Hedy Lamarr – A Mulher que há 80 anos patenteou a tecnologia para o Wifi

Como publicado em CLAUDIA

Se até hoje estamos lutando por equidade, imagina como nos anos 1930s uma mulher inteligente e talentosa se sentia com as amarras de uma sociedade patriarcal? Pois vou aproveitar que a minha coluna é sobre Hollywood e histórias do cinema para celebrar no dia em completam 80 anos que a atriz Hedy Lamarr, e o compositor George Antheil, receberam uma patente, a número 2.292.387. Sabe para o que era? Para um sistema de comunicação de salto de frequência criado para os dois, nada menos do que se tornou a base para tecnologias modernas como telefones sem fio e Wi-Fi. E isso não é ficção!

Nascida na Áustria, Hedy Lamarr virou um dos maiores ícones do cinema, com uma beleza estonteante e ousadia. Em 1933, chocou o público conservador ao protagonizar uma cena de orgasmo feminino e aparecer nua no filme Êxtase, quando tinha apenas 18 anos e ainda usava seu nome verdadeiro, Hedy Kiesler.


No mesmo ano, desafiou a oposição da família (de origem judaica) ao se casar com o fabricante de munições e armas, Friedrich Mandl, um dos homens mais ricos da Áustria e ligado à Benito Mussolini e Adolf Hitler. Claro que deu errado. Além de conviver de perto com o alto comando nazista, Hedy foi praticamente “sequestrada” pelo marido controlador, que a impediu de trabalhar e a trancou em um de seus castelos.

Como em um filme de ação, a atriz conseguiu escapar (literalmente) e fugir primeiro para a França e depois Inglaterra, onde foi apresentada ao dono da MGM, Louis B. Mayer. Hábil negociadora, conseguiu um salário maior que originalmente oferecido e chegou em Hollywood em 1938, já com o novo sobrenome, Lamarr (para que não a associassem ao difamado “Êxtase”).

Imediatamente foi anunciada como “a mais bela mulher do mundo”, trabalhando com astros como Clark Gable, Spencer Tracy, Charles Boyer e Victor Mature, entre outros, mas é Hedy Lamarr, a cientista que hoje permanece como seu título mais famoso. Ironicamente, sua criação foi um sofisticado aparelho de interferência em rádio para despistar justamente radares nazistas. (A atriz patenteou a invenção usando seu nome de bastismo, Hedwig Eva Maria Kiesler).

Desde pequena ela se interessava com igual paixão pelas Artes como pela Ciência. Quando estava tocando piano ao lado do compositor George Antheil, eles começaram uma brincadeira de um dueto onde Hedy repetia – em outra escala – as notas que ele tocava. Estabeleceram assim um canal de comunicação simultânea e submeteram a ideia ao Departamento de Guerra norte-americano, que o recusou, em junho de 1941. No ano seguinte, a dupla conseguiu a patente – no dia 11 de agosto de 1942 – com uma versão inicial de troca de 88 frequências. Moderno demais para a época. Apenas 20 anos depois, em 1962, que as tropas americanas passaram a usar o aparelho. A essa altura, a patente de Hedy Lamarr já tinha expirado e uma empresa americana “adaptou” a invenção. O crédito aos verdadeiros inventores só foi dado em 1997, quando tiveram uma menção honrosa do Governo Americano “por abrir novos caminhos nas fronteiras da eletrônica”. O aparelho patenteado por eles serviu de base para tecnologias usadas em Wi-Fi e Bluetooth, usadas em telefones celulares.

Hedy Lamarr, morreu em 2000, aos 85 anos, em Orlando, na Flórida. Em 2020 conversei com a escritora Marie Benedict, autora da biografia A Única Mulher, e falamos um pouco sobre essa fascinante mulher. A seguir, um trecho do papo exclusivo com CLAUDIA/MISCELANA.

MISCELANA: Como você ouviu falar de Hedy Lamarr pela primeira vez?
MARIE: Foi anos atrás para ser honesta. Estou sempre procurando por mulheres fortes e suas histórias e estava almoçando com um grupo de amigos que mencionaram uma atriz da época de ouro Hollywood que também inventora. Isso me impressionou, a ideia dessa bela mulher saudável ser tão brilhante em um momento em que isso não seria celebrado ou aceito. E então adicionei Hedy Lamarr à minha lista. Eu mantenho uma lista de mulheres históricas que eu acho que as histórias merecem ser contadas, e meio que visito a história dela de vez em quando.

MISCELANA: Aliás, uma excelente idéia, ter essa lista sempre em mãos e atualizada! (risos). E como foi a trajetória de Hedy?
MARIE: Me aprofundei na pesquisa e descobri que a invenção que ela fez durante a Segunda Guerra Mundial, era para ser uma contribuição contra o Nazismo. Mas o esforço de guerra, na verdade, acabou se transformando em várias iterações e eu sabia que tinha que contar a história dela, que era muito importante.

MISCELANA: E na mesma lista de mulheres em que está Hedy Lamarr você já tinha destacado a história da esposa de Albert Einstein, também apagada mas com contribuições significativas, não?
MARIE:  Sim, outra mulher inacreditável cuja história merece ser contada, meu Deus.

MISCELANA: A lista é longa?
MARIE: Tem mais de 50 mulheres. Ainda há uma secundária de mulheres cujos nomes quero investigar, mas ainda não consegui. A lista principal estão mulheres, como a do Einstein, que ainda não tiveram reconhecimento devido pelo trabalho que fizeram na Ciência e é um problema que ainda acontece hoje. Hedy Lamarr, foi o estereótipo disso. Uma ideia de que as mulheres não podem ser inteligentes o suficiente para realmente fazer essas invenções inacreditáveis.

