Resiliência e saúde mental em Ted Lasso

A positividade (quase) tóxica de Ted Lasso custou seu casamento na 1ª temporada da série que leva seu nome. Ainda assim, o técnico conseguiu ajudar ao time de Richmond FC virar uma equipe, à Rebecca a se encontrar como a super empresária que é, e à Nate se sentir prestigiado. Assim chegamos à uma 2ª temporada tão açucarada que chegou a ser desconcertante, mas jamais ruim! A poucos episódios de sua conclusão, estamos começado a perceber a ponta do iceberg e quem Ted Lasso realmente é. Aparentemente nem Coach Beard, seu amigo e parceiro de tantos anos percebeu ainda a verdade. E já estou vendo, vamos chorar muito.

Nunca desistir, o tema do episódio

Ted Lasso tem várias qualidades e uma delas é a trilha sonora apurada. Nenhuma canção está fora do lugar: o karaoke de Rebecca (Let it Go, de Frozen), os Rolling Stones como os autores da canção de amor de Higgins e a mulher, assim vai.

Quando a mãe de Rebecca a acorda ao som do hit de Rick Astley, Never Gonna Give You Up, ela explica quer uma música que a faça feliz, mesmo no dia que é o mais triste de todos: o do funeral de seu marido. É mais uma vez a série sendo brilhante em sua análise das relações humanas.

Na segunda temporada, o foco está em paternidade e depressão.

Quanto às relações familiares, muitos pais tóxicos passeiam na tela (apenas o pai de Sam e o próprio Ted se salvam, aparentemente), mas Ted esconde o jogo. Lembra que na primeira temporada Rebecca queria descobrir seu ponto fraco? Pois os dois são amigos agora e ela nem desconfia que o entende mais do que imagina e que a positividade é uma fachada hercúlea para ele. Ted e Rebecca são almas gêmeas, passando pelos mesmos problemas, mas não se vêem romanticamente ligados. (espero poder dizer, “ainda”).

No 8º episódio da 2ª temporada levamos um susto de saber que Ted, na verdade, é “pra cima” porque esconde que o suicídio do pai é seu gatilho para os ataques de pânico. Agora, no 10º episódio, ele compartilha os detalhes dessa tragédia. Fica pior.

Foi Ted que – ao chegar em casa mais cedo – ouviu o tiro que tirou a vida de seu pai. Ao encontrar o corpo, teve que chamar a polícia e avisar à mãe sobre o suicídio. Tinha apenas 16 anos.

Até hoje ele não entende os motivos que levaram seu pai a “desistir” e se culpa por não ter sido mais amoroso com ele enquanto estava vivo, porque nem desconfiava que houvesse problemas. Assim, cada elogio que ele faz às pessoas ganha uma conotação diferente: é Ted desesperado querendo evitar que as pessoas desistam de viver.

Nesse monólogo poderoso, há mais. Ao mesmo tempo temos Rebecca revivendo algo também traumático e que a levou a fazer as escolhas erradas no amor. Aos 16 anos, ao chegar em casa mais cedo, flagrou o pai tendo relações sexuais com outra mulher. Seu desprezo e ressentimento de ter visto a mãe ligada à uma pessoa que a traía aumenta quando descobre que ela sabia de tudo, mas, ainda assim, perdoou o pai. “Como a canção diz”, sua mãe brinca, “nunca vou desistir de você”.

Bem escrito, bem construído e de partir o coração.

Portanto, nós e a Dra. Sharon, sabemos o que leva Ted a ser um ótimo coach motivacional, porque se importa em estabelecer conexões com as pessoas e o quanto ele está sofrendo (sozinho) sem dividir sua dor com ninguém. Rebecca é uma das raras pessoas que entende exatamente o sentimento de Ted, mas ele não se abre com ela.

Eu ainda torço por Ted e Rebecca, mas a série que evita o óbvio não parece querer esse atalho. E tudo bem, o casal Rebecca e Sam ainda têm muito para viver e nos contar.

Por isso, quando ouvimos a letra de Never Gonna Give You Up no funeral, apesar de ser puramente uma canção clássica de amor, tudo ganha outro peso. E não poderia ter sido ninguém além de Ted Lasso para puxar o coro.

O destino de Nate contrastando com o dos amigos

Rebecca tem sido confrontada com a decisão de perdoar, seja seu pai, sua mãe ou seu ex-marido, Rupert. Aliás, Rupert é uma cascavel. Além de atormentar a ex-mulher até no funeral do pai dela, observou a mudança de comportamento de Nate, sussurrando algo em seu ouvido que certamente descobriremos mais à frente. Vindo de Rupert, chance zero de ter sido algo altruísta.

Nas inversões de papéis, vimos que Nate e Jaime têm pais frios e abusivos (o de Jaime é o pior de todos) e suas atitudes refletem o que acham ser a expectativa paterna. Jaime despencou em tudo: na carreira, na vida pessoal, mas agora está no caminho da redenção. Que pena que isso inclua (tentar) atrapalhar o romance de Keeley e Roy.

Já Nate, está derrapando em falhas de caráter inimagináveis e com o sucesso e ascensão, perdendo a docilidade e a empatia. Não há dúvida que será a grande questão do final da temporada.

SPOILERS!

Sabemos pela sinopse do 11º episódio que Sam será convidado para ir para outro time (será de Rupert?). Seria a alternativa perfeita para que ele e Rebecca possam assumir seu romance, mas um golpe baixo para a equipe do Richmond FC. Nate, via Rupert, certamente estará envolvido nessa virada. Afinal, Rupert abriu mão das suas ações do time de seu coração e ele é tudo, menos bonzinho.

Infelizmente estamos a apenas dois episódios antes do fim da temporada. Claramente teremos a terceira, mas teremos que esperar por ela. Vai ser duro viver alguns meses sem Ted Lasso!

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