Boneca Russa emociona sem se repetir

Há um paradoxo intencional em Boneca Russa (Russian Doll), uma comédia dramática de extrema sensibilidade e nuances: a repetição é completamente diferente a cada vez. Nadia Vulvokov, a personagem da criadora e estrela da série, Natasha Lyonne, conseguiu reverter sua morte iminente da 1ª temporada, mas, estar viva a faz reviver os traumas de seu passado complicado, o que, sabemos, é outro loop completamente imprevisível.

Quando conhecemos Nadia, ela está vivendo sua última noite de vida. Porém, assim como nós, ela estranha acordar no mesmo dia e, não importa o que faça, terminar morta. Ela encontra Alan (Charlie Barnett) o único que está passando pela mesma coisa e juntos eles decifram a dolorosa e intricada maneira de superar o loop. É emocionante e surpreendente ao mesmo tempo. Como Natasha explicou ao The Hollywood Reporter, a mensagem principal é a superação da “auto-destruição”, como pessoas feridas na alma morrem todos os dias até se conectarem verdadeiramente com outra pessoa e recomeçar a acreditar nas pessoas e em si mesmo.

“Agora que parei de morrer, o que significa esta viva?”, ela provocou na entrevista, reconhecendo que se a primeira parte da história parecia mesmo Feitiço do Tempo  (Groundhog Day), agora é a série dos anos 1980s, Contra Tempos (Quantum Leap), na qual viagem no tempo é a premissa em vez de estar preso em um momento como Feitiço do Tempo, que serve como inspiração. Isso mesmo Natasha encontra – literalmente – a trilha do tempo que a conduz para décadas diferentes e onde ela tenta remediar as brigas da mãe, da avó e as situações que aceleraram os conflitos que moldaram sua própria existência. Como Alan relembra, todo filme sobre volta no tempo reforça que não podemos mudar o passado, mas Nadia insiste. Mais uma vez o paradoxo: não podemos mudar o que nos fez ser o que somos, mas, no presente, com perspectiva, podemos mudar a nós mesmos.

A atriz mesma confirma que o conceito principal da história é de que não há atalhos para a nossa transformação. E, como a história é extremamente inteligente, é para ela a metáfora da possibilidade que todos têm de mudar suas vidas e recomeçar. Primeiro se conectando e querendo viver, depois colocando o passado em perspectiva porém, aqui está o twist final, não perdendo o presente e a chance de estar com as pessoas que te amam, antes de perdê-las. No caso, para Nadia, perder os últimos momentos com sua “mãe adotiva”, Ruth, que está morrendo de câncer. Imergida em sua própria dor e crescimento interno, Nadia só percebe a importância do presente tarde demais.

A história fica aberta para uma terceira temporada e Natasha fala abertamente sobre ela. Boneca Russa é uma das séries mais profundas da Netflix, deixei de fora muitos detalhes e metáforas psicológicas que a atriz inseriu no arco da personagem. Nos convida a refletir, perdoar e viver. Nada mais importante em tempos ainda pandêmicos.

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