O enorme sucesso de Love Story já aponta para o que se tornou quase uma assinatura de Ryan Murphy: transformar uma história em franquia antes mesmo que ela se esgote. Não por acaso, a retirada do “American” do título amplia imediatamente o campo de possibilidades, liberando a antologia para além de um recorte geográfico e sinalizando que, depois de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette-Kennedy, o projeto pode atravessar décadas, países e diferentes tipos de mitologia pública. As especulações, naturalmente, já acompanham esse movimento.
Ao escolher a história de John-John e Carolyn como ponto de partida, a nova antologia não apenas reconstitui um romance célebre, mas organiza uma reflexão mais ampla sobre como certos relacionamentos se tornam impossíveis de sustentar no momento em que passam a existir também como narrativa pública. Não se trata apenas de acompanhar um casal, mas de observar o processo pelo qual uma relação privada é absorvida, interpretada e, muitas vezes, distorcida pelo olhar coletivo.

O interesse agora, inevitavelmente, se desloca para o que vem depois. E o que começa a se desenhar não é exatamente uma lista de nomes, mas um padrão bastante claro. Murphy parece menos interessado em histórias de amor no sentido clássico e mais atraído por relações que se transformaram em espetáculo, em disputa de versões, em memória coletiva constantemente reescrita. É nesse terreno, onde o íntimo e o público se confundem, que surgem os casais mais plausíveis para dar continuidade à série.
Elizabeth Taylor e Richard Burton
Se há um casal que se aproxima de uma escolha quase inevitável, é o de Elizabeth Taylor e Richard Burton. A relação entre os dois já foi descrita por membros da própria equipe criativa como tendo a intensidade ideal para o formato, o que não surpreende. Poucos romances concentraram, ao mesmo tempo, tanto glamour e tanta autodestruição, e menos ainda foram tão revisitados ao longo do tempo em livros, documentários e adaptações para o cinema e a televisão, como se cada nova versão tentasse, sem sucesso, dar conta de uma história que sempre escapa a uma leitura definitiva.
Taylor e Burton viveram um amor que parecia sempre à beira do colapso, atravessado por dois casamentos, separações públicas e uma exposição constante que transformava cada gesto em evento. É o tipo de história em que o sentimento nunca existe isolado, mas sempre acompanhado de sua encenação. Dentro da lógica de Murphy, que já demonstrou interesse por figuras maiores do que a própria vida em séries como Feud, esse seria um passo quase natural.

Kurt Cobain e Courtney Love
Outra possibilidade que circula com força, ainda que sem confirmação oficial, é a de Kurt Cobain e Courtney Love. Aqui, o eixo muda de Hollywood clássico para a cultura dos anos 1990, mas o mecanismo permanece o mesmo. Trata-se de um romance que nunca pôde existir fora da pressão da fama, da dependência química e de uma relação particularmente agressiva com a mídia.
A história de Cobain e Love carrega uma dimensão trágica que se intensifica com o tempo, não apenas pela morte de Cobain, mas pela maneira como a narrativa do casal foi sendo disputada e reinterpretada. Em termos dramáticos, é uma história que já nasce marcada pela impossibilidade de controle sobre a própria imagem, algo que dialoga diretamente com o que Love Story parece querer investigar.
Britney Spears e Justin Timberlake
Se Murphy decidir avançar para um terreno mais recente, o relacionamento entre Britney Spears e Justin Timberlake surge como uma escolha que conversa de forma direta com o presente. Mais do que um romance adolescente, trata-se de um caso emblemático de como a indústria e a mídia constroem e destroem narrativas afetivas em tempo real.
A revisão histórica em torno de Britney, especialmente nos últimos anos, reconfigurou completamente a percepção pública daquele relacionamento. O que antes parecia apenas um término midiático passou a ser lido como um episódio de exposição e controle, o que daria à série uma camada adicional de análise sobre poder, gênero e reputação.

Grace Kelly e Príncipe Rainier
Entre as histórias que misturam romance e instituição, a de Grace Kelly e Rainier III oferece um tipo diferente de tensão. À primeira vista, trata-se de um conto de fadas, com uma atriz de Hollywood que se torna princesa. Mas, como frequentemente acontece nesse tipo de narrativa, o que sustenta o interesse é justamente o que não se encaixa na fantasia.
A transição de Kelly para a vida real em Mônaco implicou renúncias profundas, tanto profissionais quanto pessoais, e a imagem de perfeição sempre conviveu com relatos de isolamento e restrição. Para Murphy, que demonstra fascínio por estruturas que moldam e limitam indivíduos, esse seria um material particularmente fértil.
Brad Pitt e Angelina Jolie
Já no campo mais contemporâneo, a história de Brad Pitt e Angelina Jolie reúne praticamente todos os elementos que definem o projeto. O romance nasce sob controvérsia, se transforma em um dos casamentos mais midiáticos do século e termina em uma separação longa, pública e ainda em disputa.
O interesse aqui não estaria apenas no relacionamento em si, mas na forma como ele foi acompanhado, narrado e reinterpretado ao longo dos anos. Trata-se de uma história que nunca pertenceu exclusivamente aos envolvidos, mas sempre existiu também como espetáculo global.

