.T., Jurassic Park, De Volta para o Futuro, A Lista de Schindler. Uma carreira moldada na interseção entre cinema popular e ambição artística, entre indústria e risco criativo. Era esse olhar que ela trazia para uma franquia que, naquele momento, precisava reaprender a existir.

O primeiro movimento foi avassalador. The Force Awakens não apenas ressuscitou Star Wars: reposicionou a saga no centro da cultura pop contemporânea, apresentou novos rostos, quebrou recordes e provou que o universo criado por Lucas ainda tinha fôlego para uma nova geração. Vieram Rogue One, com sua aposta em um tom mais sombrio, e a construção de um ecossistema maior, que deixou de depender exclusivamente dos cinemas. The Mandalorian fez da televisão um novo território de prestígio para a franquia, enquanto Andor mostrou que Star Wars podia ser político, adulto, denso, sem perder identidade.
Mas a gestão de Kennedy jamais foi simples ou consensual. Ao mesmo tempo em que conduziu alguns dos maiores sucessos da história recente da saga, ela também esteve à frente de seus momentos mais contestados. Solo: A Star Wars Story tornou-se o primeiro grande fracasso de bilheteria da franquia. A trilogia sequencial revelou tensões de visão criativa, mudanças de rumo e um terceiro filme que tentou costurar expectativas incompatíveis de público, estúdio e narrativa. Projetos foram anunciados e engavetados, diretores entraram e saíram, e a sensação de instabilidade passou a acompanhar a Lucasfilm nos bastidores.

Ainda assim, reduzir esse período a “acertos e erros” é perder de vista o essencial. O que Kennedy realmente fez foi transformar Star Wars de uma saga cinematográfica em um universo expandido de histórias, formatos e vozes. Ela abriu espaço para protagonistas femininas, para personagens de origens diversas, para narrativas que deslocavam o centro da mitologia tradicional. Isso incomodou parte do fandom, gerou acusações de “agenda social” e de ruptura com décadas de materiais derivados — livros, quadrinhos, cronologias. Mas também redefiniu quem podia se reconhecer naquele mundo.
Há algo profundamente revelador nesse embate. Kennedy governou Star Wars não como uma curadora de museu, mas como alguém que acreditava que mitos só sobrevivem quando são reescritos. Nem toda reescrita funciona. Algumas produzem resistência, ruído, frustração. Mas a alternativa — a estagnação — costuma ser mais letal a longo prazo.
Desde 2025, os rumores de sua saída circulavam como um sussurro constante na indústria. Não como sinal de fracasso, mas como reconhecimento de que um ciclo estava se encerrando. A fase de reconstrução e expansão estava consolidada. O desafio seguinte seria dar coesão a um universo cada vez mais fragmentado e responder a um público cansado de excesso. Kennedy escolhe sair no momento em que seu legado está completo: não se retira da história, mas retorna ao lugar onde sempre foi insubstituível, o da produção criativa. Ela permanece nos próximos filmes — The Mandalorian and Grogu, Star Wars: Starfighter —, mas entrega a condução diária do estúdio.


E é aí que entra Dave Filoni. Sua ascensão não é um detalhe administrativo; é uma declaração de princípios. Filoni é, acima de tudo, um herdeiro criativo de George Lucas. Entrou na Lucasfilm em 2005, ajudou a estruturar o braço de animação, foi o arquiteto de The Clone Wars, Rebels, cocriou The Mandalorian com Jon Favreau e se tornou o principal guardião da mitologia interna de Star Wars. Para muitos fãs, ele é a consciência canônica da franquia: alguém que entende seus símbolos, suas regras, seus fios invisíveis.
Ao assumir como presidente e chief creative officer, ao lado de Lynwen Brennan na gestão operacional, Filoni representa uma mudança clara de eixo: menos dispersão, mais coesão narrativa; menos apostas isoladas, mais continuidade de arcos. É uma resposta direta às críticas que marcaram os anos finais da era Kennedy. A promessa é de um Star Wars mais integrado, mais autoconsciente de sua própria história.

Mas é impossível falar desse futuro sem reconhecer o que ficou para trás. Kathleen Kennedy não deixa um legado “limpo”, sem conflitos ou divisões. Ela deixa um legado vivo. Um Star Wars que se expandiu como nunca, que experimentou formatos, tons e protagonistas, que errou em público e acertou em escala histórica. Ela levou a franquia a mais de US$ 5 bilhões em bilheteria, consolidou o streaming como novo coração do universo e, sobretudo, enfrentou o desafio mais difícil: conduzir um mito sob o olhar constante de uma audiência global, apaixonada e frequentemente hostil à mudança.
Quando Kennedy deixa a presidência da Lucasfilm, não sai apenas uma executiva. Sai uma ideia de liderança: a de que grandes universos não se preservam por imobilidade, mas por fricção. O futuro agora pertence a Filoni e à nova estrutura. Mas o presente de Star Wars — com seus personagens, suas contradições, seus riscos — carrega, de forma indelével, a marca de uma produtora que ousou mexer no mito. E, em franquias desse tamanho, ousar é sempre um ato de coragem.
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