The Crown e o (ex) Príncipe Andrew: o que a série mostrou, o que omitiu e por que isso importa

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Do momento em que estreou na Netflix, há exatos dez anos, em 2016, até sua última e sexta temporada, lançada em 2023, The Crown acumulou prêmios, prestígio e enorme popularidade, inclusive entre aqueles que não acompanham de perto a Família Real britânica. Ao se propor a atravessar diferentes décadas do reinado de Elizabeth II, a série nunca pretendeu ser um documentário definitivo sobre os Windsor, mas um drama histórico guiado por perspectiva e construção emocional. Ainda assim, ao longo de seis temporadas, consolidou-se como a principal referência cultural sobre aquele reinado para uma geração inteira, o que torna inevitável a pergunta que retorna agora com mais força: como o príncipe Andrew foi retratado e, sobretudo, o que ficou de fora?

A resposta passa diretamente pela lógica narrativa de Peter Morgan, que escolheu priorizar a linha sucessória direta como eixo central da dramaturgia. A Rainha, depois Charles, depois William. O trono como centro gravitacional da história. Quem não estivesse imediatamente conectado à herança da Coroa orbitava em segundo plano, independentemente da dimensão pública de seus escândalos.

Essa escolha estrutural permitiu que a série atravessasse temas delicados sem necessariamente enfrentá-los de modo frontal. Ao concentrar o drama nos herdeiros diretos, Morgan encontrou uma justificativa narrativa para manter crises laterais fora do foco principal. Com isso, conseguiu contornar, ainda que sob forte cobrança, tanto o Megxit, o afastamento do príncipe Harry após seu casamento com Meghan Markle, quanto um problema já real e crescente à época: a crise envolvendo Andrew Mountbatten-Windsor, que hoje já não integra formalmente a linha ativa da monarquia.

Como Andrew aparece em The Crown

Andrew surge principalmente nas temporadas três e quatro, ainda jovem, enquadrado como o filho preferido da Rainha, confiante, impulsivo e protegido pela posição de segundo filho homem. O contraste com Charles é deliberado. Enquanto o herdeiro é mostrado como pressionado, inseguro e deslocado dentro da própria família, Andrew parece confortável na hierarquia, beneficiado por não carregar o peso institucional do primogênito. Há sugestões de arrogância e certa displicência no trato com assessores e funcionários, mas, no conjunto, não se constrói um retrato verdadeiramente crítico.

O casamento com Sarah Ferguson, a Fergie, é tratado com leveza e até algum frescor. A série sugere modernidade e espontaneidade, apresentando o casal como mais acessível e informal do que o eixo rígido formado por Charles e Diana. Existem insinuações de imaturidade, dificuldades de adaptação ao protocolo e desconforto diante da exposição midiática, mas o tom dominante é o de inadequação social, não de crise institucional.

O divórcio surge quase como um procedimento administrativo, sem o aprofundamento dramático dedicado ao colapso de Charles e Diana. Não há mergulho consistente na erosão pública da imagem do casal, nem na dimensão simbólica de mais um casamento real fracassado na década de 1990, período particularmente devastador para a monarquia.

Mais significativo ainda é o que não aparece. A série ignora os escândalos que já cercavam Andrew e Fergie naquele período, especialmente aqueles que atingiram diretamente a reputação dela na imprensa britânica. Para quem acompanhava os acontecimentos à época, a ausência chama atenção. Muitos espectadores podem ter relevado em nome da narrativa, mas, dez anos depois, quando a própria série passou a ser vista como referência histórica por parte do público global, essa simplificação deixa de ser apenas uma escolha dramatúrgica discutível e passa a contribuir para uma memória incompleta dos fatos.

O que ficou de fora da narrativa

A tentativa de sequestro da Princesa Anne em 1974, um episódio de enorme potencial dramático e político, simplesmente não foi dramatizada. O fato histórico existe, mas não integra a memória visual criada pela série.

O percurso de Príncipe Edward, que sonhou em trabalhar com teatro e televisão antes de assumir funções reais, também não recebeu tratamento aprofundado, apesar de representar uma tensão interessante entre vocação individual e dever dinástico. A entrada de Sophie Rhys-Jones na vida de Edward foi mostrada de maneira funcional, como sinal de estabilidade, sem grande exploração psicológica.

