Hacks chega ao fim entre acidez e afeto

Existe algo de profundamente revelador na forma como a temporada final de Hacks está sendo recebida. Não porque haja um consenso, mas porque não há. De um lado, a sensação de perda. De outro, a percepção de cumprimento. E entre essas duas leituras, talvez esteja o verdadeiro significado do encerramento.

O que se perde quando o conflito desaparece?

Desde o início, Hacks nunca foi apenas sobre uma comediante em decadência ou uma jovem roteirista tentando se afirmar. Era, sobretudo, sobre o atrito entre duas formas de existir no mundo. Deborah e Ava funcionavam menos como opostas e mais como espelhos distorcidos, incapazes de coexistir sem se ferir.

Era esse desconforto que movia a série.

A última temporada, no entanto, desloca essa dinâmica. O embate cede espaço para algo mais estável, mais reconhecível, mais próximo de uma amizade funcional. Há carinho, há reconhecimento, há até uma espécie de paz.

E é justamente aí que parte da crítica hesita.

Porque ao suavizar essa relação, a série também reduz aquilo que a tornava imprevisível. O que antes era tensão criativa se transforma em harmonia narrativa. E harmonia, nesse caso, parece menos interessante do que o ruído que veio antes.

O que se ganha quando a história decide terminar

Hacks sempre soube onde queria chegar. A série foi pensada como um arco fechado de cinco temporadas, o que muda a natureza da última temporada, que deixa de ser apenas continuidade e passa a funcionar como resolução.

E resolução exige outro tipo de gesto.

Deborah não está mais tentando provar que ainda importa. Ela está tentando decidir como será lembrada. Há uma diferença fundamental entre essas duas coisas. A primeira é movida por urgência. A segunda, por consciência.

É tentador ler a nova fase de Deborah e Ava como uma diluição do que existia antes. Mas talvez seja mais preciso pensar em deslocamento.

A relação das duas continua complexa, atravessada por dependência, admiração e ressentimento. O que muda é a forma como isso se manifesta. O confronto direto dá lugar a uma convivência mais elaborada, onde o afeto não elimina a tensão, mas a reorganiza.

Se antes o vínculo era sustentado pelo embate, agora ele parece sustentado pela consciência de que nenhuma das duas consegue realmente se afastar.

Isso não torna a relação mais simples. Apenas menos explícita.

A comédia que nasce da dor e aprende a olhar para ela

Hacks sempre entendeu que o humor não é um escape, mas uma forma de organizar o sofrimento. As melhores piadas da série nunca vieram de observações fáceis, mas de feridas abertas.

Se antes o riso surgia do ataque, agora ele surge da tentativa de compreender o que restou depois dele. É um humor menos defensivo, mais reflexivo. Menos interessado em ferir, mais interessado em ter continuidade, por isso até soa mais suave, não porque seja menos profundo, mas porque é menos urgente.

O que cria uma ironia silenciosa em tudo isso é que enquanto Deborah tenta controlar a forma como será lembrada, a própria série parece fazer o mesmo movimento. Em vez de insistir naquilo que a tornou marcante, escolhe encerrar em um registro mais generoso, quase conciliador. Ou seja, como todas as séries de sucesso anteriores à Hacks, dizer adeus se prova um dilema.

Sei que não sou popular quando considerei que a história se completou em duas temporadas, em que o uso de Goodbye Stranger de Supertramp tinha sido brilhante, mas quem se importa? Deborah Vance é uma das personagens mais divertidas e complexas da TV dos últimos anos, dizer adeus a ela nunca seria fácil mesmo.


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