Como publicado em CLAUDIA
Há algo curioso acontecendo com a palavra amor. Durante décadas, discutimos o amor como conceito filosófico, literário, psicanalítico. O que é amor? Como definir o que é amor? A pergunta parecia abstrata, quase acadêmica, sustentada por romances trágicos, poemas intensos e teorias que aceitavam a ambivalência como parte inevitável da experiência humana. Hoje, paradoxalmente, em uma era que mede compatibilidade por algoritmos e reduz relações a rótulos como “tóxico” ou “meta de casal”, voltamos a um ponto ainda mais instável: estamos novamente tentando definir o que é amor, só que agora sob julgamento público e binário.


Vivemos em tempos de algoritmo e amor virou categoria avaliável. É saudável ou não é? É red flag ou é destino? É amor verdadeiro ou é dependência emocional? A subjetividade foi comprimida por timelines, diagnósticos rápidos e moralizações instantâneas. E talvez seja justamente por isso que ela esteja reagindo.
Basta mencionar O Morro dos Ventos Uivantes e a disputa começa. É uma história de amor ou é um retrato de obsessão destrutiva? A insistência de que se trata de um grande romance abre espaço para mais conflito do que conciliação. Porque se aquilo é amor, então o que fazemos com a violência emocional, com o desejo de posse, com a incapacidade de existir fora do outro? A discussão sobre O Morro dos Ventos Uivantes como história de amor revela menos sobre o livro e mais sobre nossa necessidade contemporânea de classificar sentimentos.


A psicanálise pode ajudar nesse esclarecimento. Freud já apontava para o entrelaçamento entre pulsão de vida e pulsão de morte. Lacan lembrava que o amor envolve projeção e falta. Amar não é apenas desejar o outro, mas desejar o que ele representa para nós. Amor e obsessão nem sempre são categorias opostas. Às vezes são vizinhas desconfortáveis.
E é aqui que entra o exemplo inevitável, aquele que sempre retorna com um sorriso irônico: Romeu e Julieta. Dois adolescentes que se apaixonam em horas desafiam famílias e morrem em dias. Se aplicarmos as lentes atuais, poderíamos falar em impulsividade, idealização, dependência. Ainda assim, a cultura consagrou essa história como a definição de amor verdadeiro na literatura. Por quê?

Porque a morte cristaliza o sentimento. A tragédia suspende o desgaste. Nunca saberemos se o casamento sobreviveria ao cotidiano. O amor trágico na literatura funciona justamente porque não precisa enfrentar a rotina. A mesma lógica aparece em Titanic, onde a intensidade é legitimada pela perda, ou em Casablanca, onde amar é renunciar. O amor é validado pela impossibilidade.
Já quando a narrativa continua, a ambiguidade se impõe. Antes do Amanhecer nasce como promessa absoluta de conexão. Mas a trilogia mostra que o amor não termina no pôr do sol; ele amadurece, falha, se tensiona. Histórias de um Casamento vai ainda mais longe ao mostrar que pode haver amor mesmo quando o casamento acaba. Amor e fim não são necessariamente opostos. Essa talvez seja uma das ideias mais desconfortáveis para uma cultura que associa sucesso à permanência.


É nesse contexto que a escolha de Ryan Murphy de nomear sua série sobre John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette-Kennedy simplesmente como Love Story se torna provocadora. De fora, é possível afirmar que eles se amavam. Há registros de cumplicidade, magnetismo, desejo. Há também relatos de tensão, crises e dúvidas sobre a sobrevivência daquele casamento. O fato de terem morrido jovens transforma o casal em mito congelado no tempo.
Mas chamar essa história de Love Story é uma tese. É uma afirmação de que aquilo merece ser reconhecido como amor. A pergunta inevitável surge: é mesmo mesmo? Ou estamos projetando sobre eles a nossa própria necessidade de narrativas românticas coesas?
Talvez o problema não esteja na existência do amor verdadeiro na literatura e no cinema. Ele existe. Existem histórias de amor verdadeiro. A questão é que o que chamamos de verdadeiro costuma estar associado à intensidade, à renúncia ou à permanência simbólica, e não necessariamente à estabilidade prática. A definição contemporânea de amor verdadeiro muitas vezes exige harmonia constante, equilíbrio emocional e ausência de conflito. A tradição literária nunca prometeu isso.

Quando Emerald Fennell insiste que O Morro dos Ventos Uivantes é uma história de amor, está defendendo uma definição específica de amor. Quando alguém rejeita essa leitura, como eu faço insistentemente, também está defendendo outra. Nenhuma é neutra. Ambas revelam expectativas, medos e limites pessoais. Em tempos de julgamentos binários, definir o que é amor virou ato ideológico.
Talvez a pergunta central não seja se é amor “de verdade”. Talvez a pergunta seja: que tipo de amor estamos dispostos a reconhecer como tal? Em uma cultura que tenta transformar sentimentos em categorias objetivas, o amor continua sendo profundamente subjetivo. Ele escapa dos algoritmos, dos rótulos e das definições fechadas.
E talvez essa seja sua natureza mais honesta. O amor não cabe inteiro em uma métrica. Ele sempre será maior do que o veredicto que tentamos impor.
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