O ponto mais sensível, no entanto, permanece fora do enquadramento final da produção. As conexões de Andrew com Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, a entrevista desastrosa concedida à BBC, o acordo judicial com Virginia Giuffre e o consequente afastamento de suas funções públicas não foram dramatizados. A série encerra sua narrativa antes de entrar na fase mais corrosiva da crise, aquela que efetivamente colocou em xeque não apenas um membro da família, mas a própria credibilidade moral da instituição.

Outros filmes e minisséries, inclusive dentro da própria Netflix, como The Scoop, passaram a abordar especificamente esse capítulo, demonstrando que o material dramático existe e mobiliza audiência. The Crown, porém, optou por concluir sua trajetória antes de tocar diretamente no tema.

Essa escolha pode ser defendida como questão cronológica e como coerência com o recorte sucessório adotado desde o início. Ainda assim, o efeito é inequívoco. O maior escândalo moral recente da monarquia britânica não integra a mitologia audiovisual construída pela série que mais influenciou a percepção global sobre os Windsor na última década.

Daí a ironia das notícias de que a plataforma poderia, eventualmente, reconsiderar o universo da produção com novos episódios ou desdobramentos. Caso isso aconteça, a história inevitavelmente seria mais atual, mais desconfortável e, talvez, menos protegida pelo argumento elegante da distância histórica.

O argumento de Peter Morgan e a blindagem estrutural

Peter Morgan sempre sustentou que trabalha com verdade emocional, não com reconstituição jornalística exaustiva. Ao organizar a série a partir da sucessão, construiu um argumento estrutural sólido para manter crises laterais fora do foco principal. A narrativa acompanha quem está mais próximo do trono porque é ali que o conflito entre indivíduo e instituição adquire dimensão trágica. O peso da Coroa recai sobre o herdeiro, e é nesse ponto que o drama se intensifica.

Em diversas entrevistas, Morgan também defendeu a necessidade de distanciamento histórico para contextualizar e avaliar o peso dos acontecimentos. Voltar mais de quatro décadas e retratar uma Elizabeth II jovem é uma operação narrativa distinta de dramatizar fatos que ainda estão se desenrolando. Essa lógica ajuda a explicar por que nem mesmo o casamento do príncipe William foi mostrado. A série encerra seu arco apresentando apenas o início do relacionamento com Kate Middleton, como se reconhecesse um limite entre história consolidada e presente em formação.

O problema é que essa mesma lógica funciona como blindagem. Ao não dramatizar o escândalo envolvendo Andrew e Jeffrey Epstein, a série evita confrontar frontalmente a dimensão mais perturbadora da monarquia contemporânea. Ao não aprofundar o desgaste de Andrew e Fergie nos anos 1990, dilui sinais prévios de instabilidade que já atravessavam a dinastia muito antes da crise mais recente.

Não se trata de acusar a produção de omissão deliberada, mas de reconhecer que toda escolha narrativa constrói uma memória seletiva. Quando uma obra alcança impacto global e se torna referência histórica para milhões de espectadores, aquilo que ela opta por não mostrar também passa a moldar percepção coletiva.

Existe cobrança para que The Crown “conte a história como é”?

A crítica existe, mas não na forma de escândalo popular comparável às reações que envolveram Charles e Diana. Parte da imprensa britânica e analistas culturais passaram a questionar por que a produção evitou o arco mais explosivo envolvendo Andrew, especialmente depois que o tema dominou o noticiário internacional.

Ao mesmo tempo, há quem argumente que a série jamais prometeu ser inventário completo da família Windsor. Ela escolheu seu foco e o seguiu até o fim. O debate, portanto, não é apenas sobre Andrew, mas sobre os limites entre ficção histórica e responsabilidade cultural.

No momento em que se especula sobre eventuais retornos ou produções derivadas que poderiam abordar períodos posteriores, a pergunta volta com força: até que ponto The Crown foi ousada e até que ponto foi institucionalmente confortável?

Talvez a resposta esteja menos naquilo que a série dramatizou e mais naquilo que atravessou intacto suas seis temporadas. Ao privilegiar a linha sucessória direta, Peter Morgan construiu uma narrativa coesa e sofisticada. Ao fazer isso, também deixou zonas contaminadas fora do enquadramento.

E, em televisão, o que fica fora do quadro pode ser tão revelador quanto o que ocupa o centro da cena.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário