Michael Jackson: crescer com ele, apesar dele

Literalmente nasci e cresci com Michael Jackson fazendo parte da trilha sonora da minha vida.

A voz afinada e precisa, os passos de dança que pareciam impossíveis de replicar estavam em todos os lugares. Nos LPs em casa, nas coletâneas de novelas, nas festas de família, no rádio, na televisão. Até no desenho animado dos Jackson 5. Michael não era uma escolha. Era uma presença.

Depois, já adolescente, vieram outros momentos mais íntimos. Lembro de verões inteiros com minha prima ouvindo Off the Wall sem parar, muito antes de ele voltar a ser inevitável com Thriller. E quando Thriller chegou, não era apenas um álbum. Era um acontecimento.

Para quem cresceu ouvindo rock, aquilo tinha tudo. A guitarra pesada de “Beat It”, o pop impecável, o swing, o jazz, a presença de Paul McCartney. Era um disco que atravessava gêneros sem pedir licença. E é difícil, talvez impossível, explicar o impacto de Thriller para quem não viveu aquela febre emocionalmente. Não era só música. Era sensação coletiva.

Como muitos artistas que atingem esse nível de exposição, Michael chegou à segunda metade dos anos 1980 já carregando um peso simbólico difícil de sustentar. Para alguns, começava a flertar com o excesso, com algo que beirava o cafona. E, ao mesmo tempo, sua transformação física passava a ocupar o centro da narrativa.

O rosto mudava. A pele mudava. As excentricidades ganhavam espaço. A timidez se tornava mais visível. E ali começava a se formar um dos aspectos mais desconcertantes de Michael Jackson: ele era um poço de paradoxos.

Um artista de controle absoluto, mas cuja imagem escapava. Um performer expansivo, mas profundamente recluso. Um gênio comercial, capaz de antecipar movimentos da indústria, e ao mesmo tempo alguém que parecia incapaz de sustentar a própria figura pública sem se esconder.

Como explicar que, antes mesmo da globalização como a conhecemos, ele — e apenas ele — conseguia parar o mundo para lançar simultaneamente uma música e um videoclipe? Mesmo hoje, no século 21, isso permanece raro. Talvez Taylor Swift se aproxime em escala, mas não há equivalência real. O que Michael fazia era de outra ordem.

E havia a experiência ao vivo.

Eu vi Michael Jackson ao vivo, em São Paulo, em 1993. E digo isso tendo visto Queen, Madonna, The Rolling Stones, Paul McCartney: nunca houve histeria igual. Cerca de 200 mil pessoas compartilharam essa experiência nos dois shows que ele fez aqui.

Quando ele surgia no palco, ao som de “Carmina Burana”, o tempo simplesmente se suspendia. Eram minutos de gritos, choro, descontrole. E ele sabia exatamente o que estava fazendo. Ficava parado, absorvendo aquilo, prolongando o momento. Cinco, seis minutos sem se mover. Era domínio absoluto da cena e da emoção coletiva.

Mas também já era outra fase.

Quando esteve no Brasil, na era Dangerous, algo já havia mudado. O espetáculo permanecia grandioso, mas o peso do que viria depois já começava a se insinuar.

Porque esse homem que cantou que não era nem preto nem branco, que se escondia atrás de figurinos militares, óculos escuros e cabelo cobrindo o rosto, era alguém que ninguém — nem ele mesmo, talvez — conseguiu decifrar completamente.

Já é tarde para afirmar, mas sim, sempre fiz parte do grupo fiel de fãs de Michael Jackson. Minha irmã costuma dizer que sou assim com todos que amo, que minha dedicação não diminui mesmo quando esses nomes atravessam fases difíceis, mas com Michael há algo diferente.

A música dele é tão extraordinária que se impõe. Não é possível ignorá-la. Minhas playlists — no plural — misturam períodos, estilos, escolhas pessoais que nem sempre passam pelos maiores sucessos. São, talvez, a forma mais honesta de medir o quanto ele ainda está presente.

Mas hoje essa escuta vem acompanhada de culpa.

As acusações de abuso sexual o colocam em um território impossível de ignorar. Mesmo para quem insiste em sua inocência, o desconforto se instala. E foi nesse momento que também assisti à transformação de sua imagem. Aquele símbolo de leveza e alegria se tornou mais fechado, mais sombrio, mais isolado.

Eu estava nos Estados Unidos quando a notícia de sua morte, aos 50 anos, parou o mundo. E, de alguma forma, continua parando.

Foi acidental? Foi provocada? Foi uma consequência inevitável de anos de desgaste? O que realmente acontecia nos bastidores de sua vida? Quem era Michael longe do palco? Como pai, como homem? Dificilmente essas respostas estarão no filme Michael.

Gostaria de dizer que isso não importa, mas não é verdade.

A única coisa de que tenho certeza é outra.

Que, com o tempo, talvez eu volte às minhas playlists com um pouco menos de vergonha. Porque a música de Michael Jackson, essa sim, permanece inegável. E, de algum modo desconcertante, ainda é impossível abandoná-la.


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