Um beijo imbatível e eterno

Em 1953 a sociedade era muito mais reprimida, hipócrita e controladora. Portanto não é surpresa que a trágica trama de A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity) fosse chocante. Fala de adultério, bullying, alcoolismo, prostituição, sexo e guerra. São tantas as lendas dos bastidores (Frank Sinatra conseguindo o papel que rendeu seu Oscar por causa da Máfia, Montgomery Clift lidando com os problemas de bebida, etc) que chega a ser irônico que o filme também seja lembrado por um dos mais icônicos beijos registrados no cinema. É tão importante que foi destacado no obituário da atriz Deborah Kerr por todos os importantes jornais mundiais, incluindo o The New York Times e a People Magazine.

Claro que no #diamundialdobeijo, vale relembrá-lo!

O impacto dessa cena hoje não é facilmente alcançável, mas 69 anos depois segue extremamente sensual. A improbabilidade da casta Deborah Kerr no papel de uma esposa adultera, descobrindo o sexo com Burt Lancaster em uma praia, no Havaí, era tamanha em 1953 que foi um escândalo. A cena foi censurada em parte porque – nossa – os dois estavam deitados na horizontal. Não chega a ser surpresa que a carreira da atriz tenha mudado radicalmente a partir desse filme, incluindo uma indicação ao Oscar. “Não acredito que ninguém acreditava que eu pudesse interpretar até que eu tivesse vestido o maiô”, ela brincou em uma entrevista anos mais tarde.

No filme, o sargento Milton Warden (Burt Lancaster) se apaixona por Karen Holmes (Deborah Kerr), a infeliz e infiel esposa de um superior. Em um passeio de carro, os dois param em uma praia deserta, mergulham e quando saem da água se abraçam em um apaixonado beijo, ignorando as ondas batendo nos dois. “Nunca soube que poderia ser assim, ninguém me beijou como você”, ela diz com os lábios molhados. Ninguém duvidou que não era sobre beijos que estavam conversando e que as ondas não eram uma metáfora sutil. Isso porque no livro, a cena é muito mais gráfica e clara. Gravado na praia de Halcona Cove, na ilha de Oahu, Burt Lancaster insistiu em mudar a sequência na qual o beijo seria trocado com os dois em pé pela posição horizontal, na areia. Hoje o local é um dos pontos turísticos mais procurados do Havaí.

O papel de Karen Holmes não era para a escocesa Deborah Kerr. Só não foi interpretado por Joan Crawford porque ela brigou com o diretor Fred Zinnemann, insistindo em um câmera especial para ela. Deborah fez o teste e surpreendeu a todos, mas arriscou sua carreira pela ousadia. Foi obrigada a romper seu contrato com a MGM e perdeu dinheiro no processo. Mas ganhou a liberdade artística que buscava e o reconhecimento. Karen não era uma mulher promíscua, era uma mulher complexa e vítima da sociedade machista e a personalidade e classe da atriz ajudou a traduzir bem a verdade sobre a personagem. Karen era uma mulher que não aceitava a regra vigente de ser traída e ficar em casa esperando o marido. No lado pessoal, Deborah ganhou força profissional de negociação com os estúdios e passou a ser um dos nomes mais fortes de Hollywood.

A um passo da Eternidade ganhou 8 Oscars, mas o prêmio de Melhor Beijo de Todos os Tempos se mantém por sete décadas. Porque é eterno.

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