A narrativa de Westworld mudou, mas a trama é a mesma

Westworld é uma série com excelentes atuações, fotografia e trilha sonoras ímpares e a velha história de Poder destruindo a alma, como será um mundo dominado pela inteligência artificial, quem vai vencer de verdade para dominar a tecnologia, etc. A premiada (com justiça) franquia da HBO Max, estreou com uma complexa narrativa não-linear, misturando a linha do tempo na apresentação das personagens e objetivo de cada um. Foram reviravoltas emocionantes e surpreendentes nas duas primeiras etapas e, embora visualmente estonteante, um tanto complicado de entender ou se conectar na terceira. Por isso essa quarta fase está bem diferente de todas, especialmente na narrativa. Em apenas dois episódios, já sabemos quem é quem, o que está acontecendo e o que cada lado quer (é uma história meio curta de mocinhos exemplares). Uma mudança radical que simplifica a série em tudo. Mesmo.



Antes da estreia da série, eu fiz questão de assistir ao filme de 1973 de mesmo nome, o embrião de tudo que estamos vendo e estrelado por Yul Brynner (no papel que hoje é de Ed Harris). É um filme sufocante, datado em termos de efeitos especiais e muito estranho mesmo há quase 50 anos atrás.

Westworld original foi o primeiro filme dirigido pelo escritor Michael Crichton. Foi pensado como roteiro, mas lançado como livro, em 1972, antes de chegar às telas em 1973. Com apenas 107 páginas, a proposta podia parecer simples (ou curta), o que não tirou sua profundidade. No Brasil, ganhou um subtítulo que é spoiler: Onde Ninguém Tem Alma.

A obra impactou muitos artistas, incluindo o diretor John Carpenter, que criou seu icônico psicopata Mike Meyers, da franquia Halloween, inspirado no homem de preto, assim como James Cameron recomendou a Arnold Schwazenegger a pensar na personagem de Yul Brynner para criar O Exterminador do Futuro. Isso mesmo, William tem repercussão em algumas personagens mais famosas da cultura pop.


Graças aos elogios de crítica, Westworld ganhou uma continuação, Futureworld, que não teve o mesmo impacto. Toda inovação de mostrar o ponto de vista do vilão (literalmente) e efeitos especiais (que hoje achamos quase cômicos, mas eram inovadores meio século atrás) transformaram os filmes em cult, mais foi com o inspired-by-reboot da HBO Max que finalmente a história ganhou o escopo sonhado pelo autor. Nesses 50 anos que separaram o original de sua revisitação, Michael Crichton recuperou o conceito do “parque de diversão que dá errado” para nos transportar para Jurassic Park, mas isso é material para outro (e prometido) post.

A série da HBO Max aparenta ter dado uma derrapada na 3ª temporada, quando saiu do parque Westworld e transportou a luta dos andróides, que chamamos de “hospedeiros”, para o mundo real e futurista. Embora especialistas e canais de Youtube se proliferem para teorizar e explicar a narrativa não-linear, a trama ficou com uma aparente falta de propósito e cheia de reviravoltas. O número de hospedeiros e verdadeiros humanos ficou cinzenta, o estudo da destruição da alma de um homem inicialmente bem intencionado (William) perdeu um pouco sua conexão com o público. Portanto chegamos à 4ª parte da história com um grande “e daí?”, em uma guerra virtualmente impossível para os humanos vencerem. A decisão foi simplificar tudo.

Em termos de expectativa, temos os lados bem definidos, mesmo com muita coisa ainda para responder. A versão má de Dolores, Wyatt, está agora incorporada por Charlotte Hale (Tessa Thompson). Sua versão humana, até onde entendemos, foi assassinada pela hospedeira. A “Charlotte-Wyatt” segue com o plano de erradicar a vida humana na terra. Para impedir que William (Ed Harris) os extermine antes, tinha “matado” o humano no final da tempoarda, e o multiplicado em um hospedeiro ainda mais cruel do que o torturoso personagem. Descobrimos que William não morreu, mas está preso e congelado por hora, com sua cópia perfeita seguindo com a vida criminosa iniciada na temporada de estreia.

Maeve (Thandiwe Newton) e Caleb (Aaron Paul) são os (violentos) mocinhos, assim como Bernard (Jeffrey Wright), que ainda não encontramos e apenas no terceiro episódio saberemos como poderá ajudar. Dolores, agora Christine (Evan Rachel Wood) aparentemente está fora do parque de diversões, mas claramente monitorada e controlada. Está de volta ao seu nível de jogo original, onde vive uma realidade morna com alguns flashes de que algo está fora da ordem. Sabemos que Teddy (James Marsden) está de volta e por perto também.

Com tudo traçado às claras, os hospedeiros querem o domínio mundial, a grande virada da temporada foi transportar Maeve de volta ao parque, onde embora siga poderosa, não sabe mais das regras uma vez que o sistema foi atualizado e ela não é mais parte integrante da rede. Nos deixaram em uma Chicago dos anos 1930s, uma cidade violenta e dominada pelo crime, como eram os Westerns originais. Amarrar tudo isso será menos complicado do que antes, pelo menos, mas, ainda assim, potencialmente surpreendente.

Na versão do Westworld de Lisa Joy e Jonathan Nolan, a diferença para a história de Michael Crichton foi a de transformar os andróides anfitriões nas vítimas, às vezes empáticas, de um mundo criado e dominado pela arrogância, ganância e crueldade humanas, em vez dos rasos vilões fora de controle. Em comum a história mantém a revolta contra o exceço e como os caminhos para remimaginar o mundo ainda refletem a violência de um mundo opressor. Como sabemos, pode ficar mais “simples”, mas jamais menos profundo.



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s