MISCELANA: A beleza física dela a desacreditava?
MARIE: Ela realmente era uma beleza única na geração e isso a prejudicou. Realmente acredito que Hedy Lamar, em qualquer outra época, teria sido lendária por sua invenção. Ela era muito mais do que apenas sua aparência (linda).

MISCELANA: E o que você mais te surpreendeu que você não sabia?
MARIE: Seu passado, eu acho. Inicialmente, pensei que seria a história dessa atriz que fez essa invenção incrível contra todas as probabilidades, mas quando aprendi sobre onde cresceu, sendo filha de uma mãe judia em uma Áustria que tinha Hitler literalmente respirando no pescoço, o casamento com o homem mais rico da Áustria e que era fornecedor de armas para Mussolini e Hitler, como era essa estrela de cinema épica, foi quase inacreditável.

MISCELANA: Como ela escapou do marido e tudo o mais…
MARIE: Exato, tudo isso foi chocante. Como se essa parte da história dela já era uma grande história e tudo isso foi antes mesmo de ela vir para Hollywood!

MISCELANA: Ela tinha acesso ao mais alto comando enquanto estava na Áustria!
MARIE: Sim, a proximidade dela com o epicentro da Segunda Guerra Mundial e ter continuado a lutar contra isso tudo. Ela tinha acesso a conversas secretas porque era uma mulher e os militares, cientistas e políticos ao seu redor presumiam que ela não conseguia entender o que eles estavam falando. Há tantas coisas sobre o início de sua vida que é espantoso.

MISCELANA: Você conta essa história um pouco mais criativamente em seu livro, não?
MARIE: Sim. Minhas histórias estão ancoradas nas pesquisas e tanto quanto posso, conto apenas o fato. Mas biografias e histórias de não-ficção às vezes são complicadas com as mulheres porque só recentemente tivemos acesso a elas. Sempre há grandes lacunas onde nem pesquisa consegue cobrir.

MISCELANA: Por exemplo?
MARIE: Tipo, agora sabemos que ela e George [Antheil] trabalharam juntos nesta invenção. Entraram com pedido de patente, mas não sabemos  detalhes em torno de sua epifania naquele momento em que ela realmente veio com essa invenção incrível. Se ela fosse um homem, provavelmente alguém teria gravado. E aí que entra a ficção. Realmente espero que possa ajudar a contar as histórias dessas mulheres de forma mais completa.   

MISCELANA: Devorei o livro porque ajuda você a se sentir como se estivesse lá.
MARIE: Você sabe que eu quero que as pessoas o façam. Identifique-se com se sentir próximo a essas mulheres e às vezes é muito difícil conseguir isso com a não-ficção. É difícil. Meu objetivo final é mudar a maneira como as pessoas olham para o passado e, em seguida, adotar essa nova perspectiva e usá-la no presente. E a melhor maneira de fazer isso é se sentir perto dessas mulheres. Você sabe, para realmente senti-los, vê-los entender o que eles estavam passando e entender o quão importante foi o trabalho de sua vida.

Ela tinha acesso a conversas secretas porque era uma mulher e os militares, cientistas e políticos ao seu redor presumiam que ela não conseguia entender o que eles estavam falando. Há tantas coisas sobre o início de sua vida que é espantoso

Marie Benedict


MISCELANA: O impacto de Hedy Lamarr na ciência é mais relevante até do que sua própria carreira em Hollywood?
MARIE: Absolutamente. A invenção começou a ficar mais conhecida e ela mesma disse que esse reconhecimento era mais importante para ela. Uma celebração melhor de quem ela realmente foi. Certamente seu legado é como uma aventura. Já vai durar mais que seus filmes, até porque eles meio que desapareceram, nem sempre ultrapassaram o teste do tempo. Alguns deles são tão grandes mais. O que realmente teve impacto de longo alcance foi o que ela fez. Foi revolucionária.

MISCELANA: E como você acha que ela estaria hoje?  
MARIE: Acho que ela estaria encantada. Entendendo todas as diferentes invenções e mudanças revolucionárias e a maneira como nosso mundo é conduzido quase tudo é baseado na ideia original que ela teve. A tecnologia de espectro espalhado ou salto de frequência de rádio. O que quer que você chame, essa pepita de uma ideia que era o núcleo de sua invenção e se tornou a pepita de outra ideia. E que tudo isso é construído até chegarmos ao Wi-Fi. Acho que ela ficaria emocionada com isso.

MISCELANA: E o que a história dela inspira para gerações futuras?
MARIE: Cada uma dessas mulheres incríveis teve alguém em sua vida que acreditou nelas incondicionalmente. No caso de Hedy Lamarr foi seu pai, que sempre estimulou seu intelecto e sua crença em si mesma. Ele garantiu mesmo em uma época em que era ilegal para as meninas irem para o ensino médio, que ela fosse até a universidade. É uma lição tão poderosa sobre a importância do apoio, orientação, aliança, você sabe todas essas coisas que nós precisamos e ainda almejamos.

MISCELANA: Por isso sua lista e livros ganham maior peso, não?
MARIE: Sinto que mulheres têm sede dessas histórias, de saber que outras fizeram um trabalho importante e que traçaram o caminho para seguirmos. Tudo o que temos a fazer é pisar nele e caminhar. Sim, às vezes é uma batalha, absolutamente, mas é possível e muitas dessas mulheres ajudam outras mulheres. É como se estivessem puxando do passado, sabe? Continuamos a nos erguer juntas.




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