Caso Chappell Roan e enteada de Jorginho expõe limites entre fãs e ídolos

O episódio envolvendo a enteada do jogador Jorginho e a equipe de Chappell Roan começou de forma banal e terminou como um retrato desconfortável do nosso tempo. Durante um café da manhã em hotel, a jovem teria sido abordada de maneira ríspida por seguranças ao simplesmente olhar para a cantora. Saiu em lágrimas, constrangida, e levou consigo algo mais difícil de reparar do que o susto imediato: a quebra de uma admiração. Jorginho reagiu publicamente, com a autoridade de quem conhece esse lugar por dentro, e expôs um incômodo que vai muito além daquele momento específico.

Isso me atravessou porque não é novo. Porque, de formas diferentes, eu já vi esse tipo de ruptura acontecer outras vezes. E porque também já vivi o outro lado, quando o encontro entre fã e ídolo produz exatamente o oposto.

Eu tinha 15 anos quando fui a São Paulo ver Siouxsie and the Banshees. Antes do show, esbarrei com a banda em um shopping. Pedi um autógrafo, e eles não apenas atenderam, como perguntaram sobre mim, riram, foram gentis. Horas depois, já do lado de fora, eles me reconheceram de dentro de um carro e acenaram, dizendo que nos veríamos mais tarde. Aquela memória não ficou por causa do espetáculo no palco, mas pela forma como fui tratada fora dele.

Pouco tempo depois, minha irmã viveu algo semelhante ao que agora se discute. Ao encontrar Phil Collins, pediu um autógrafo. Ele parecia disposto a atender, mas o segurança reagiu de forma agressiva e desproporcional. O que marcou não foi apenas a abordagem, mas o fato de que Collins assistiu a tudo sem interromper. Desde então, ouvir sua música nunca mais foi a mesma experiência.

Anos mais tarde, em Nova York, presenciei uma cena que continua ecoando. Um homem, visivelmente emocionado, disse a Lou Reed que amava sua música. Não pediu foto, não pediu nada além disso. A resposta foi seca, distante, quase hostil. Bastaria um agradecimento. O tempo seria o mesmo, mas o efeito completamente diferente. Aquele homem provavelmente carrega essa resposta até hoje. Eu sei que eu fiquei.

Essas experiências acabaram moldando a forma como eu mesma passei a lidar com esses encontros. Quando tive a oportunidade de ser apresentada a Robert Smith, do The Cure, mesmo com acesso aos bastidores, preferi não me aproximar. Um segurança já havia barrado o caminho, e isso bastou para que eu não quisesse arriscar a relação que construí ao longo de anos como fã. Smith passou por mim, próximo o suficiente para um gesto simples, mas escolhi não fazer nada. Guardei o sorriso que ele me deu sem precisar de mais nada. Do segurança, ficou a mágoa.

Poderia dar inúmeros exemplos como esses, mas também vi o outro lado. Trabalhei com artistas extremamente famosos que, mesmo sob pressão constante, faziam questão de acolher quem se aproximava, ainda que por poucos segundos. Nem sempre havia tempo, mas havia cuidado. Nem sempre havia energia, mas havia respeito.

A fama cria uma relação desigual em que a admiração muitas vezes é interpretada como acesso irrestrito. Para o fã, aquele encontro é único. Para o artista, é apenas mais um entre muitos. Esse desencontro de expectativas se intensificou com as redes sociais. Não basta mais viver o momento. É preciso registrá-lo, compartilhá-lo, transformá-lo em validação pública. O artista deixa de ser apenas alguém admirado e passa a ser visto como alguém disponível.

Isso não é sustentável. Existe cansaço, existe limite, existe o direito de não estar acessível o tempo todo. Ao mesmo tempo, existe um acordo implícito nessa relação. Por mais injusto que seja, ele é real. Um segundo de atenção pode se transformar em uma memória duradoura. A ausência desse gesto pode produzir o efeito oposto.

Já me hospedei em hotéis onde artistas estavam, já dividi elevadores, já estive próxima em momentos sem qualquer intermediação. Em todos esses casos, optei pelo mínimo. Um agradecimento breve, quando muito. A conexão existe, mas a incerteza da recepção me fez ser cuidadosa.

Por isso o episódio envolvendo a enteada de Jorginho incomoda tanto. Com apenas 11 anos, ela não invadiu espaço, não exigiu nada, não ultrapassou limites. Fez o que qualquer criança faria ao reconhecer alguém que admira. A resposta que recebeu foi desproporcional. E, sendo filha e enteada de figuras públicas, ela conhece melhor do que muitos essa dinâmica.

Entendo o posicionamento de Jorginho porque ele também vive isso. Já vi jogadores sem conseguir atravessar uma refeição em paz, torcedores exigindo atenção, adversários se sentindo autorizados a ofender. A forma como nos comportamos mudou. O que antes era filtrado hoje é exposto sem mediação.

Sobre Chappell Roan, o pedido de desculpas não foi suficiente para mim. Não porque o artista deva controlar tudo, mas porque existe espaço para orientar quem está ao redor. Nem sempre é possível evitar situações como essa, mas é possível estabelecer limites mais claros sobre como elas devem ser conduzidas. E mais do que isso, a resposta deveria reconhecer a dimensão da experiência vivida por aquela menina. Não há como apagar da memória lágrimas e constrangimento público com uma declaração protocolar.

No fim, a relação entre fãs e ídolos continua sendo um território delicado. E cada encontro, por menor que seja, carrega o potencial de definir como essa história será lembrada. Neste caso, não teve final feliz.


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