Dez anos depois, o que mais me impressiona em The Crown não é o orçamento, não são os Emmys, não é sequer o rigor cenográfico que virou marca registrada da série. É a forma como ela decidiu terminar.
Há algo profundamente coerente no fato de que a série não acaba com a morte de Elizabeth II. Ela termina antes. Em 2005. No casamento de Charles III e Camilla. No momento em que a instituição, depois de décadas de escândalos, perdas e crises públicas, tenta se estabilizar novamente. A escolha não é evasiva. É conceitual.
Peter Morgan sempre disse que precisava manter distância do presente. Que a série era como um trem avançando uma década por temporada, mas que não deveria chegar à estação do agora. A proposta inicial sempre foi a de cobrir a mais longeva monarquia britânica, já que Elizabeth II ficou nada menos do que 70 anos no trono, e terminar justamente perto do Jubileu de Platina. Mas no meio veio a pandemia, as gravações atrasaram e muita coisa desandou na família real, deixando o presente muito mais dramático e, de certo modo, mais tentador para a ficção do que o passado que a série havia decidido revisitar.
Assim, quando Elizabeth morreu em 2022, durante as filmagens da temporada final, esse presente invadiu o set. O último episódio precisou ser reavaliado. Não para incluir a morte, mas para reconhecer que ela já estava ali, como sombra.

Antes mesmo desse encerramento, porém, The Crown já havia feito algo importante na forma como apresentou figuras que continuam centrais na monarquia. A série ofereceu uma versão muito mais compreensiva do jovem Charles do que aquela que dominou o imaginário popular por décadas. O príncipe retratado ali é frequentemente inseguro, emocionalmente pressionado por expectativas institucionais e preso entre dever e desejo. A imagem do homem frio que deliberadamente partiu o coração de Diana Spencer foi diluída. Isso não absolve suas escolhas, mas as contextualiza. Em um momento em que a popularidade do atual rei continua relativamente baixa, essa reinterpretação teve impacto cultural real. Para muitos espectadores, The Crown ajudou a reintroduzir Charles como personagem trágico antes de ser visto como vilão.
A inevitável passagem de Diana pela série também foi tratada com um cuidado raro. A produção evitou cair na armadilha de transformar a história em um tribunal moral. Ao contrário de muitas representações cinematográficas recentes, como Spencer ou Diana, The Crown tentou equilibrar as forças em jogo. Diana aparece vulnerável, carismática e profundamente solitária, mas também inserida em uma dinâmica familiar e institucional que ninguém parecia saber administrar. Essa recusa em vilanizar completamente qualquer lado talvez seja um dos maiores méritos dramáticos da série.
Foi também nesse arco que surgiram alguns dos talentos mais marcantes revelados ou consolidados pela produção. Josh O’Connor construiu um Charles jovem cheio de fragilidade e ambição contida. Emma Corrin, então praticamente desconhecida, transformou Diana em uma figura luminosa e inquieta. Depois veio Elizabeth Debicki, cuja interpretação da princesa atingiu um nível quase fantasmagórico de semelhança emocional. E ainda houve a presença memorável de Emerald Fennell como a jovem Camilla Shand, capturando a mistura de ironia e obstinação que marcaria toda a trajetória da personagem.



Mas talvez o primeiro grande impacto de atuação da série tenha vindo ainda antes, com Claire Foy. Sua interpretação da jovem Elizabeth estabeleceu o tom emocional que toda a série seguiria. Entre as três atrizes que interpretaram a rainha, Foy acabou sendo a que mais chamou atenção crítica no momento da estreia. Havia algo de quase paradoxal em sua performance. Ela interpretava uma mulher destinada ao maior palco institucional do mundo, mas o fazia com contenção, introspecção e uma humanidade muito acessível. Essa abordagem foi decisiva para que o público se conectasse com a personagem. As interpretações posteriores de Olivia Colman e Imelda Staunton trouxeram novas camadas e grande sofisticação, mas foi Foy quem definiu a chave interpretativa da série e, de certo modo, quem estabeleceu o padrão que as outras duas herdariam.
Curiosamente, se The Crown demonstrou grande disposição para explorar conflitos emocionais dentro da monarquia, ela também foi seletiva em relação aos escândalos que decidiu enfatizar. Os problemas envolvendo Prince Andrew e Sarah Ferguson aparecem de forma relativamente discreta, apesar de já serem conhecidos no período histórico retratado. Hoje, esses episódios são frequentemente citados como parte da maior crise institucional da monarquia desde a morte de Diana. A série preferiu não fazer deles um eixo central da narrativa, o que revela tanto uma escolha dramática quanto uma prudência política.


Há também uma espécie de universo paralelo que a série poderia ter explorado com mais intensidade. Nos últimos anos, especialmente após as memórias publicadas por Príncipe Harry, muito se falou sobre as tensões entre ele, o pai e o irmão. Embora The Crown tenha sugerido alguns desses atritos, preferiu manter distância de uma dramatização direta desses conflitos. Ao mesmo tempo, a série manteve uma representação relativamente simpática de Príncipe William e Catherine, Princesa de Gales, apresentando-os como parte de uma nova geração capaz de renovar a imagem pública da monarquia.
O que a série faz, então, é algo mais sofisticado do que mostrar um fim biográfico. Ela encena a consciência do fim. A preparação do funeral, o protocolo da Operação London Bridge, a miniatura meticulosa do cortejo, os soldados em escala reduzida, cada regimento, cada medalha. A obsessão técnica não é apenas capricho de produção. É uma metáfora. A monarquia é isso: um sistema que organiza até a própria despedida.
E aí vem a cena que, para mim, sintetiza o projeto inteiro. As três rainhas na mesma sala. Claire Foy, Olivia Colman e Imelda Staunton encenando um diálogo interno. Não é fan service. É tese dramatúrgica.

A Elizabeth jovem lembra que o dever não é opcional. A Elizabeth madura reconhece o cansaço. A Elizabeth mais velha pondera se não seria hora de abdicar. A abdicação nunca aconteceu na vida real. Mas a dúvida, como ideia, importa mais do que o fato. Porque o que está sendo encenado ali não é um evento histórico. É um conflito íntimo: continuar ou não continuar quando sua vida foi inteiramente definida pela continuidade.
Essa cena só funciona porque a série, desde o início, aceitou algo que quase nenhuma produção aceita: que personagens mudam de corpo. Que identidade não é fixa. Ao trocar o elenco a cada duas temporadas, The Crown transformou o tempo em linguagem. Não tentou maquiar juventude, não tentou congelar expressão. Envelheceu. Recomeçou. Reinterpretou. E, no final, fez dessa estrutura o próprio encerramento.
Há também algo muito delicado na escolha de terminar com Elizabeth e Philip conversando sobre serem enterrados juntos. Depois de 60 episódios sobre poder, política, império, crise constitucional e escândalo, o último gesto é íntimo. Duas pessoas falando sobre o que sobra quando o cargo deixa de ser o centro. É uma decisão que revela a verdadeira obsessão da série: não a pompa, mas o preço.

A música “Sleep, Dearie, Sleep”, sugerida no episódio como possível lamento, acabou sendo tocada no funeral real em 2022. Essa coincidência cria uma fratura interessante entre ficção e realidade. A série não chegou ao fim da vida da rainha na cronologia, mas chegou simbolicamente ao rito. Como se tivesse entendido que o poder britânico se sustenta em ritual, e que é no ritual que passado e presente se confundem.
Se há algo que define esses dez anos, é isso. The Crown não contou apenas a história de uma monarca. Moldou a forma como uma geração enxerga essa história. Transformou arquivo em emoção. Converteu protocolo em drama. E, ao terminar antes do desfecho biográfico, fez um gesto raro: recusou o espetáculo da morte e escolheu a reflexão sobre o tempo.
Num mundo que exige finais explosivos, ela escolheu um debate interno.
E talvez essa seja sua maior elegância.
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