Alguns atores entraram para a imaginação com um papel específico que será, quase sempre, o mais lembrado de todos. Nem todos concordam ou apreciam o gosto popular, mesmo que o entendam. Vivien Leigh, com dois Oscars e várias apresentações históricas no palco, será sempre Scarlett O’Hara. Alec Guiness, que já era Sir e tinha um Oscar por uma de suas atuações preferidas (A ponte do Rio Kwai), ficava irritado por ser referido como Obi Wan Kenobi. O grande Christopher Plummer, que recebeu um tardio Oscar por uma grande atuação em Toda Forma de Amar, em 2010, detestava o papel que o fez famoso, o de Capitão Von Trapp de A Noviça Rebelde, de 1965. E foi como Trapp que o mundo o homenageou na sua morte, na sexta-feira, dia 5 de fevereiro de 2021.

A Noviça Rebelde, em inglês The Sound of Music, saiu da realidade para os palcos e dos palcos para a tela. A história dos Von Trapp, que se recusaram a aderir ao nazismo e fugiram da Áustria em plena guerra é fascinante por si só. Acrescendo grandes músicas de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, não tinha como dar errado. Mas a produção não foi fácil.
Primeiro até chegar ao diretor Robert Wise, uma fila de outros diretores recusou o projeto. Os produtores queriam Audrey Hepburn para o papel de Maria, o diretor queria Grace Kelly. Julie Andrews ainda era desconhecida nas telas e fora da Inglaterra, mas ao vir uma cópia do ainda não lançado Mary Poppins, Robert sabia que tinha encontrado sua noviça. No entanto levou um tempo para que Julie aceitasse o papel, que ela via como excessivamente doce (e próximo da babá anterior). Depois que ela assinou o contrato, o drama passou a ser quem seria o capitão. De Richard Burton a Sean Connery, passando por Yul Brynner a Bing Cosby. Todos recusaram.

O canadense Christopher Plummer estava na Broadway quando Robert Wise o viu nos palcos. Era um ator shakesperiano reconhecido e também recusou o papel, mas eventualmente mudou de idéia. Aos 36 anos, tinha um projeto pessoal de remontar Cyrano de Bergerac em formato de musical e achou que a experiência o ajudaria na sua atuação. Mal imaginaria que seria um pesadelo.

Christopher Plummer como Hamlet
Ser um ator de teatro não é a mesma coisa que atuar em musicais e Christopher ficou furioso quando descobriu que teria que gravar suas cenas cantadas antes mesmo de ter lições de canto. Só não deixou o filme antes de começar porque já tinha assinado o contrato e havia uma cláusula de multa pesada. A garrafa de whisky foi o que elegeu de apoio para superar as filmagens, fazendo dele uma pessoa quase intratável nos bastidores. Ele chamava o filme de “S&M” (sadomasoquismo) tamanha a dor que o infligia estar ali. Não apenas não apreciava a história como se condenava ter saído da glória dos palcos para se “vender” no cinema.
A doçura e educação de Julie Andrews nos bastidores, em contraste com seu mau humor e arrogância, o faziam se sentir ainda pior, colaborando para aumentar o volume de bebida que consumia, mas os dois ficaram amigos de verdade, ao longo de suas vidas. Nem Julie nem ele eram famosos ainda, mas ela suspeitava que A Noviça Rebelde mudaria tudo. O filme foi o Titanic ou o Avatar de sua época, alcançando ainda em 1965 a incrível marca de mais de um bilhão de dólares nas bilheterias. Dessa forma, ambos estariam para sempre ligados aos papéis de Maria e Capitão Von Trapp na imaginação do público.
Christopher Plummer nunca mais fez outro musical, mas esteve em vários filmes dramáticos de sucesso, assim como ganhou o Tony (o Oscar do teatro) por Cyrano de Bergerac (a peça tradicional) e Barrymore.
O Oscar só veio quando tinha 82 anos, em 2010, 46 anos depois de sua estréia. Foi o ator mais velho a receber o reconhecimento da Academia, mas ele coroou uma carreira de grandes atuações. Em Toda Forma de Amar ele está absolutamente brilhante.

A relação tortuosa com A Noviça Rebelde nunca foi 100% superada, no entanto. Ele desligava a televisão se visse o filme no ar, pedia para que não perguntassem sobre a produção nas entrevistas que concedia e ficava irritado com qualquer referência a ele. No final de sua vida, amoleceu um pouco. Há poucos anos antes de sua morte, estava em uma festa em que o anfitrião colocou o filme para mostrar para as crianças. Christopher Plummer não conseguiu sair, ficando preso na armadilha. Porém ao presenciar o encanto e risadas das crianças mesmo meio século depois do lançamento da obra, se emocionou. Segundo contou, finalmente entendeu a razão da atemporalidade do filme e riu, porque um cínico como ele também se deixou seduzir pelo clássico.

Portanto, ele seria educado com os fãs que o postaram cantando Edelweiss em A Noviça Rebelde, seu momento de destaque no filme. Afinal, o capitão usou a canção como um protesto subliminar contra o nazismo, fascismo e opressão e Christopher Plummer apreciaria o gesto tão atual.
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Interessante e revelador texto da jornalista Ana Cláudia Paixão.
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Embora Christopher Plummer não tenha gostado de ter realizado o filme, a atuação foi impecável, como cabe a um grande astor.
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