Vivien Leigh e Laurence Olivier
Se a proposta de Love Story é investigar o ponto em que o amor deixa de ser suficiente, a história de Vivien Leigh e Laurence Olivier se encaixa com precisão quase desconcertante. Trata-se de um romance que nasce sob o signo da admiração artística e rapidamente se transforma em uma relação atravessada por pressões externas e fragilidades internas que não encontram resolução. Ambos eram não apenas estrelas, mas referências de excelência em seus campos, o que tornava a própria relação uma espécie de extensão de suas carreiras, constantemente observada, idealizada e, em alguma medida, cobrada.
O que sustenta o interesse, no entanto, é o modo como a trajetória de Leigh, marcada por episódios graves de sofrimento psíquico, redefine completamente a dinâmica do casal. O casamento passa a existir sob tensão permanente, entre o cuidado, o desgaste e a impossibilidade de estabilizar aquilo que, do lado de fora, ainda parecia um ideal romântico. É uma história em que o amor não desaparece, mas deixa de ser capaz de organizar a vida em comum, e justamente por isso se torna ainda mais trágico. Dentro da lógica de Ryan Murphy, que frequentemente se interessa por figuras em conflito com as expectativas que recaem sobre elas, há aqui um material dramático de enorme densidade.

Ava Gardner e Frank Sinatra
Outro romance que parece ter sido escrito já pensando no tipo de intensidade que Love Story procura, é o de Ava Gardner e Frank Sinatra. A relação entre os dois nasce sob escândalo, quando Sinatra ainda era casado, e rapidamente se transforma em uma das histórias mais turbulentas e fascinantes do imaginário de Hollywood. Há, desde o início, um desequilíbrio emocional evidente, como se o amor fosse sempre vivido no limite, entre paixão absoluta e desgaste irreversível.
Gardner e Sinatra encarnam uma dinâmica que Murphy costuma explorar com precisão: a de um vínculo que se alimenta da própria instabilidade. Ele, em um momento de crise na carreira, profundamente dependente da relação; ela, independente, consciente de sua liberdade e, ao mesmo tempo, incapaz de sustentar um tipo de entrega que não comprometesse essa autonomia. O casamento, longe de estabilizar a relação, apenas intensifica suas contradições, com episódios de ciúme, separações e reconciliações que se tornam parte da narrativa pública do casal.
O que torna essa história particularmente potente é o fato de que, mesmo após o fim, ela nunca se encerra completamente. Sinatra continuou a definir Gardner como o grande amor de sua vida, enquanto ela manteve uma relação ambígua com essa memória, recusando-se a romantizá-la por completo. É uma história em que o amor não apenas não resolve, mas aprofunda as fraturas de quem o vive, e justamente por isso permanece. Dentro do universo de Ryan Murphy, poucos casais oferecem um retrato tão claro de como a paixão, quando vivida sob exposição e intensidade extremas, pode ser ao mesmo tempo fundadora e destrutiva.


John Lennon e Yoko Ono
Já a relação entre John Lennon e Yoko Ono desloca o eixo da intimidade para o campo da narrativa pública de maneira ainda mais radical. Poucos casais foram tão intensamente apropriados pelo olhar externo, a ponto de sua própria história se tornar inseparável das versões que circularam sobre ela. Desde o início, o relacionamento foi mediado por interpretações, acusações e mitologias, muitas delas concentradas em torno do fim dos The Beatles, o que transformou Yoko em personagem antes mesmo de permitir que ela fosse compreendida em sua complexidade.
Ao mesmo tempo, Lennon vivia um processo de ruptura pessoal e artística que se entrelaça com a relação, fazendo com que o casal funcione também como símbolo de uma época marcada por experimentação, engajamento político e transformação cultural. O interesse dramático não está apenas no vínculo entre os dois, mas na maneira como esse vínculo foi continuamente reescrito pelo público, pela imprensa e pela própria história da música. É uma narrativa em que o amor existe, mas nunca de forma isolada, sempre atravessado por forças externas que o ampliam, distorcem e, em última instância, o transformam em algo maior do que os próprios envolvidos.
Fontes e o que já foi dito
As indicações mais concretas sobre o futuro da série vêm de entrevistas concedidas pela equipe criativa, incluindo declarações de Connor Hines, colaborador próximo de Murphy, que apontou Elizabeth Taylor e Richard Burton como uma possibilidade particularmente atraente. Publicações como Entertainment Weekly e Elle também reuniram análises e especulações da indústria, destacando outros casais que se encaixam no perfil buscado pela antologia.
Mais do que confirmações formais, essas pistas ajudam a entender o desenho do projeto. Love Story não avança por cronologia nem por relevância histórica isolada, mas por intensidade narrativa. O que importa não é apenas quem amou, mas quem amou sob pressão, sob vigilância e, sobretudo, sob o risco constante de ver esse amor se desfazer diante de todos.
No fim, talvez seja esse o verdadeiro critério de Ryan Murphy. Não a escolha de casais, mas a escolha de histórias em que o amor nunca pôde existir sem se transformar também em mito, e em que esse mito, inevitavelmente, cobra seu preço.
A meu ver, há uma tendência persistente de romantizar relacionamentos tóxicos, como já discuti em outro momento, transformando dinâmicas marcadas por desequilíbrio, dor e desgaste em algo quase desejável quando filtrado pela estética e pela memória. Ainda assim, é difícil ignorar que, do ponto de vista narrativo, essas histórias exercem uma atração quase inevitável. Há nelas uma intensidade que o amor estável raramente oferece, uma sucessão de conflitos que expõe fragilidades, poder, dependência e identidade de forma mais crua, e que, justamente por isso, se traduz com força no drama. É esse paradoxo que parece interessar a Ryan Murphy, não a celebração dessas relações, mas a forma como elas revelam, em escala ampliada, as tensões que muitas vezes preferimos não nomear.
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