Seis anos depois, a despedida de George Michael

Para quem cresceu nos anos 1980s é desnecessário explicar quem foi George Michael. Como ele mesmo diz, sem falsa modéstia ou arrogância, no documentário George Michael Freedom Uncut, havia Michael Jackson, Madonna, Prince e George Michael. Uma dos mais premiados e adorados músicos de todos os tempos, foi uma febre mundial. A dois dias do dia que completaria 59 anos, vale avaliar seu último trabalho, o documentário que está em cartaz nos cinemas e que dá voz, uma última vez, a uma das mais queridas e talentosas estrelas que conhecemos. E vale ver!

Nascido na Inglaterra como Georgios Kyriacos Panayiotou, filho de imigrante grego e mãe inglesa, adotou o nome artístico de George Michael. É difícil lembrar, mas tinha apenas 18 anos quando, com seu amigo de colégio, Andrew Ridgeley fez sucesso com a banda Wham!. Entre 1981 e 1985, a banda dominou as paradas de sucesso, a MTV e tocava em estádios lotados. Mas George queria mais. Embarcou em uma das mais bem sucedidas carreiras solo de todos os tempos. Seu lendário álbum Faith rendeu Grammys e vendeu mais de 35 milhões de cópias. Fez dele um fenômeno pop.

Quando lançou Listen Without Prejudice, em 1991, o cantor conseguiu se superar artisticamente com um segundo álbum brilhante, mas a partir daí, sua vida daria uma volta de 180o. A vida pessoal, as decisões profissionais e os escândalos passaram a ser referência, não mais sua belíssima voz e música tão perfeitas. Por essa razão, em 2016, George Michael estava pessoalmente dirigindo e editando o documentário. Seu objetivo era de lembrar a todos que seu legado seria sua música, não a imagem dos tablóides. Mas nunca terminou, pois morreu repentinamente, no Natal de 2016. Tinha apenas 53 anos.

Em uma primeira avaliação, graças à sinceridade rara de um artista no porte dele, que o documentário é sobre “peso da fama”. Não, é sobre o custo da liberdade. Algo que sempre esteve presente na arte de George Michael (que tem pelo menos duas grandes canções chamadas Freedom, uma na carreira solo e outra com o Wham!).



George repassa com humor seus primeiros na banda que o revelou para o mundo, como fez cada gesto pensado nos anos de Faith, como a turnê mundial e a atenção o exauriu e como, ao ousar questionar o status quo, foi massacrado pelas gravadoras, okay, pela Sony. George, que estava ciente de ter passado por uma exposição excessiva promovendo Faith, queria reduzir o ritmo para que mantivesse saúde e espaço para crescer. A ganância da indústria da música (que viria quebrar anos depois), não quis considerar o pedido. A briga judicial foi feia, ele perdeu e essa imagem ficou marcada em sua trajetória. George queria a liberdade que estava rendendo milhões à Sony e que cantava com perfeição: You’ve got to give what you take (você tem que dar o que toma).


E a beleza de George Michael não era (apenas) física ou vocal, suas melodias e letras, especialmente após Listen Without Prejudice ganharam uma maturidade que fazem dele um dos melhores de todos os tempos. Depois que passou por tantas perdas e conflitos, ele não tinha mais tempo para hipocrisia. Por isso falou e fala com tantas gerações ainda.

Para brasileiros, há um carinho especial. Foi no Rio de Janeiro, em 1991, que George Michael conheceu o homem que mudou sua vida, Anselmo Feleppa. O romance de apenas 2 anos encorajou ao cantor assumir ser gay, passar a cantar sobre temas sérios e mudar sua vida. Anselmo morreu em 1993, como consequência da Aids e – segundo o cantor – a partir daí entrou em um espiral explorado pelos tabloides. Perder sua mãe logo em seguida, para o câncer, contribuiu para um isolamento que rendeu o belíssimo Older, em 1997.


George Michael Freedom: Uncut é uma boa maneira de relembrar e homenagear o artista. Responsável pela narrativa, ele não esconde que sempre foi teimoso, exigente e ocasionalmente egocêntrico, mas sempre honesto. O documentário é sobre seu legado musical, incluindo as influências pessoais para cada período, co-dirigido pelo amigo, parceiro musical e confidente, David Austin. Chegou ir ao ar na TV britânica, em 2017, mas agora ganhou a versão “sem cortes”, com vídeos caseiros de George e Anselmo, entre outras imagens. Portanto não aborda os últimos anos do cantor ou prisões por infrações de trânsito nos anos 2000, nem mesmo menção aos namorados que teve depois de Anselmo.

Dois trechos são particularmente emocionantes, quando relembra a polêmica e sua identificação com a música negra, assim como reconhecimento que o fez ser um artista branco liderando as paradas negras também. E o show em homenagem a Freddie Mercury, que George cantou Somebody to Love para Anselmo, que estava na platéia.

No final das contas o que fica é a música e o brilhantismo de George Michael é inegável. Faz muita falta…

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